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RAVIOLONI DI PESCE OU A MULHER QUE PEDI PRA DEUS


Homem só, precisa urgente de empregada doméstica. De preferência magra, limpa, apresentável, de bons princípios, que possa cuidar de todos os afazeres de um pequeno apartamento. Indispensável saiba cozinhar. Bom salário.

Foi esse o anúncio que coloquei domingo num jornal de grande circulação.

A primeira candidata que tocou a campainha era alta como um espigão e calçava enormes e barulhentos tamancos de madeira. Falava como uma matraca e usava perfume de litro, abundante, forte e enjoativo.

Seria impossível compartilhar meu pequeno espaço, ainda que por algumas horas, com esse espécime mal cheiroso de mulher.

Meia hora depois surgiu uma segunda. Feia, desengonçada e mal vestida. Cheiro forte de suor, sovacos recortados e nítidos no vestido que envergava, a dar a impressão de não se importar muito com a higiene. Iria empestar o ambiente.

A terceira era uma bela figura de mulher. Jovem, delicada, corpo bem formado, trajes compatíveis. Penso que nenhum homem a descartaria, especialmente numa situação de emergência. Mas lamentavelmente confessou que não tinha nenhuma experiência no trato doméstico. Contou que sequer sabia fritar um ovo e preferia ficar longe da cozinha.

“- O senhor já pensou em comprar marmita pronta?” perguntou.

“- Não”, respondi. Pois trivial requentado nunca estivera nos meus planos alimentares. Acabei por dispensá-la.

Muitas outras se seguiram: morenas, branquelas, baixas, gordas, desmazeladas, portadoras de mau hálito, miúdas ou grandes demais, quietas, tagarelas, complicadas, tristes, chatas, caras, ignorantes, tolas. E foram, todas, recusadas.

Já desanimava quando à minha porta bateu uma senhora franzina e de idade avançada.

Esta jamais terá condições de dar conta do recado, pensei. Mas, de forma respeitosa, deixei-a falar.

“- Fiquei viúva há seis meses. Sou sozinha, já superei o trauma e quero trabalhar”.Garantiu-me que poderia cuidar de tudo como sempre fizera em sua própria casa.

 Não estava inclinado a aceita-la. Mas mudei de idéia quando relatou que amava cozinhar, pois seu marido sempre fora um fino e exigente “gourmet”.

Logo no dia seguinte pude degustar, no almoço, um risoto de carne de sol e cogumelos verdadeiramente divino. Ansiei pelo jantar e deliciei-me com um filé de salmão grelhado ao molho de mel e mostarda.

Um soberbo espaguete “alla milanese” coroou o almoço do dia seguinte e um coelho a caçadora com polenta cremosa selou um incomparável jantar.

Os meses transcorreram céleres.

Pela minha frente desfilaram robalos, terrines, tortas, lagostas, folhados, costeletas, grelhados, filés, cremes, risotos, petiscos, aves, rocamboles, caldos, mousses, camarões, carnes exóticas, bacalhau, crepes, frutos do mar, sorvetes e um sem número de iguarias difíceis de lembrar e nomear.

E tudo preparado com primor e galhardia. De um simples pastel de palmito a um requintado brasato al Barolo; de um singelo tabule a uma delicada truta com amêndoas, de uma trabalhosa feijoada a um sofisticado “gigot d’agneau”, de um clássico “filet au poivre” a uma tradicional “paellla marinera”.

E eu não me constrangia em informar a todos que passara a vivenciar nova e apaixonada lua de mel. Ainda que gastronômica.

Sei que será difícil acreditar. Mas era dotada de outra surpreendente qualidade: raríssimos eram os dias que folgava. Trabalhava de forma ininterrupta, sábados, domingos e feriados afirmando que essa era sua forma de ser e era assim que gostava de fazer.

E abria-se num largo sorriso de contentamento quando lhe participava que traria convidados para partilhar a mesa. Nessas ocasiões desdobrava-se, ganhava a agilidade de uma criança, multiplicando-se para, além de preparar a refeição, servi-la com competência e cortesia a todos os presentes.

Sou franco em admitir que passei a viver em verdadeiro estado de graça.

Foi quando, de forma surpreendente, numa negra, triste e estúpida noite de novembro, após haver degustado algumas ostras frescas com manteiga de açafrão, um corretíssimo linguado a parmigiana e saboreado uma deliciosa torta de morangos com sorvete de canela e farofa de nozes, ela acercou-se bem perto de mim e disse-me:

“- Precisarei deixá-lo. Vou morar com minha irmã, em Lisboa. Pois ela também acaba de ficar viúva, está só e necessita dos meus cuidados e da minha companhia”.E acrescentou: “- Sentirei muito sua falta. Mas vou aprender muito com ela pois se aposentou como chefe de cozinha de um afamado restaurante português”.

Juro que não estava preparado para morrer. E, naquele fatídico instante tive um magnífico vislumbre. E disse:

“Calma Dona Maria. Não se precipite. A senhora já pensou em trazer sua irmã para cá? Claro! Ela até poderia morar conosco. Os três, sós e abandonados, poderíamos formar uma família feliz! Ambas poderiam aprofundar-se nas lides gastronômicas e eu seria uma cobaia perfeita para degustar todos os aportes e experiências culinárias”.

Insisti por uma semana seguida. Usei todos os argumentos. Em vão. Pois perdi essa batalha.

E a mulher dos meus sonhos!

A separação foi traumática. E nunca consegui recuperar-me.

Porque mulheres charmosas, cultas, elegantes e apetitosas existem às centenas em todos os lugares. Mas uma cozinheira criativa e competente é algo raro e extremamente difícil encontrar. E conquistar.

Paciência, voltei a pensar com meus botões. Terei que me resignar e desfrutar apenas dos demais prazeres da vida.

Mas este relato é lembrado porque se aproximam as festas natalinas. E recordei-me de um prato que ela preparava, verdadeiramente encantador, de sabor leve e delicado e que será excelente alternativa para as ceias festivas do final de ano.

Trata-se, como o título desta crônica já adiantou, de uma “pasta ripiena”: raviolone com recheio de salmão e linguado, ao molho artesanal rústico de tomates e manjericão.

Arregace as mangas. Tempo, disposição e vontade não poderão faltar.

Comece por peneirar um quilo de farinha tipo semolina. Acrescente nove a dez ovos, uma ou duas colheres de azeite e sal. Amasse tudo com vigor até obter uma massa lisa e homogênea. Deixe-a descansar e passe a preocupar-se com o recheio.

Algo em torno de um quarto de quilo de filé de linguado limpo e outro tanto de salmão fresco. Pique finamente com faca ambos os peixes até transforma-los em granulosa farofa.

Coloque duas ou três colheres de azeite numa frigideira. Faça frigir alho picado e cebola ralada. Acrescente o peixe, sal, pimenta do reino branca, páprica doce e picante, uma pitada de colorau. Alguns minutos de cozimento deverão bastar. Junte meio copo de caldo onde dissolveu uma colher de amido de milho. Mexa por um minuto para encorpar, retire do fogo e deixe esfriar.

Enquanto espera abra a massa. Utilize máquina de macarrão. Dessas manuais, domésticas, para obter algumas tiras largas com espessura fina.

Coloque, agora, uma colher do recheio sobre uma delas. Sobreponha outra porção de massa. Com um cortador de pastel forme peças redondas com seis ou sete centímetros de diâmetro. Certifique-se que os raviólis estão bem fechados apertando delicadamente suas extremidades com os dedos, em toda sua extensão. E faça-os repousar em uma forma polvilhada com farinha. Cubra-os com papel filme e permita que descansem enquanto prepara o molho.

Um quilo de tomates bem maduros. Mergulhe-os por dois ou três minutos em água a borbulhar. Tire pele e sementes. Desmanche-os grosseiramente com as mãos. Reserve.

Refogue em azeite alho pulverizado e cebola ralada. Acrescente a polpa reservada dos tomates. Não os abandone mas mexa constantemente permitindo que, ao engrossar, o molho se transforme num amálgama com nacos grosseiros de polpa a enriquecer a mistura. Sal e pimenta. Algumas pequenas folhas de manjericão serão acrescentadas pouco antes de servir.

Cozinhe o macarrão em abundante água a ferver. Algo em torno de oito a dez minutos. Coloque quatro ou cinco raviolones em um prato aquecido. Recubra-os, generosamente, com o molho de tomates. E uma boa porção de queijo parmesão de qualidade.

Sente-se confortavelmente para desfrutar da sessão degustativa que se seguirá. Descarte os pensamentos indignos. Está certo que é uma reunião festiva mas afaste os comensais barulhentos, bêbados ou alegres demais. E concentre-se na fina iguaria à sua frente.

Não dispense o babador que será necessário.

E esqueça os demais pratos programados para a ceia.

Pois o sabor deste macarrão permanecerá indelevelmente gravado na sua memória. E, por nada deste mundo, você quererá perder a oportunidade de repeti-lo.



Como sempre dedicado a V.A.
Tagobar
Enviado por Tagobar em 21/10/2005
Código do texto: T61879

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