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Eu posso ser o que quiseres

Palco com mesa ao centro, rodeada de quatro cadeiras,  e sete portas dispostas da seguinte forma: três do lado esquerdo, três do lado direito e uma porta ao fundo. A porta do fundo é a saída para a rua e tem um bengaleiro de pé junto dela. As restantes portas dão acesso às divisões da casa e são numeradas a começar da esquerda e indo nos sentidos dos ponteiros de um relógio como porta um, dois, três, quatro, cinco e seis.
3 está com um baralho de cartas na mão, a baralhá-las ou a lançá-las para cima da mesa. O tema recorrente é o do jogo de cartas, pelo que se pode prever vários baralhos em montes ou espalhados pelo chão.

3 --  Que seca! já cá estamos há mais de 12 horas, pá!
2 – Há doze horas não tás tu acordado.
3 – Quê? Levantei-me cedo hoje.
2 – Ainda antes do meio-dia? Que proeza!
3 – Está bem, mamã. Amanhã levanto-me mais cedo.
2 – Amanhã tens mesmo que te levantar mais cedo. Não é?
3 – Pois tenho...

1 (entrando) Sabes que estás quase sem papel higiénico?
2 – Tenho de mandar comprar mais.
1 – Tens de mandar comprar mais a quem? Ao teu mordomo?
3 – Ou então à criada.
1 – A criada deve ter fugido com o mordomo, a julgar pela desarrumação...
3 – Ou então é o ano de folga dela.
2 – Vocês querem ir os dois à merda? Eu vou-te buscar o papel higiénico!
(3 Cantarola “higénico... papel higiénico” adaptando uma música que esteja na moda)
1 – Agora não que já não preciso. Não é? Mas... ouve: tu tens que te orientar, pá! Há quanto tempo é que estás a viver nesta imundice?
2 – Olha! Temos aqui um senhor muito fino! Tás praí a dizer merdas porque não tens que arrumar a tua casa. Pois não?
3 – A casa também não é dele.
2 – Pois claro que não custa nada quando se tem a mamã a fazer a paparoca, a lavar a roupinha ao menino e mais quê? Ainda te muda as fraldas?
3 – Não mas vai buscá-lo e levá-lo à escola.
1 – Ao trabalho! A escola é o meu local de trabalho!
2 – Então a mamãzinha vai levar o menino à escola...
3 – Olha... pelo menos não vivo numa espelunca como esta! (3 cantarola “espelunca... espelunca” adaptando uma música conhecida) Tu já viste que meteste uma mesa de sala no corredor?
2 – E depois? É original, não é?
1 – Muito original! Sobretudo porque quem entra na sala de jantar tem logo vontade de voltar para aqui. Tu nem deves saber onde está a mesa da sala!
 3 – A gente tinha que deitar o lixo todo fora para dar com ela!
1 – Tu deixaste-te ir completamente abaixo, Bruno! A Vitória só te deixou há quinze dias e tu parece que...
2 – Vai à merda com essa conversa! E leva este contigo pra te encher de merda!
(Sai pela porta dois)
(3 cantarola “pra te encher de merda!”)
1 – O gajo passou-se! (Tempo) Passou-se completamente com aquela cena da Vitória. Tu já viste?
3 – Ó Abel... Abel... abelhinha... moscas e tal... O Bruno tá numa fase má e tu, como amigo, não tás a ajudar muito. Deixa o gajo em paz! Então a gente vem pra aqui pra se divertir e tu afinas com o tipo?! Tu és mesmo marado, pá!
1 – Tens razão. Eh pá... eu não presto mesmo.
3 – Pois não. Pois não.
1 – Mas olha que tu também não ajudas muito!
3 – Mais essa! Eu não tenho nada que ajudar! Então vocês querem lá ver?... Eu venho pr’aqui prá minha despedida de solteiro e o que é que eu apanho? Dois gajos a discutirem um com o outro como se fossem um casal já com vinte ou trinta anos de casamento.
1 – Pois é... a tua despedida de solteiro... Eh, pá! Desculpa lá. Realmente não devíamos estar aqui com conversas destas, mas... o que é que tu queres? Eu já nem me lembrava da tua despedida de solteiro. Ao tempo que estamos aqui à espera...
3 – Parece que já cá estamos há mais de doze horas. Não é?
1 – Há doze horas?! Há doze horas não estás tu acordado.
3 – Mais um a chatear os cornos! Eu tive uma semana cansativa! Deitei-me tarde e dormi bastante para estar em forma para amanhã!
1 – Boa desculpa! Se é para estares em forma para amanhã não se faz a despedida de solteiro!
3 – És parvo ou quê? Então tu já pensaste?... Tu já viste que esta pode ser a última noite que estamos todos juntos (Passa-lhe o braço por cima) como três amigos (vai passar o braço por cima do outro e vê que ele não está)?...
1 – Amigos de merda. Onde é que está o Carlos?
3 – Foi pr’ali. Onde é que aquilo vai dar?
1 – Deixa ver se ele está no quarto. (Dirige-se para a porta dois, 3 não ou vê a sair).
3 – Achas que foi pró quarto chorar sozinho? (Sem resposta) Achas que ele tá de burro? (Sem resposta, olha em volta e chama por Abel saindo pela porta um. 2 Entra pela porta três e vê o palco vazio).
2 – Não me digas que eles se foram embora (Vê os casacos no bengaleiro) Não. Estão aqui os casacos... é porque não saíram. (Sai pela porta quatro, chamando por Abel e Carlos. Abel entra pela porta três, dando sinais que ouviu Bruno).
1 – Bruno! (Volta-se para trás) Carlos! (Sai pela porta cinco e Carlos aparece na porta um com uma peça de roupa feminina vestida – top ou body)
3 – Eh pessoal! Onde é que eles estão? (Vai a sair pela porta seis e Bruno  entra pela porta quatro a tempo de ver o Carlos a sair. )
2 – Eh!  Carlos. Onde é que ele vai

(O jogo continua, cada vez menos coerente, com Abel, Bruno e Carlos e aparecerem, espreitarem, saírem e entrarem uns atrás dos outros até que aparecem os três ao mesmo tempo em cada porta )
2 – Vocês vão parar com essa brincadeira?
3 – Eh pá! Eu até que estava a gostar. Foi a maior agitação que tivemos esta noite!
1 – Isto já parecia uma cena à Scoobydoo!
3 – À Scoobydoo?
1 – Sim... aquelas cenas nos desenhos animados... ora! Esquece.
3 – Não parece mas tens uma casa grande, pá! (1 tira-lhe à força a peça de roupa feminina)
2 – Não é minha.
3 – É da Vitória? (1 dá-lhe um soco ou um pontapé para chamar-lhe a atenção) Ai! O que foi?
2 – É arrendada! Não te lembras de te ter dito que ia arrendar casa?
3 – Ah! Pois foi... quando vocês juntaram os trapinhos tu...
1 – Já cá tínhamos estado mas nunca nos deu para andarmos assim às voltas pelas divisões... é interessante.
3 – Muito...
(Tempo. Sente-se um certo incómodo entre eles)
2 – Vou buscar mais alguma coisa para bebermos.
3 – Espera! Tu vê lá! Ainda te perdes pelo caminho.
(Ele sai. Ficam um tempo a vê-lo sair)
1 – Tu não consegues deixar de ser parvo, pois não?
3 – Eh pá... O que é que eu fiz?
1 – Tu já viste que o gajo está uma lástima mas bates sempre na mesma tecla!
3 – Bato sempre na mesma tecla...
1 – Tás sempre a falar na Vitória! A gaja foi-se embora! Largou-o! Pôs-lhe os patins! Tu queres que o gajo se esteja sempre a lembrar disso?
3 – Eh pá! Não é por mal. Não achas? E depois... foi quê? Há quinze dias? Um tipo tá tão habituado a falar na Vitória, na Vitória, a Vitória isto, a Vitória aquilo que depois é difícil.
1 – Lá estás tu! Vitória, Vitória, Vitória (Entra 2 no meio da fala, 1 interrompe-se)
3 – O Abel estava a contar-me como é que foi a final do Porto-Benfica.
1 – Pois! Foi uma Vit... foi mesmo uma derrota pró Benfica! Tu viste?
2 – Não. Já não quero saber de futebol. (Distribui as cervejas aos amigos)
3 – Fazes bem! Fazes muito bem porque esses gajos também não querem saber de nós para nada!
1 – Vamos a um brinde!
3 – Um brinde a quê?
1 – Um brinde a nós!
3 – A nós já brindámos à bocado.
1 – Brindamos outra vez.
3 – Outra vez não que é para não desperdiçar o brinde.
1 – Então brindamos...
3 – Ao Porto!!
1 – E isso não é desperdiçar um brinde?
3 – Então... Ao casamento!
1 – Mas tu estás parvo ou quê? Só porque te casas amanhã, o casamento é a melhor coisa do mundo.
3 – Pronto, pronto... Brindamos então...
(Tempo)
2 – (Tom neutro) Às putas.
3 – Boa! Às putas! (Brindam)  Quando é que elas chegam?
2 – Já chegaram.
3 – Já?
2 – Estão em todo o lado. Chegaram ao mesmo tempo que nós e nunca mais nos largaram desde aí. Fizem-nos crer que precisam muito de nós para as proteger, para se sentirem reconfortadas, completas mas, logo que podem, caem sobre o primeiro que aparece e mandam-nos passear com um pontapé no cú.
3 – Eu não percebo lá muito de putas... mas olha que o que elas pedem, normalmente, é dinheiro e não protecção e conforto e... lá isso que disseste.
2 — (Forte) São todas o mesmo! As mulheres são todas umas putas!
1 – Eh pá! Peraí! Tu não metas a minha mãe ao barulho!
3 – Pois é pá! Tu não metas a mãe dele ao barulho!
2 – Ok. Então deixa cá ver... Queres que eu diga que são todas umas putas menos a tua mãe?
3 – Ouve... já agora mete também a minha, tá bem.
2 – Pronto. Tirando as mães sérias de família, as mulheres são todas umas putas!
1 – Ó Bruno! Eh pá! Só porque tiveste um ou dois desgostos amorosos não podes agora julgar todas as mulheres por igual.
3 – Pois não.
2 – Claro que posso julgar! Ainda nenhuma me deu provas do contrário! Tu achas que uma tipa como a Vitória que me viu caído, de rastos por causa de uma gaja... e que me manda abaixo da maneira como ela fez... tu achas que isso não é ser puta?!
3 – Tem mais ares de ser filha da puta.
1 – São coisas que acontecem. Tu estás vivo, não estás? Estás inteiro, tens os teus amigos, a tua família, o teu emprego... não te aconteceu nenhuma desgraça...
2 – Não me aconteceu nenhuma desgraça?!
1 – Não. Não te aconteceu nenhuma desgraça! Aconteceu-te a ti como acontece a qualquer outra pessoa.
3 – Foi um acontecimento!
2 – Mas para mim foi uma desgraça!
1 – Uma desgraça foi o que aconteceu ao Zé!!
(Tempo)
3 – O Zé bem que gostaria de estar aqui com a gente.
1 – Podes crer. Vocês já pensaram bem nisso?
3 – Em quê?
1 – Lembram-se da aposta que fizemos há dois anos?
3 – Qual? A de quem casava primeiro?
1 – Isso. E em quem é que o Zé apostou?
3 – Em mim.
1 – Pois foi. E hoje... se ele estivesse aqui, estava a embolsar a aposta.
(Pensativos)
3 – Nem de propósito...
1 – Nem de propósito.
2 – Nem de propósito o quê?
1 – Hoje... nem de propósito.
2 – O quê?
1 – Este dia.
2 – O que é que tem?
3 – Não sabes?
2 – Não.
1 – (Acusador) Não te lembras.
2 – De quê?
3 – Do Zé.
2 – O quê?
3 – O Zé morreu pá!
2 – Claro que sei que o Zé morreu! O Zé já morreu há um ano!
1 – O Zé já morreu há um ano. Dia por dia.
2 – Dia por dia?
3 – É hoje!
1 – Hoje é o dia do aniversário da morte do Zé!
2 – Não!!
3 – Pois é pá! E nós nem nos lembrámos! Que merda.
1 – É típico. Não é?
3 – O que é que é típico?
1 – Os homens esquecem sempre as datas de aniversário.
3 – Eh pá! Mas isso é com as gajas! Agora esta... esquecer a data de aniversário do nosso melhor amigo!
(Tempo)
1 — (Propõe um brinde) Ao Zé!
2 – Ao Zé.
3 – Ganda Zé. Estamos contigo pá!
(Bebem. Tempo)
2 – Eh pessoal. Também não vamos ficar práqui com um cara de enterro. Se o Zé cá estivesse já se estava a passar da cabeça.
1 – Podes crer! O gajo não havia de gostar nada de nos ver assim. Ainda por cima sabendo que o Carlos se vai casar amanhã.
3 – Eh pá! Eu... depois de me casar... não... depois da lua-de-mel... ou depois da gente se mudar de casa... não sei, mas eu vou lá ao cemitério e vou pagar a aposta ao Zé.
1 – Deixa-te de merdas. O Zé agora não precisa do nosso dinheiro.
2 – Pois não. Subiu na vida.
(Riem-se e o ambiente desanuvia)
2 – Sabem quando é que eu sinto mais a falta do Zé?
3 – Quando?
2 – Quando penso convidar o pessoal para uma partida de sueca.
1 – Pois é. Não dá muito jeito jogar à sueca com três gajos.
3 – E quando a gente saía pra ir às gajas?
1 – O que é que tem?
3 – Três também é um número marado para isso. Já viram? As tipas andam sempre aos pares. Ou então juntam dois pares e andam às... quadras ou...
2 – Aos quartetos?
1 – Tu já estás bêbedo? Então nunca viste três tipas juntas?
3 – Já. Mas aí ainda é pior, porque uma delas é sempre feiosa.
2 – É verdade... tens razão sim senhor. Quando elas se juntam às três uma delas é sempre mais feiosa que as outras.
3 – Até parece que são as duas que costumam sair que chatearam a amiga feiosa pra sair com elas. E já viste o que é uns gajos como nós abordar assim um trio ou um terceto de gajas? Com a sorte que eu tenho ainda me calhava a feiosa!
1 – Tu és mesmo estúpido, pá. Vais-te casar amanhã e tás aí com essa conversa. Tu já estás entregue! Tu lá precisas de te preocupar em ficar ou não com a feiosa?
3 – Eh pá! Pois é. Olha que... pensando nisso agora... vocês já viram que somos capazes de ter tido um sorte do caraças?
2 – Em quê?
3 – Vejam lá bem... Vejam lá se me conseguem acompanhar no raciocínio: o Zé morreu, né? E nós continuámos a alinhar uns com os outros sem se dar conta dessa cena das gajas andarem aos pares com uma feiosa atrás. Não foi? Acontece que, na altura em que o Zé morreu foi quando eu conheci a Xana e o Bruno a Vitória.
1 – E daí?
3 – Daí que, se tivessemos andado prái à caça os três tínhamos acabado por cair no trio ou no terceto das duas mais a feiosa.
1 – Ufa! Que alívio. Realmente. Assim não caímos no trio com a feiosa e temos um tipo que se vai casar, um que levou com os pés e um outro que nem com uma feiosa pode ir à boda porque não tem ninguém! Que sorte do caraças!
(Tempo. Embaraço)
2 – Eu vou buscar mais umas cervejas.
3 – Cerveja não qu’isso só dá pra mijar. Não tens por aí Whisky ou uma coisa mais forte.
2 – (Saindo) Uma coisa mais forte!...
3 – (Após um tempo) Quando é que chegam as gajas?
1 – Eu sei lá quando é que chegam as gajas! Achas que eu é que ia tratar disso? Foi o Bruno que tratou de tudo.
3 – Pois é. Não tratas pra ti, quanto mais prós outros.
1 – Ouve... lá porque te arranjaram um casamento com a menina linda lá da tua rua, não tens nada que estar a ...
3 – Eh! Eh lá! Menina linda é que não!
1 – Querias que eu dissesse a menina feia?
3 – Não... mas isso de menina linda dá um ar de... chochinas... de... pobre coitadinha, toda bem comportadinha, de...
1 – E não é? Vocês namoraram os dois no liceu e depois disso?
(Entra 2 com garrafa e copos e vai servindo)
3 – Depois disso o quê? Tive muitas outras gajas.
1 – Pois tiveste, mas ela não.
3 – Querias que ela também tivesse gajas? Querem ver lá o ...
1 – Não sejas besta. O que eu quero dizer é que ela não teve assim tantos namorados como tu tiveste de “gajas”.
2 – (Propondo um brinde) Às gajas então. (Depois de beber) Mas também é típico uma mulher ter menos namorados que os homens.
3 – Pois é... mas faz confusão.
1 – Porquê?
3 – Então... se os gajo anda com as gaja... e se as gajas também... Tão me a acompanhar no raciocínio? Então elas também têm os mesmos namorados que eles. Não é?
1 – Estás-te a esquecer que tens as que andam com gajos e as que casam. A tua é a das que casam.
2 – E depois há as putas que os largam de um momento para o outro.
(Tempo)
3 – (Propondo um brinde) Ao Zé!
(Os outros dois acedem com menos entusiasmo)
3 – E, por falar em gajas, quando é que elas chegam?
2 – Não sei. O André é que tratou de tudo.
1 – Eu?
3 – (Ao mesmo tempo que o anterior) Ele?
2 – Não foi?
1 – Não.
3 – Não?!
2 – Não trataste?
1 – Claro que não.
3 – Claro que não?!
2 – Porquê?
3 – Porquê?
1 – Vocês acham que eu lá tenho jeito para essas coisas?
2 – Mas que jeito?...
3 – Que jeito?
2 – Tu lá precisas de ter jeito? Pegas no telefone...
3 – Telefone...
2 – Pegas no jornal...
3 – Jornal...
2 – Vais aos anúncios...
3 – Anúncios (2 olha para ele com um ar de reprimenda)
2 – Vais aos anúncios e escolhes qualquer uma das que lá publicam.
3 – Eh! Qualquer uma também não.
2 – Qualquer uma. Não interessa. Telefonas, perguntas quanto é que é ou o que é que ela tá disposta a fazer e pronto, dás-lhe a morada, o dia e a hora e pronto!
3 – Eh pá! Qualquer uma também não.
2 – Não interessa! É para uma festa! Daqui a vinte minutos estamos já todos bêbedos e qualquer uma que entre por aquela porta vai parecer a mulher mais bela do mundo.
1 – Até porque não queremos nada com ela.
3 – Não queres tu mas quer a gente!
1 – Ó pá! Tu vê se te acalmas! Caramba! É o gajo que se vai casar amanhã e está mais assanhado do que os outros dois que passam fome.
3 – Eu é que sei, pá! Eu é que sei! Com esta merda toda dos preparativos para o casamento já há mais de quatro semanas...não... espera... há quase um mês que eu tou a passar fome. Quanto a ti não sei, mas o Bruno só tá à míngua há quinze dias... (apercebe-se da gaffe que cometeu)
Eh pá... desculpa... eu não quis dizer... eu sei lá da tua vida... tu até podias estar há mais de quinze dias...
2 – Deixa lá isso. O que é que se faz então? Vamos ficar aqui a noite toda?
1 – Nem pensar!
2 – Vamos a um pub?
3 – Não. Vamos aquele salão de massagens.
1 – A uma discoteca!
3 – A uma discoteca?
1 – Por que não?
3 – Tou farto de ir a discotecas.
2 – Vamos a um bar de strip?
3 – Vamos mas é directamente a elas?
1 – A uma casa de...
3 – Um bordel.
1 – Eh!
3 – Por que não?
2 – Vamos lá ter calma! (Tempo) Querem procurar alguma coisa no jornal?
3 – Achas que elas estão a fazer serviço de urgências? É? Achas que a um Sábado à noite uma tipa dessas está em casa, à espera que lhe telefonem três tipos miseráveis, com uma festa de despedida de solteiro de merda que não anda nem para um lado nem para o outro...
1 – Respira homem!
2 – Ok. Antes de mais vamos lá decidir: é pub, é discoteca, é massagens, é bordel ou um deste anúncios.
(Ad lib, cada um defende a sua opinião)
2 – Esperem lá que ninguém se entende assim. Ok... (Para 1 )então tu dizes:
1 – Discoteca. E depois lá vê-se o que se arranja.
2 – E tu? (Vira-se para 3)
3 – Casa de massagens e depois vê-se o que é que se faz a seguir.
2 – Vocês não tão a perceber. Pois não? Acham que temos papel para andar de uma casa para a outra? Bebe-se uns copos aqui, vai-se enfrascado para qualquer um dos sítios que decidirmos e depois acabou-se! Perceberam?
3 – E tu? O que é que queres.
2 – Eu acho que o mais barato e mais cómodo é mesmo telefonar a uma destas tipas dos anúncios e ver se temos sorte.
1 – E como é que decidimos isso?
(Tempo)
2 – Deixa cá ver. Tirar à sorte?...
3 – Vamos ao salão de massagens e que se lixe as outras merdas. Se o Zé cá estivesse também havia de escolher o salão. (Para 2) Não achas que se o Zé cá estivesse...
(1 dá-lhe com força na cabeça)
2 – “Dá-lhe outra que ainda mexe”!
(1 volta a dar na cabeça de 3)
3 – Eh pá! Qu’é essa merda?
2 – “Dá-lhe outra que ainda mexe”! Então! O jogo! O nosso jogo preferido! Então vocês não se lembram das noites que passámos a jogar a isso?
3 – Iá! Ganda cena! Eu gramava bué esse jogo, meu! Ena pá! As vezes que eu vos ganhava.
1 – As vezes que tu nos ganha... Ó seu miserável tu só ganhavas porque jogavas sempre com o Zé. Nunca percebeste nada daquilo.
3 – Olha o estrôncio! Então tu queres me dizer-me que eu não pescava nada daquilo! Tens sorte é a gente nunca mais ter jogado depois do Zé ter morrido! Tu ias ver o que era...
2 – Parem lá com isso. O que é que vocês acham. Bebemos uns copos enquanto jogamos “Dá-lhe outra que ainda mexe” e quem ganhar decide o que vamos fazer o resto da noite?
3 – Bora! Vamos lá. (Para 1) Tu vais ver como é que elas mordem. Salão de massagens “here I come”.
1 – Aquilo joga-se com as mãos e a cabeça. Não é com a boca, senão, de certeza que ganhavas..
3 – Vamos sim senhor. (Pega nas cartas e todos se sentam à volta da mesa) As cartas. Ok... (Tempo) Eh pessoal... Como é que se joga a isto que eu já não me lembro?
1 – Não?!
2 – Tu não te lembras como é que se joga?! É incrível! Jogámos a isto quantas vezes?
3 – Já foi há muito tempo. Há quase um ano que não jogamos.
1 – Pois é. E os teus jogos agora são outros. Não é? Tu jogas a quê ao Sogoku? Ao vi-te o cu?
3 – Não comeces a irritar-me antes do jogo. Não me lembro. Pronto. Mas se vocês me disserem as regras assim por alto vai-me voltar tudo à cachola.
2 – Bom... vamos lá ver... (Vai demonstrando com ajuda das cartas) Trunfo é sempre copas, excepto com a dama de espadas.
1 – A Miquelina.
3 – Isso. A Miquelina.
2 – Tens que abrir com trunfo mas não podes abrir com a Miquelina.
1 – Mas podes fechar com a Miquelina.
2 – Mas só podes fechar por cima de copas senão lerpas com os paus.
3 – E os paus?...
1 – Os paus é merda. Tens que te livrar dos paus.
2 – Mas só podes jogar paus sobre copas ou ouros.
3 – Iá.
1 – Isso quando não ficas a assistir.
2 – Pois. Quando não tens trunfos tens que ficar a assistir.
3 – Mas no fim posso jogar a dobrar.
2 – Só se tiveres ouros.
1 – Mas se destrunfares e jogares para paus já não tens ouros que chegam para o fim.
2 – E ficas com a tua mão.
3 – Mas é à melhor dos três. Não é?
1 – Claro que é à melhor dos três. Sempre jogámos à melhor dos três.
2 – Espera. Mas é contínuo ou baralha e volta a dar.
3 – Vamos jogar contínuo.
1 – E com dois baralhos. Lembram-se? Para o fim até jogámos com três.
2 – Desempata na jogada seguinte?
1 – Quantas vezes é que nós empatámos?
2 – Mas agora somos só três.
3 – Pronto. Desempata na jogada seguinte.
1 – E se forem duas Miquelinas?
2 – Tás parvo ou quê? Quais são as hipóteses de sair duas Miquelinas?
1 – Mas pode sair. Não pode.
(Tempo)
2 – Ok. Então morte súbita.
3 – O quê? Tu queres jogar com dois baralhos e morte súbita.
2 – Por que não? Vai ser fartar de rir. O que é que acham?
1 – Ainda bem que estamos a jogar a feijões, se não...
3 – Quais feijões? Tamos a empenhar o nosso serão.
2 – Mas não é um caso de vida ou de morte. Pois não?
3 – Mas eu quero ganhar.
2 – Então vamos lá jogar.
1 – E nada de merdas quando tu perderes.
3 – SE eu perder! E posso te garantir que não vai haver merdas porque eu não vou perder.
 2 –Então vamos lá.
(2 baralha e dá as cartas. Ficam com as cartas nas mãos um tempo enquanto as ordenam. Entreolham-se e 2 dá um sinal de partida. A partir daí o jogo desenrola-se muito rapidamente com os três a colocarem ao mesmo tempo as cartas em cima da mesa. Dá-se a perceber, também muito rapidamente,  entre cada jogada, quando 3 ou 1 perdem. No final 3 faz a dança da vitória)
1 – É mesmo sorte de principiante.
3 – De principiante o caraças!
1 – Desculpa. É sorte de azelha. De azelha ou de nabo.
3 – Eh. Nada de merdas. Foste tu que disseste.
2 – Vamos à segunda mão.
(2 que entretanto recolheu as cartas ou juntou outro baralho, distribui-as e voltam a jogar como anteriormente. Desta vez o jogo decorre com mais garra e mais silenciosamente. No final 1 e 3 encaram-se sem dizer nada)
3 – Vá. Anda lá. Já só falta mais uma mão.
(Distribuem novamente as cartas. Jogam ainda mais rápido e com mais fervor. 3 manifesta-se no início mas vai perdendo ânimo para o fim. Acabam exaustos)
1 – Bom... parece que já se decidiu. Não é?
2 – Ainda não. Agora temos que ver nos anúncios e telefonar para ver se a fulana está disponível.
3 – Tanto trabalho para quê?
1 – Já estás a começar com merdas. Não é? Combinou-se que era assim que tirávamos à sorte. O Bruno ganhou, é ele que decide.
3 – Ok. Pronto. Vamos lá ver esses anúncios. Tens aí algum jornal.
1 – Jornais espalhados pelo chão é o que não faltam na sala.
2 – Assim não sujo o tapete. Eu vou lá buscar alguns.
(Sai)
3 – Eu já te aviso: se vier por aí uma puta velha, uma feiosa do caraças... eu bazo num instante.
1 – Ó pá! Anima-te. É só uma brincadeira. É só para nos divertirmos um bocado. Não é com ela que vais casar. Pois não?
3 – (Rindo) Eh, eh. Espero é que tu não fiques apaixonado por ela e que acabem felizes e com muitos filhos.
2 – (Que entrou na fala anterior com os jornais) Apaixonado por quem?
3 – Pela gaja que vamos contratar.
1 – Deixa-o. Tem a mania que tem muita piada.
3 – Eu não tenho manias. Tenho certezas. E não me admirava nada de, mais uma vez, acertar em cheio. Basta uma gaja te dar bola que tu começas logo a driblar da cabeça.
1 – Ouve...
2 – Eh! Vamos lá parar com isso. Peguem cada um num jornal e vamos lá ver esses anúncios.
(Lêem os anúncios que podem ser adaptados à medida da conveniência e das tendências do momento da representação).
3 – Então deixa cá ver... Duas meninas sexys... uma morena e outra loira... Temos papel para chamar duas. Não temos?
2 – Não sei. Tem que se combinar o preço.
1 – Ouçam esta: “Menina discreta priva com cavalheiros. Máximo sigilo e confidencialidade.”
3 – Tás com medo que ela vá contar alguma coisa à tua mãe?
1 – Não. Não! Não é nada disso sua besta. Mas uma mulher que ponha um anúncio destes já deve ser alguém de refinado e não uma dessas que até comete erros a escrever. Vê: ela escreveu discreta com um I e não um E. E tenta tu dizer confidencialidade. Vê-lá se és capaz.
2 – Isso não quer dizer nada. Olhem estas: “Brasileiras dezoito e vinte um anos fazem shows privados”.
3 – Parece-me bem.
2 – Vai na volta aparecem duas portuguesas de Chaves com mais de trinta a tentarem pôr um sotaque de telenovelas.
1 – (Lendo) Boca quente e sensual. Espero-te no sítio que mais te convier.
3 – (Lendo) Nove, um, seis, zero, nove, um, vinte e um anos, um metro e setenta e cinco, loira e sensual. Sou tão boa que nem sei como me meti nesta vida. Vocês já viram esta?! Ouviram isto?! Nove, um... Que estúpida, meu! Essa gaja dá-te o número de telemóvel logo no início do anúncio?!
1 – São as medidas dela.
(Tempo)
3 – Eu sei, estúpido. Eu tava a gozar. Né?
2- Ouçam! Outra ainda melhor: “Posso não ser a miss mundo mas a lamber sou melhor do que a Lassie”!
(Gargalhada geral)
1 – Podíamos estar agora aqui toda a noite, mas temos que nos decidir. Vai... qual é que vai ser?
3 – Vejam esta de duas Ucranianas...
2 – Eu estou mais virado para estas duas Sul-Americanas...
1 – Vá! Qualquer coisa com duas bacanas e vamos despachar!
3 – Tenho uma ideia! Vamos deixar as cartas escolher.
1 – Outra vez não.
3 – Sim. Outra vez sim! Rasgamos quatro ou cinco anúncios que nos chamem mais a atenção, pomos-los em cima da mesa e mandamos uma carta para cima a ver onde cai.
2 – A Miquelina.
3 – Pode ser a Miquelina.
1 – Está bem. Vamos então deixar com a Miquelina.
(Executam. Lêem o anúncio, triunfantes)
2 – Eu posso ser tudo o que quiseres. Contacta-me. Telemóvel... Mas que merda é esta? Quem é que escolheu este anúncio?
3 – Fui eu!
1 – Claro.
3 – Não acham o máximo? “Eu posso ser tudo o que quiseres”. O suspense!
1 – Claro que pode ser o que quisermos. E o que não quisermos também.
2 – Já pensaste que pode ser um homem?
3 – Um homem? Então um homem ia lá pôr anúncios desses aí...
2 – O quê? Não leste nenhum escrito por um homem?
3 – Não. Porquê? Os homens também põem anúncios desses?
1 – Claro que põem. Porque é que não haviam de pôr?
3 – Sei lá... Faz-me confusão...
2 – Bom... mas está decidido. Não é?
1 – Não sei. E se tentássemos outra vez?
2 – A Miquelina decidiu!
1 – Pronto. Quem sou eu para contradizer a Miquelina.
3 – Esperem aí... quer dizer que... eu também podia pôr um anúncio desses?
2 – Deixa lá isso agora. Vamos decidir outra coisa. Quem é que vai telefonar?
(Tempo)
3 – Eu não, pá! Vocês é que me deviam preparar a festa!
1 – Quem é o dono da casa?
2 – Pronto. Vamos então deixar ao cuidado das cartas.
1 – A maior das três?
2 – Isso mesmo. A maior das três.
(Tiram cada um uma carta do baralho, vêem-na e mostram-nas de seguida ao mesmo tempo. 2 tirou a carta maior)
3 – Uau, Bruno! És tu, meu!
1 – Muito bem! As cartas nunca se enganam.
2 – É a primeira vez que vos vejo contentes por eu ter uma maior do que as vossas. (Vai pegar no telemóvel ou tira-o do bolso)
1 –   (Para três enquanto 2 marca o número) Acho que ele estava a falar de cartas. Não estava?
2 – Tou sim. Estava a telefonar por causa do anúncio do jornal... pronto... somos três e gostaríamos que cá viesse esta noite... se for possível... ok... Rua do Rio, número sete... obrigado.
3 – O que é que ela disse? O que é que ela disse?
2 – Não disse nada.
1 – Não disse nada?
2 – Foi parar para a caixa de mensagens.
3 – E tu deixaste-lhe assim uma mensagem?!
2 – O que é que querias que eu fizesse?
3 – Eh pá! Mas não se deixa assim uma mensagem no telemóvel de uma tipa dessas. Era uma gaja. Não era?
2 – Não sei. Atendeu-me o serviço de mensagens... sabes? “O número que marcou não está disponível. Por favor deixe uma mensagem na caixa de correio de...”
3 – Mas isso do serviço era uma gaja. Não era?
1 – É claro que era uma gaja, parvo de merda! (Para 2) Mas ouve cá... nós assim não temos a certeza se ela vem ou não.
3 – Nem sabemos se é uma ela!
2 – Pois não. O que é que fazemos? Esperamos que ela venha ou nos contacte?
3 – Tu tás é parvo! Vamos telefonar para outra.
1 – Mas a Miquelina escolheu esta.
3 – Então escolhe outra já a seguir.
1 – Tu vais desafiar as cartas?
2 – Esperem lá. Eu vou voltar a telefonar e deixo-lhe uma outra mensagem a anular a anterior.
1 – Mas para quê?
2 – Eh pá... não sei. Acho bom não irritar este tipo de pessoas...sabes? Elas têm sempre uma espécie de protecção...
3 – Protecção?!
2 – Sim... não sabes? Uma espécie de guarda costas que...
3 – (Aflito) Um chulo?!
2 – Ok. Pronto. Uma coisa do género. E eu não quero ter ninguém a aparecer-me aí amanhã para me dar cabo da casa ou das rótulas.
3 – É isso mesmo. Telefona-lhe. Telefona-lhe e cancela. (2 pega no telemóvel e 3 interrompe-o) Mas... ouve cá! Tu vê lá como é que lhe falas.
2 – Falei-lhe mal há bocado?
3 – Não. Tava bem... mas agora vê lá... Tens que saber dizer a coisa... O que é que vais dizer?
2 – Sei lá... Desculpe o incómodo mas era para cancelar a mensagem anterior. Já não precisamos dos seus serviços na rua do Rio, número sete. Boa noite e desculpe.
3 – Assim não... faz lá o tom de voz como se fosses dizer isso ao telefone.
2 – (Pega no telemóvel mas não marca número. Apenas simula a conversa, repetindo o que disse anteriormente com uma voz colocada.) Desculpe o incómodo mas era para cancelar a mensagem anterior. Já não precisamos dos seus serviços na rua do Rio, número sete. Boa noite e desculpe.
1 – Está bem. Calmo e decidido. Muito bem.
3 – Tens que fazer uma voz mais dura... para mostrar que tens a certeza do que estás a dizer. Assim do género: (Pega no telefone ou telemóvel e repete aproximadamente o que 2 disse com uma voz rude e forte)
Desculpe mas era para cancelar a mensagem anterior. Já não precisamos dos seus serviços na rua do Rio, número sete. Boa noite.
2 – Nem desculpa nem nada?
3 – Não, pá! Não te rebaixes. Se não ainda aparece por aí o chulo a meter-se com a gente. Assim ele vê logo com quem é que está a tratar!
1 – E então não te parte as rótulas e vinga-se apenas na tua casa ou no teu carro.
2 – (Irritado) Ah! Deixem-se dessas merdas. Eu vou-lhe telefonar a cancelar e pronto. (Pega no telefone ou telemóvel e continua irritado, amplificando para o fim da conversa)
Ouça! Desculpe lá incómodo mas era para cancelar a mensagem anterior. Já não precisamos dos seus serviços na rua do Rio, número sete... nós vamos sair e não vai estar ninguém em casa... vamos sair de carro... todos juntos...pronto! Ok?
(Desliga e fica um tempo a pensar)
3 – Eh pá! Olha que gostei mais quando fizeste da primeira vez.
1 – Bom... se estávamos com medo que ela levasse a mal... então agora...
2 – Foram vocês e as vossas merdices! Que merda! E isto fica tudo gravado! Não há maneira de apagar isto! Pois não?
1 – Haver maneira até há...
2 – Qual? Qual??
1 – Tu nunca ouviste a gravação até ao fim? “Depois da gravação desligue ou prima um para outras opções”. Basta premir a tecla um no fim da mensagem para ouvir novamente ou apagar tudo. É simples.
3 – Mas... Tem de ser no fim da gravação. E tu já desligaste!
1 – Estás a ver que até ele sabe!
2 – Mas que merda! E agora? (Tempo) Vou-lhe deixar outra mensagem.
3 – Espera! Vê lá bem o que é que vais dizer desta vez.
2 – Não sei. Larga-me. Eu improviso qualquer coisa. Tenho é que estar calmo.
3 – Isso mesmo. Acalma-te. Acalma-te (Começa a fazer-lhe massagens nos ombros)
2 – Deixa-te disso. Larga-me. (Marca o número)
1 – (Para 3) Estás mesmo obcecado com o salão de massagens. Não estás?
2 – Eh pá! Não sei o que hei-de dizer... E se eu ainda faço pior?
1 – O melhor é dar o dito por não dito.
2 – E digo o quê?
3 – Dizes que não.
2 – Que não o quê?
1 – Que não quiseste dizer o que disseste.
2 – Da primeira ou da segunda vez?
1 – Da segunda claro!
2 – Então digo que sim.
1 – Não.
3 – Dizes que sim?
1 – Não!
2 – Mas digo não a quê?
1 – À segunda. Dizes sim à primeira.
3 – À primeira quê?
1 – Desdizes a segunda mensagem e confirmas a primeira.
2 – Então digo que sim à segunda.
1 – Como?
2 – Se disse para ela não vir, agora digo que sim.
1 – Sim.
3 – (Irritado) Mas é sim ou é não?
1 – Calma. Vamos lá ver bem... Tu telefonas novamente e anulas a última mensagem. Certo?
Os dois outros – Certo!
1 – E então confirmas novamente a nossa vontade em ter cá a mulher o mais depressa possível.
2 – Ok. (Pega no telemóvel e marca o número)
3 – E vê lá como falas agora!
2 – Esperem... desta vez está a chamar! O que é que eu digo? O que é que eu digo?
3 – Improvisa. Improvisa.
2 – Tou sim. Boa noite... daqui fala... quero dizer... estou a falar do número sete da rua do Rio e era para... ah! Já ouviu as mensagens?...
3 – É uma gaja ou não?


(Continua)
Se tiver interesse em saber o final... contacte-me
Gilberto Cardoso
Enviado por Gilberto Cardoso em 29/08/2007
Reeditado em 02/09/2007
Código do texto: T628673

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Sobre o autor
Gilberto Cardoso
Portugal, 48 anos
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Gilberto Cardoso