Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Essas empregadas maravilhosas e suas patroas domésticas.

- Dona Maria, a sinhora tem que me comprá uma fiera de pia!
- Uma o quê?
- Uma fiera de pia, oras! Sabe não?
Cida era uma mulata faceira, bonita, farta. Não pedia nada: Ordenava. E ai de quem não comprasse o que ela queria! Fazia um feijão de caldo grosso que dava prá comer puro. Trabalhou em minha casa por muito tempo. Só saiu porque seu último namorado tinha tesão por empregadas que usavam aqueles uniformes com babadinho xadrez, bem curtinhos... E meu marido também.
Tentei  de todas as maneiras entender o que Cida estava querendo que eu comprasse. Abri os armários da pia e fui pegando todos os produtos de limpeza, utensílios e inutensílios domésticos que uma dona de casa costuma ter na pia da cozinha.
- Desentupidor de pia, Cida?
- Não.
- Tampa de pia?
- Não!
- Ralo de pia? Fita isolante? Afiador? Desinfetante? Detergente? Frigideira pra pia?
- Não!
- Fio de nylon? Pau de socar alho? Cacete!
- Nãããoooo!!!!
Nada. Não era nada que se guardasse na pia.
- Cida, me mostra uma fiera de pia, pra eu saber como é.
- Ma comé que eu vo mostrá se acabô, muié?
- Então me diz pra que serve...
- PRÁ INFIÁ NO TEU RÁDIO, patroa!
- CIDA!?
- Dona Maria, eu quero uma fiera de pia nova prá botá no teu radinho. Só trabaio iscuitando música. E as pias do rádio tão fraca, num toca mais.
Pilhas! A santa só queria uma fileira de pilhas para botar no rádio...  Aleluia!
Outro dia, perguntou-me indignada, porque eu havia comprado aquela televisãozinha prá cozinha, se eu nunca assistia televisão. A televisãozinha, era o forno de micro ondas.
Outra ocasião, pediu-me que comprasse popatapatáio. Aprendeu. Trouxe-me a embalagem vazia para mostrar o que era popatapatáio. Era polvilho anti-séptico granado. Pó para tapar talho, corte, curar frieira... Pópatapátáio, oras. Óbvio. Que burra, eu. Mandei que ela usasse ungüento picatro de butesin. Ofendeu-se e gritou:
- Não vô infiá nenhum picatro nojento no bucetim, não, dona Maria. Tá pensando que sou puta?
Conheceu um cara no ponto do ônibus. Deu meu endereço, meu telefone, meu nome e minha cama pro safado se deitar com ele. O malandro espalhou prá vizinhança toda que tinha comido a  Maria da rua da Gloria 403. Pedi que ela se retratasse, limpasse meu nome. Obedeceu. Bateu de porta em porta e explicou:
- É mintira, vizinha! Se a sinhora visse o tamaínho do pauzinho dele não ía acreditá nessas fofoca. Aquilo lá que ele tem no meio das perna, não serve nem prá limpá os buraco dos dente... Imagina se ía comê eu o a dona Maria.
O coitado ficou conhecido no bairro como Hashi-San, o homem do pauzinho. Não conseguiu comer mais ninguém. Fiquei  sabendo que se tornou homossexual.
Depois de muitos anos, filhos crescidos, marido foi embora com moça nova e eu mudei-me para um pequeno apartamento. Tive que dispensar os bons trabalhos da Cida. Não deu outra: Ela foi direto para o Sindicato das Empregadas Domésticas requerer seus direitos. Tá certo. Compareci no dia da audiência para falar com a advogada.  Uma fila enorme. Furei e fui falar com a recepcionista.
- Boa tarde. Meu nome é Maria...
- Ah é, é?  Só a senhora e mais umas trezentas Marias que estão aí na fila de espera.
- Minha empregada entrou com um processo...
- Sei. As duzentas domésticas que estão neste salão também entraram.
- Ela veio com o namorado...
- Todas vêm.
- Ela é moreninha, cheinha ...
- Ahã!
- O nome dela é Cida ...
- Cento e cinqüenta se chamam Cida, minha senhora.  Qual é o nome completo dela?
- Maria Aparecida...
- Todas as Cidas chamam-se Maria Aparecida. O sobrenome dela, por favor?
- Da Silva.
- Aí danô-se, dona Maria!
Marilda Confortin
Enviado por Marilda Confortin em 22/10/2005
Código do texto: T62409

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite nome de autor e link para www.marildaconfortin.prosaeverso.net). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Marilda Confortin
Curitiba - Paraná - Brasil
85 textos (14292 leituras)
8 áudios (2951 audições)
3 e-livros (145 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 11/12/16 08:11)
Marilda Confortin