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Garotos e garotas de programa (informatiquês)

Apesar de ser a profissão mais antiga do mundo, há quem diga que esta prática é fruto da modernidade, conseqüência da revolução tecnológica.  Acontece, que até a década de 70 essa profissão, como todas, era exercida somente por homens e claro,  não era reconhecida. Foi preciso que as mulheres entrassem no mercado, competissem com os homens e exigissem a regulamentação.

A verdade é que desde sempre ela começa do mesmo jeito: um joguinho aqui, um programinha ali, outro acalá.  Só por curiosidade. Brincadeira de criança. Só para fazer graça. De graça. Quando muito, troca por bolinha de gude, roupinha de boneca, canivete suíço ou sorvete. Os pais nem percebem. Ingenuamente, ainda incentivam presenteando-os com games maliciosos. Os amigos acham o máximo e sugerem que o gênio precoce ganhe uma graninha para o cinema. Que faça um bico, um estágio.

A primeira vítima dos garotos e garotas de programa, normalmente é um parente bem próximo de um desses amigos ou dos próprios pais do adolescente. A vítima quase sempre ocupa um cargo numa empresa pública. Governo e pessoas mais velhas são complacentes com estagiários. Mas não se enganem senhores pais e empresários: todo o garoto ou garota de programa, sonha um dia, abrir seu negócio.

Após um rápido telefonema, eles são contratados e recebidos pelos anciãos que nas primeiras semanas contam histórias impressionantes aos garotinhos. Histórias assustadoras dos tempos dos dinossauros modelo IBM360 que falavam uma linguagem hexadecimal complicadíssima. Os programas tinham início numa confortável, farta e regulável cadeira giratória, forrada de couro preto e depois prosseguiam em cima de sóbrias escrivaninhas de imbuia maciça recobertas por uma placa de vidro temperado que protegia fotos de cachorros, família e pescaria.

Tudo era feito no braço, contam eles. No muque. Passavam noites em claro fazendo exaustivos testes de mesa. Um programa demorava meses para ser concebido e só entrava em estado produtivo quando estava absolutamente seguro e não havia a menor possibilidade de um laço fora de controle. Quando o programa estava no ápice, a vítima verde em estado terminal, suplicava: “more... more... please press any key... any key. Oh! Please!” Então o programador vitorioso, aplicava o golpe final: // exec. O programa tonto de excitação, ficava rodando a noite inteira.

Hoje, não há mais ritual nem sedução. Não se pensa mais na essência do programa. Tudo é muito superficial. Garotos e garotas têm mãos hábeis e cérebro nos dedos. São rápidos, elegantes e muito bem educados. Não se permitem linguagens de baixo nível. Abusam de componentes visuais e dão ao cliente sempre uma boa impressão. Não admitem mais aquela velha impressão cheia de falhas produzidas por agulhas gastas de impressoras matriciais que causavam sérios acidentes de trânsito, batendo o carro em horários de pique, nem aquelas que estouravam o cabeçote nas mãos fazendo lambuzaria. Abominam os formulários contínuos em caixas que duravam meses. Nada pode levar mais que um mês para acabar. Agora as impressoras são coloridas, qualidade  laser e o papel é super higiênico e já vem cortado folha por folha, pronto para o uso. Dar a melhor impressão ao cliente é fundamental nesse negócio.

Mas o mercado de trabalho ficou bem complicado para os jovens profissionais desse ramo. A carreira deles é tão curta quanto a de qualquer outro modelo fabricado em série pelas universidades.  Aos vinte e poucos anos, a maioria já se recebe um diploma de analista de sistemas. De um dia para o outro, são forçados a abandonar seus bonés, roupas de skatista, mochilas, tênis e se adaptarem aos ternos, sutiãs, meias, telefones, malas de executivos e executivos malas também. Trocam as noitadas de jogo de RPG, vídeo game e ensaios de bandas de rock nas garagens, por apertadas baias, reuniões em horários extraordinários e forçados happy hours desanimados por música de aparelhos celulares e emocionantes disputas de siglas técnicas.

Os sapatos e as gravatas apertam tanto quanto os cronogramas. A competição é cruel e desumana. Os relacionamentos são complexos e recursivos. Os objetos são tão distribuídos que deixam os ingênuos gênios completamente desorientados.  As ferramentas de trabalho são tantas e tão complicadas não dá tempo para conhecer e escolher a que melhor se adapta ao cliente. Volta e meia vê-se uma garota usando bolinhas tailandesas no pescoço e escondendo colares de pérolas falsas na camada do negócio. Garotos usando modem super absorventes com bandas largas na cabeça ou modelando dados com espátulas de cutículas. Se flagrados enviando ou recebendo drogas visuais pela internet, encapsulam as coisas, cobram seus direitos, somem e deixam todo mundo chupando o dedo.

Essa é a fase mais perigosa dos garotos e garotas de programa. Inconseqüentes e irresponsáveis, espalham vírus mutantes por todo o planeta. Poderosos e viris, não há firewall que os detenha. Quanto mais protegido é o ambiente, mais emocionante é a façanha da penetração. Como nos velhos tempos da pirataria, usam brincos e pirsen exóticos nos lugares mais improváveis do corpo e atiram flechas para todos os lados. Depois desenham um alvo ao redor delas, scannerizam e distribuem cópias ilegais aos ávidos usuários que ficam deslumbrados com a pontaria dos jovens programadores.

Essa ousadia impressiona e excita os consumidores de informática que pagam qualquer preço para tê-los em sua companhia, nem que seja por uma noite apenas.
Lá pelos vinte e seis, vinte e oito anos, esses garotos e garotas de programa já experimentaram todos os tipos de drogas. Do DOS ao Windows. E não há Linux que os satisfaça.

Completamentes dependentes e desesperados, começam a perceber que aqueles programinhas fáceis e rapidinhos, trazem conseqüências desastrosas. Não conseguem se livrar das manutenções. Os vorazes clientes exigem cada vez mais e mais. Querem novidades, emoção, êxtase, cor, som, rapidez, exclusividade. Querem show, mágica, adivinhação de pensamento, tradução instantânea em todas as línguas, conexões internacionais, milagres. Querem  ver seus desejos satisfeitos num simples clique de mouse. Querem ser parceiros sem pagar um centavo a mais pelo prazer.

É hora de virar chefe de empresa, de família, fazer pós-graduação, mestrado, doutorado. Qualquer coisa que os tire da manutenção.
E lá vão eles. Procuram uma entidade cheia de belos atributos, elegem a chave primária, prometem um relacionamento de um-para-um, íntegro, sem duplicidade e incorruptível. Escolhem uma plataforma portável e segura numa zona nobre da cidade. Assinam um contrato e juram amor eterno. Consideram-se inventores da roda, phdeuses, descobridores da América e da profissão mais velha do mundo.

No tempo dos dinossauros, a vida útil de um sistema construido pelos homens de programa das cavernas, era de uns dez, vinte anos. Na era www também conhecida como era da informação, a durabilidade de qualquer produto não passa de dois anos. Isso quando não nasce morto.

Antes mesmo de chegar aos quarenta, a plataforma que parecia estável, mostra sinais de desgaste. Corta o café e o cigarro sob o pretexto de causar impotência. Diz que precisa enxugar o órgão e cortar cabeças. Elimina paredes e salas deixando-os expostos para mostrar a transparência do negócio. É humilhante. Ameaça-os com terceirização, downsize e mais uma penca de doenças altamente transmissíveis. Questiona seus rendimentos e chama suas experiência de vício. Diz que seus velhos programas são legados malignos e força-os a fazer uma reengenharia explícita. Ou coloca-os em projetos que não tem a mínima possibilidade de dar certo e manda que apertem o prazo, puxando o gatilho três vezes em menos de uma semana. Se não aceitarem, são rotulados de resistentes a mudanças por não aceitarem desafios. Se fracassarem, fica provada sua incompetência. Mas se por milagre sobrevierem, o mérito é todo da política moderna e dinâmica da empresa que contratou a consultoria de um famoso PHD.

Exaustos e vencidos pela própria tecnologia, os velhos garotos perdem o emprego, o carro, o apartamento, a mulher, os filhos e voltam para casa dos pais que lhes aconselha a fazer bico de professor de processamento de dados em colégios da periferia ou casar de novo, com uma viúva rica.

Algumas garotas conseguem sobreviver de-mitidas. Outras fazem cursos de artesanato, artes cênicas, plástica, lipo, engolidoras de espadas, sapos, lagartixas e cornos.

Alguns poucos conseguem resistir e se aposentam com sindrome de pânico ou  LER - Lesão por Esforço Repetitivo no Cérebro. Tornam-se gurus, engraçadinhos, assexuados, consultores ou políticos.

Outros ainda, passam a escrever histórias para jornais eletrônicos.
Informática é uma arte. Arte imita a vida. Pode esperar, garotinho esperto... sua hora chega!
Marilda Confortin
Enviado por Marilda Confortin em 22/10/2005
Reeditado em 22/10/2005
Código do texto: T62403

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Sobre a autora
Marilda Confortin
Curitiba - Paraná - Brasil
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