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O País dos Autores por Publicar

Elenco:
Dois homens.
Completamente descaracterizados.
Podem, ao longo da peça irem vestindo várias roupas ou acrescentando roupa ao pouco que trazem no início.


(1 entra e vê 2 em palco. Hesita, mostra embaraço, aproxima-se por fim e tem uma certa dificuldade em iniciar a conversa.
1 traz um jornal e 2 folheia um livro)
1 —  Bom dia.
2 —  Bom dia.  Lindo dia, não é verdade?
1 —  Pronto!  Já vais começar a falar do tempo!
2 —   Porquê?  Não gostas?
1 —  É banal!
2 —  É vulgar?
1 —  É banal!  Exprimi-me bem!
2 —  Mas também podias ter dito vulgar.
1 —  É banal!  Se quisesse tinha dito vulgar.  Mas disse banal!
2 —  Pronto.
1 —  É uma conversa sem inspiração nenhuma.  Logo:  banal!
2 —  Mas, pelo menos, é um ponto de partida para qualquer tipo de conversa.
1 —  Conversa banal, sem dúvida.
2 —  Conversa de circunstância.
1 —  Banal.
2 —  Conversa social.
1 —  E banal.
2 —  Conversa de conveniência
1 —  Banal, banal e banal!
2 —  Mas, no nosso caso deu para falarmos…
1 —  (Fica de boca aberta como quem vai para falar)
2 —  Sim?…
1 —  Eu ia dizer qualquer coisa…
2 —  Falta de inspiração?
1 —  Não.  Graças a Deus.
2 —  Ah!  Deus!
1 —  Sim.  A Deus.
2 —  Adeus?
1 —  Porquê?  Já te vais embora?
2 —  Não.  E tu?
1 — Ainda agora cheguei.
2 —  Chegaste onde?
1 —  Pelo menos cheguei até aqui.
2 —  E era para aqui que vinhas?
1 —  Precisamente.
2 —  Encontrámo-nos então por acaso.
1 —  Completamente!
2 —  Por acaso…

(Ficam um momento frente a frente e vão mudando de posição até ficarem frente para o público, um com o livro e o outro com o jornal à sua frente.  Vão olhando um para o outro e para o que cada um tem na mão )

2 —  Lês o quê?
1 —  Não, não leio.  Estou só a ver os títulos das notícias
2 —  E isso não é ler?
1 —  Não, não é!
2 —  Ah!  É passar o tempo?
1 —  Sim… pode ser.
2 —  Estás com muito tempo livre, é?
1 —  (com um pouco de azedume)  E tu?
2 —  Eu?  Pouco.
1 —  E o teu livro?
2 —  O que é que tem?
1 —  O que é?
2 —  É um livro.
1 —  Eu sei que é um livro.  Mas é de quem?
2 —  É meu.
(1 mostra irritação, dobrando-se a meio enquanto produz um som como quem está a fazer força para se conter, vão se posicionando frente a frente)

2 —  Dói-te?
1 —  Não!
2 —  Podia ser…
1 —  Não me dói nada.
2 —  Estás bem então?
1 —  Estou.
2 —  Não parece…
1 —  Porquê?
2 —  Primeiro, porque estás a ler o jornal?
1 —  Não posso?
2 —  Podes.
1 —  Não.  A sério.  Não posso?
2 —  Podes.  Já disse.
1 —  E porque é que não posso?
2 — Podes  pois.
1 —  Não posso porque…
2 —  Podes.
1 —  Não.  Espera… deixa-me adivinhar…
2 —  Então vai lá.
1 — Não posso porque… sou escritor.
2 —  Bem…
1 — E tu podes estar a ler um livro.  Não é?
2 —  Posso. (tempo)  Não posso?
1 — Mas tu também és escritor… ou não?
2 —  E não posso ler um livro?
1 — Não!
2 —  Não?!
1 — Não.
2 —  Não?!  Porquê?
1 — Pronto!  Está bem!  Lê um livro se quiseres!  Até podes ler dois!… ou três, mesmo!
2 —   Eh!  Não exageres!
1 — (Em surdina)  Mas não deixes que ninguém te veja a ler um livro.
2 —  Tu já me viste.
1 — Pois já.
2 —  Vou ter que te matar?
1 — Não.  Eu não conto a ninguém.
2 —  Ah… muito obrigado.  És meu amigo.
1 — Pelo contrário!
2 —  Meu inimigo?
1 — Isso querias tu!  Não.  Deixa lá que eu não digo a ninguém que te vi a ler um livro.
2 —  (Em surdina)  E se alguém souber?
1 — (Junto ao ouvido de 2) Estás perdido!
2 —  (Baixando-se enquanto baixa também a voz)  Porquê?
1 — (Acompanha 2 na descida e encosta-se mais a ele)  Porque a partir daí já não podes escrever mais nada!
2 —  (Baixando-se ainda mais) E porquê?
1 — (Endireita-se e grita) Porque então toda a gente vai pensar que foste buscar influências e inspiração a esse livro!!
2 —  Vão pensar que eu fui buscar influências e inspiração a este livro?  E se eu ler outro?
1 — É a mesma coisa!  Quanto mais tu lês mais influências sofres!!
2 —  (Tom sério)  Isso é grave…
1 — Muito!  Se leres uma grande quantidade de livros… digamos… seis…
2 —  Tch!  Não exageres!
1 — Podes mesmo perder toda a tua identidade!
2 —  Não!…
1 — Podes nunca vir a escrever algo que seja só teu!
2 —  Não!…
1 — Nunca escreverás um livro que seja completamente e apenas escrito por ti!  Vais sempre ser o discípulo deste, o seguidor daquele, o admirador do outro!  Todos vão dizer que bebeste daquela obra, que te alimentaste daquele estilo que cagaste ou urinaste um texto…
2 —  (Interrompendo-o)  Calma!  Calma…  (Um tempo enquanto 1 se acalma)  É por isso que lês jornais?
1 — Não!  Nem isso!  Eu leio apenas e só os títulos!  Todo o resto é perigoso!  Perigosíssimo!  (Enquanto se afasta no sentido oposto em que entrou)  Imagina… crónicas, editoriais, artigos de opinião, críticas, reportagens, correio do leitor!…

(2 fica em palco a olhar para a saída de 1.  Volta depois a atenção para o livro que tem nas mãos.  Volteia-o e acaba por atirá-lo do palco a baixo com medo e repulsa)

Locução off.
Boa noite.  Estas são as notícias.
Mais um ataque palestiniano fez dez mortos em Israel.
No teatro __________ foi encontrado, após um espectáculo, um livro na plateia.  Felizmente, ninguém do público ficou influenciado pelo dito livro.  A polícia continua à procura do autor da tentativa de crime.  A investigação encontra-se  dificultada pelo facto que nenhum dos espectadores se lembrar do que aconteceu durante o espectáculo.

Cena 2

(1 e 2 encontram-se a meio do palco, tendo entrado em sentidos opostos. 1 marcha hesitantemente enquanto que 2 entra resolutamente.
Durante a cena vão apoiando as suas falas e hesitações com gestos ambíguos, referindo-se a si e ao local de que falam.  Mostram-se embaraçados e constrangidos.)

1 — Já acabaste?
2 —  Já.
1 — (Tempo)  Achas que já posso ir?  (aponta para de onde veio 2)
2 —  Eu, se fosse a ti esperava mais um tempo.
1 — (Tempo)  Foi difícil?
2 —  Desta vez foi mais fácil.
1 — É normal.
2 —  É o que dizem.
1 — Pois é… uma pessoa acostuma-se a tudo.
2 —  Pois é…
1 — Ficaste lá quanto tempo desta vez?
2 —  Sei lá… praí… ora bem…
1 — Estou a ver.
2 —  Sabes como é.  Perde-se a noção do tempo.
1 — Perde-se é tempo.
2 —  Pois é… (Tempo) Vais lá agora?
1 — Vou.  Mas como tu disseste que… vou esperar mais um bocado.
2 —  Pois, pois…
1 — (Tempo)  Já lá foste quantas vezes?
2 —  Quê?  Hoje?
(A tensão reduz-se um pouco)
1 — Eh!  Não exageres!
2 —  Estava a brincar… claro…
1 — Pô!… Tava a ver…
2 —  Deixa cá ver… vou lá… quê?
1 — Todas as semanas, pelo menos.
2 —  Claro!  Mas… quero dizer… há semanas que…
1 — Que horas são?
2 —  Porquê?  Tens hora marcada?
1 — Não, não… é só para saber.
2 —  (Olha para o pulso e apercebe-se que se esqueceu do relógio)  Olha!  Esqueci-me do relógio!  Foi… foi lá… (aponta para de onde veio)
1 — Tem calma.
2 —  Tu vais lá a seguir.  Não é?
1 — E depois?
2 —  Podias trazer-me o relógio.
1 — (Exageradamente)  Nem penses!!
2 —  Que é?  É só pegares no relógio e trazer-mo.
1 — Nem penses!  Eu não toco naquilo!  Sobretudo depois de lá teres estado!  Ainda por cima vou logo a seguir a ti.  Tu já viste bem a situação?
2 —  Ora…
1 — Nem penses!  Vais lá e pegas TU no TEU relógio.
2 —  Bem… mas é que… hoje… quero dizer… eu já lá fui.  Não é?
1 — Vais lá outra vez.  Que é?  Nunca lá foste duas vezes?
2 —  Já.  E por isso é que não quero lá voltar!
1 — (Após um tempo)  Estava lá muita gente?
2 —  (Tempo) O costume.
1 — Ah…  (Tempo)  Os mesmo.  É?
2 —  Os mesmos.
1 — Coitados…
2 —  É verdade.
1 — Enfim…
2 —  Também… o que é que eles podem fazer…
1 — Pois…  (Tempo)  Achas que já deu tempo para…?
2 —  Não sei.  Eu esperava mais um pouco.
1 — (Irritado)  Mas porque é que tu tens de ir sempre antes de mim?
2 —  Não sei… calhou.
1 — É que é sempre!
2 —  Olha… vem mais cedo!  Ou vai a outro lado!
1 — Não dá…
2 —  Pois é…  (Tempo)  A gente havia era de combinar dias alternados.
1 — Pois.  Olha… mas eu vou lá na mesma.  E é já!
2 —  Espera! Ainda só saí há… (olha para o pulso)  há pouco tempo.
1 — Não quero saber.
2 —  Mas já sabes o que acontece quando vamos seguidos.
1 — Quero lá saber.  Podem rir à vontade.
2 —  E vão rir à vontade.  Vão se rir de ti.  Nas tuas costas, mas vão-se rir de ti.
1 — Que riam!  Não quero saber!
2 —  Espera!…  Irritado dessa maneira não vais conseguir nada.
1 — Pelo menos vou tentar!
2 —  Estás com muita coragem!…
1 — É o desespero…
2 —  Eu compreendo.  Vai.  Eu estou contigo.
1 — Mas ficas aqui.
2 —  Não.  Vou andando.  Depois contas-me
1 — Depois conto-te.  Mas tu tás comigo. (Começa a fazer exercícios de aquecimento como se fosse para entrar numa partida de futebol)
2 —  Estou.  Mas vou andando.  Depois contas-me.
1 — Depois conto-te.
2 —  Força então.
1 — Dá-me sorte
2 —  (Batem com os punhos um no outro, como no início de um combate de boxe)  Sorte!  Força!! Tu consegues.
1 — É hoje!
2 —  Isso! (Vai-se afastando)
1 — Tou com um “fèzada”! (Começa a correr sem sair do lugar)
2 —  Boa!  Vai!  Tás pronto!
1 Solta um grito e lança-se para o lado da entrada de 2 que fica a vê-lo como se ele se perdesse no horizonte.  Após algum tempo 2 vira-se e sai pelo lado oposto, parando ainda mais um vez para olhar para trás.
Tempo
Pelo lado em que 1 saiu, entra um figurante com um cartaz debaixo do braço.  Coloca-o no centro do palco e vira-o para o público.  Consegue-se ler “Centro de Emprego” por cima de um seta que indica o lado por onde ele entrou.  Após algum tempo entra 1, passa pelo cartaz, visivelmente abatido, encara-o, arranca-o da base e chuta-o pelo palco fora.  Sai pelo lado oposto, cabisbaixo.
Tempo
O relógio de 2 é atirado a partir dos bastidores para o centro do palco.


Cena 3
Entra 2 com uma cadeira, coloca-a no centro do palco, senta-se e fica a olhar para os lados, para cima e para baixo, como quem observa quem passa, as nuvens, os pássaros, etc.  Vai mudando de posição sobre a cadeira, sempre dando um ar de contemplação.
Entra 1 com uma mulher pelo braço.  Anda os dois quase que maquinalmente, ou com um ar militar.  Passam por 2 que fica a vê-los a passar.  Após alguns passos, 2 chama 1 que larga a mulher.  Esta continua por mais alguns passos, até se imobilizar, como lhe tendo faltado energia.  Ela permanece na mesma posição até 1 a ir buscar.

2 —  Psst!   Psst!
1 — (Ao chegar junto de 2, falando baixo)  O que é?
2 —  Quem é aquela?
1 — (Próximo do ouvido)  Não sei.
2 —  Não sabes?!
1 — Não.  Nem quero saber.
2 —  Não queres saber?!
1 — Não.  O que é que fazes aqui?
2 —  Estou à procura de inspiração.
1 — Aqui?!
2 —  Sim.  Porquê?  Há lugares especiais para se conseguir inspiração?
1 — Havia.  Mas agora já estragaram tudo…
2 —  Pois é.  Vandalismo.
1 — Qual vandalismo!  Pior!  Literatura reles!  Esses poetas e escritores… reles estragaram esses lugares ao escreverem sobre as flores, os campos, as aves, os rios… até mesmo sobre as cidades, as casas, os transportes!…
2 —  As praias!  As praias então estão mesmo todas estragadas.
1 — Cala-te!  É sempre um pôr-do-sol à beira mar…
2 —  O barulho das ondas no meu coração…
1 — As noites de luar vividas a dois…
2 —  Pára que eu ainda vomito. (Tempo)  E o que é que tu fazes por aqui?
1 — O mesmo que tu!
2 —  O quê?
1 — Ando à procura de inspiração.
2 —  (Aponta para a mulher)  Não me digas que já a encontraste…
1 — O quê?  Ela?  Bem… não… quero dizer… não sei….  Vamos ver, não é.
2 —  (Olhando-a de alto a baixo, à distância)  Olha que para inspiração… já vi melhor.
1 — Eu sei, eu sei… mas também está tudo tão escolhido.
2 —  Bem… às vezes não se dá por elas à primeira vista e, depois, acabam por ser uma boa inspiração.
1 — Estou a contar com isso.
2 —  Achas que te vai ficar cara?
1 — Espero que não.  Já estou farto de gastar dinheiro com elas.  Sai-me cada uma!…
2 —  Tiveste azar.
1 — Sim, porque tu tens te dado muito bem nesse campo.  Não é?
2 —  Nem tento.  Já sei que não tenho jeito nenhum.
1 — Não é uma questão de jeito!  Lá estás tu a bater na mesma tecla!  Tudo é uma questão de trabalho!  Trabalho e empenho!
2 —  Bem!  Não vamos voltar a falar em trabalho!  Já chega!
1 — Não estava a falar… desse trabalho (expressão de repulsa)  Estava a falar do trabalho de escritor.
2 —  Ah…
1 — Não podes pensar ser um escritor só porque tens jeito para escrever.
2 —  Claro…
1 — O jeito ganha-se…
2 —  Sim, mas…
1 — Cultiva-se…
2 —  Mas…
1 — Educa-se!
2 —  Mas é preciso ter inspiração!
1 — Sim… está bem… é verdade…
2 —  E sem inspiração não se vai a lado nenhum.
1 — Parece mal.
2 —  Até são capazes de dizer alguma coisa.
1 — Quem? Os críticos.
2 —  Pior.
1 — Os leitores?
2 —  Nossos colegas!
1 — Essas bestas!!  (Tempo)  E por isso é que estás aqui sentado?
2 —  Sim.  E por isso é que tu andas por aí com a…
1 — Com a minha inspiração.
2 —  Mas tu tens mesmo a certeza que ela vai dar alguma coisa?
1 — Não sei.  Já te disse… (Tempo.  Aproxima-se dela, seguido de 2)  O que é que tu achas?
2 —  Bem…
1 — Não, não.  A sério.
2 —  Bom…
1 — (Ansioso)  Diz lá.  Anda.
2 —  Não sei.  Era preciso vê-la a mexer.  A fazer qualquer coisa.
1 — Espera.  Eu vou buscá-la e passo já aqui com ela.

1 vai buscar a mulher a correr e trá-la pelo braço, quase bruscamente.  Passa com ela pela frente e por trás de 2 que os observa com um olhar de apreciação.  1 mostra-se ansioso e inquiridor durante esse desfilar e, ao fim de algum tempo, larga a mulher que dá mais alguns passos até parar novamente como anteriormente, desta vez num local diferente.

1 — Então?  O que é que achas?
2 —  Mexe-se bem.
1 — Mexe-se bem, mexe-se bem…  Todas se mexem bem!
2 —  Bem… depende da idade.
1 — Depende da… mas tu estás a desconversar o quê?
2 —  Não.  Nada disso.  Então tu não me perguntaste o que é que eu acho dela?  Eu disse-te o que eu acho dela.
1 — Então achas que eu não consigo ir a lado nenhum com ela…
2 —  Bem… se for sempre a andar assim a minha volta, não vais a lado nenhum.
 1,Irritado, contorce-se e geme como se estivesse com dores
2 —  Aí acho que já consegues alguma coisa!
1 — (Irritado mas a choramingar)  O que é que tu estás praí a dizer?
2 —  Estava a dizer-te que ao fazeres isso…  ora faz lá.
1 — Faço o quê?
2 —  O que fizeste ainda agora (imita 1 a contorcer-se e a gemer)
1 — O quê?  Isto (imita 2 mas mais fraco)
2 —  Não.  Com mais força.

Continuação do jogo entre 1 e 2, cada vez mais intensificado até 1 repetir exactamente a posição do corpo e o gemido.
2 —  Isso!  Sim.  Se fizeres isso durante algum tempo talvez te saia alguma coisa.
1 — (Tempo)  Achas?  (Tempo)  Posso então mandá-la passear?
2 —  Não.  Tu não percebeste nada ou estás a fazer-te parvo?  Não é ao fazeres (imita 1 fracamente, 1 repete como que a perguntar se era mesmo isso que ele pretendia)  Sim isso.  Que vais conseguir obter inspiração.  Eu quero dizer que ao sofreres dessa maneira, ao te irritares, te desesperares… sei lá… ao sofrer, pronto!  Acho que aí consegues muito mais do que se te ficares por aquela inspiração.
1 — Olha que… não está mal visto, não senhor…
2 —  Claro que não.  A dor… o sofrimento… que grandes temas!
1 — Que grandes inspirações!
2 —  Ui.
1 — Mas é que é mesmo. (Avança em direcção à mulher)  Deixa-me só ir levá-la que já vais ver com que é que eu venho.
2 —  Com um texto?
1 — (Enquanto caminha na direcção dela)  Uma obra!
2 —  Um livro?
1 — (Já com a mulher pela mão)  Volumes!!
2 —  Isso.

Fica a vê-los partir.  Depois de algum tempo volta à sua contemplação.  1 volta a entrar com a mulher pela mão, arrastada como uma criação que se deixa levar para a escola.

1 — Espera lá. (Aproxima-se de 2, larga a mulher que, desta vez, recua alguns passos, como quem vai cair para trás)  Então… se a inspiração vem da dor… do sofrimento… (Quase irritado)  O que é que tu estás a fazer aí sentado a olhar para as abelhas e os cãezinhos a passar?  Ein?
2 —  Mas quem te disse que eu procuro a mesma inspiração que tu?
1 — E quem te disse que eu procuro a inspiração que a dor e o sofrimento podem me dar?
2 —  Acho que foi porque te vi com ela pelo braço.
1 — Ah!  Quer dizer que se vê um homem com uma mulher pelo braço e deduz-se logo que ele anda à procura de dor e sofrimento.
2 —  Bem… se for um homem normal… o mais certo é ele andar à procura do contrário.
1 — Do contrário?… Um homem normal?… Percebi-te.  E eu então não sou normal…
2 —  Tu… sendo um… já que és um…
1 — Um escritor.
2 —  Sim.  Pronto.  Digamos que sim.  Tu, com uma mulher pelo braço, só com dor e sofrimento é que te safas.
1 — (Mais calmo)  E tu… Achas que ele me pode dar?… Sabes…  isso?
2 —  (Olha novamente para a mulher e depois para 1) Não.
1 — Bem me parecia!  (Olha para a mulher)  Esta é… é muito fraca.
2 —  Fraca?  Bem… não sei… mas acho que o problema está mais em ti.  Por isso é que eu te disse que ao fazeres… aquilo… sabes?
1 — Não.
2 —  Sabes… quando fizeste aquilo… (repetem o jogo anterior)  Isso… o que eu quis dizer é que te safavas melhor se resolvesses isso sozinho… pelos teus próprios meios.
1 — (Gestos e expressões ambíguas)  Queres dizer…
2 —  Sim.  Exactamente.
1 — (Ainda ambíguo) Eu… queres dizer… sozinho…
2 —  Isso mesmo.
1 — E ela… (faz gestos como se fosse para mandá-la embora)
2 —  (Acena afirmativamente com a cabeça, sentencioso)  Hum, hum.
1 — (Hestitante)  Eu não sei… não estou muito habituado… sozinho?
2 —  Ou então arranjas outra melhor.
1 — Melhor como?
2 —  Uma daquelas que faz sofrer.  Essa parece-me um pouco indolente… passiva, mole, pacata. (Vão-se aproximando da mulher, voltando a examiná-la)
1 — (Andando em roda da mulher) É.  É isso mesmo.  Vou arranjar uma daquelas bem duras.
2 —  Bom… mas…
1 — Com o vozeirão daqueles … (imita)
2 —  Pode ser mas…
1 — Forte!
2 —  Bem…
1 — Com bigode!
2 —  Não!  Espera aí!  Não exageres!
1 — Uma que me bata!
2 —  Tu não percebeste mesmo nada do que eu disse…
1 — Então?
2 —  Ela não precisa de ser bruta e feia para te fazer sofrer.
1 — Bem… mas assim, só de olhar para ela já dá para sofrer.
2 —  Mas não é por aí que vais conseguir a tua inspiração.
1 — Então?
2 —  Ela precisa de ser linda.  Linda, linda!  Como o sol, como a lua a brilhar num lago, como uma flor a abrir gentilmente…
1 — Pára!  Pára que eu vou vomitar de vez.
2 —  Pronto.  Deixa para lá as comparações.  Tu tens é que te apaixonar por essa mulher.
1 — Me apaixonar?! Eh lá!
2 —  Sim.  Tem de ser!
1 — Mas então é que eu não faço nada.
2 —  Não fazes nada se tentares viver uma relação a dois.  Mas para isso tens de ser correspondido.
1 — Ah!  Já percebi tudo!  Então é preciso arranjar uma que não me ligue nada…
2 —  (Puxando por ele) Mas que…
1 — Mas que… para mim… (mímica indicando que ela seria mais que tudo)
2 —  Exactamente.
1 — Mas… espera aí!  Imagina que… entretanto a coisa até se componha… tás a perceber?
2 —  Aí então só te restam duas possibilidades.
1 — O quê?
2 —  Ou tens a sorte de ter encontrado uma com um espírito de demónio que, apesar de gostar de ti, te torne cada dia da tua semana num verdadeiro inferno…
1 — Boa!  Ou?…
2 —  Ou és tu que crias o inferno!
(Sequência em tom exageradamente dramático)
1 — Não!
2 —  Que a uses e deites fora!
1 — Não!
2 —  Que a enxovalhes!
1 — Não posso!
2 —  Tem de ser!
1 — (Em desabafo)  Pela Arte?
2 —  Nem mais.  Pela Arte!
1 — Se tem de ser…
(Fim do tom dramático)
2 —  De qualquer forma ficas sempre a ganhar.
1 — Pois fico.
2 —  Ficas pois.  Agora… vai.
1 — Vou.
2 —  Vai e procura.
1 — Vou procurar

Pega na mão da mulher e começa a encaminhar-se para fora.  2 senta-se novamente na cadeira.  Após um tempo em que pára para pensar, 1 volta para o pé de 2.

1 — Não queres esta?
2 —  Não.
1 — Eu deixo-ta.
2 —  Não.  Vai.
1 — Mas é que já estava um pouco apegada a ela e agora faz-me impressão…
2 —  Vai!
1 — Vou.

Volta-se novamente e sai.  Após um tempo volta a entrar, sozinho, com o passo arrastado e dirige-se para 2

1 — E tu?  Já alguma vez encontraste alguma?
2 —  Alguma quê?
1 — Uma dessas que te fazem sofrer ao ponto de conseguires inspiração para escrever.
2 —  Já te disse.  Não é desse tipo de inspiração que eu ando à procura.
1 — Mas é fácil encontrá-las?
2 —  É.  É fácil.  O difícil é saber quando acabar de vez com elas.
1 — Porquê?
2 —  A dor pode vir a ser maior do que o necessário.  Pode mesmo chegar ao ponto de matar toda a inspiração.  Tens que saber acabar a relação antes que a relação te mate toda a vontade de escrever.
1 — Tenho medo.
2 pega-lhe na mão, pega na cadeira com a outra mão livre e saem os dois pelo lado em que 2 entrou.

Voz off — texto de Luís de Camões  “No mundo pôs Deus…”

Cena 4
Entra 2 por um lado e 1 por outro.  2 vem a ler um livro.  1 pára logo à entrada, grita como que assustado por ver 2 a ler.

1 — Ah!  Não te mexas!
2 —  (Olha em volta como que procurando um insecto)  O que é?  Um bicho?
1 — Não te mexas!  (Corre para ele e fica estático quando o alcança.  Dá um piparote no livro que voa para longe deles)
2 —  Mas o que é que…
1 — Eu não te disse que não podias andar por aí a ler?
2 —  (Vai juntar o livro)  Espera.  Não viste nada… (Junta o livro e aproxima-se de 1 para mostrá-lo)  Olha.  É um livro em branco.
1 — (Pega no livro e folheia-o ostensivamente, mostrando todas as páginas em branco)  Um livro em branco?
2 —  Sim.  Não estás a ver?  É para pregar uma partida a qualquer um que se chega junto de mim…
1 — Estou a ver!…  (Fazendo vozes) “O que é que estás a ler?”, “Que livro é esse?”.  Debruçam-se, espreitam para o livro e…
2 —  Tadá!  Um livro em branco.
1 — E eles?
2 —  E quando o levo fechado… assim.. vê.. debaixo do braço.  Só aparece a capa.
1 — E eles?  E eles?
2 —  Então aí ainda é melhor.  Invento títulos e nem preciso de abrir o livro.
1 — E eles?  O que é que fazem?
2 —  (Imitando) “Ah!”, “É bom?”, “Já ouvi falar nele.  É bom?”
1 — (Como que tendo uma ideia súbita) Eh pá!  Mas isso é uma grande ideia!
2 —  (Moderando-o)  Eh… é uma piada.
1 — Não, não!  É uma grande ideia!
2 —  Oh… não é nada de espectacular.
1 — Não pá!  É uma grande ideia que tiveste.
2 —  Eu acho que já alguém pensou no mesmo.  Sabes… aqui há uns anos venderam-se uns quantos livros em branco…
1 — Não!  Espera… espera  que eu é que estou a ter uma grande ideia.
2 —  Se for para vender o livro assim em branco, não vale a pena, porque aqui há uns anos já…
1 — Não!  Espera… vê-me isto:  e se tu escrevesses nesse livro em branco?  Com a tua própria letra?  Ou se escrevesses à máquina e no computador e depois pusesses aí as folhas?
2 —  É isso que te estou a dizer.  Aqui há uns anos, houve uma carrada de livros em branco que foram vendidos para as pessoas que os comprassem…
1 — Não.  Não é a mesma coisa.  Tu podias escrever NUM livro em branco e depois dizer que é teu.
2 —  Pois… mas há uns anos já venderam uma carrada de livros em branco…
1 — Não!  Não, não, não!  Não é nada disso!  (Tempo.  Explícito)  TU escrevias NO livro em branco e punhas-te TU a lê-lo por aí.  Quando alguém te visse e perguntasse “O que é que estás a ler?”, Tu … tau!  Espetavas-lhes o livro no nariz, assim como quem… “Estou a ler isto, assim-assim e tal… Conheces?”.  Tá-se mesmo a ver que eles iam começar com a mesma conversa:  “Ah!  Sim, sim.  Conheço.  Isso parece que é muito bom!”
2 —  Parece engraçado, mas… e a escrita?
1 — Engraçado?!
2 —  Sim.. e a escrita.
1 — Mas isto não é para ter piada.
2 —  Está bem… mas e depois?  Como é que faço quanto à escrita?
1 — Quanto à escrita o quê?
2 —  Vou ter que escrever o livro.  Não vou?
1 — Pois é… bem pensado.  (Tempo)  Mas podes escrever qualquer coisa.
2 —  Qualquer coisa?
1 — Sim… mesmo sem jeito nenhum.
2 —  Quem eu?  Escrever qualquer coisa sem jeito nenhum?
1 — Esquece isso.  Ouve cá!  Achas que as pessoas a quem vais mostrar o livro vão tentar ler alguma coisa dele?
2 —  Bem…
1 — Claro que não!  A maior parte só lê a capa.  Só os que os levam para casa é que lêem mais alguma coisa do que a capa.
2 —  E mesmo esses…
1 — O que importa é que a capa tenha um título.
2 —  Mas como se ainda não tenho nada escrito?
1 — E qual é o problema?  Tens de começar pelo título.
2 —  Eu pensava que o título era a última coisa…
1 — Não!  O título… o título tem de ser a primeira coisa na qual tens de pensar!
2 —  Pensava que era a última…
1 — É a primeira!
2 —  Eu pensava que…
1 — Não interessa!  Tu tens que arranjar um título.
2 —  Mas eu não tenho nenhuma ideia para um título…
1 — Então tu não disseste que inventas títulos quando te perguntam o que estás a ler?
2 —  Mas o livro não é meu.
1 — Ãh?!
2 —  Eu invento títulos, mas se fosse a escrever um livro nunca punha um título desses que eu invento.
1 — Nem quero saber que títulos são esses.  Mas pronto… tens que arranjar um.  Vamos lá ver qual…
2 —  Era preciso ter uma ideia.
1 — Claro.
2 —  E eu estou sem inspiração.
1 — Bom!  Não vamos recomeça essa conversa.
2 —  Está bem.  É preciso um título.  Pronto.
1 — Um bom título.
2 —  Isso.
1 — Um que chame a atenção.
2 —  Claro…  Com grande letras.
1 — Isso agora não interessa para nada.  Pensamos nas letras depois.
2 —  Achas?
1 — Claro.  Temos tempo.
2 —  Temos?!
1 — Temos.
2 —  Não… Quero dizer… Porque é que dizes “temos”… NÓS temos tempo?
1 — Bem.  Estou-te a ajudar a escrever o livro.  Não é?
2 —  Mas o livro é meu.  E tu só estás a escrever o título.
1 — É claro que é teu.  Nem eu to quero tirar.
2 —  E o teu livro?
1 — Agora não interessa.  Depois falamos nisso.
2 —  Mas tu tens um livro.  Não tens?
1 — (Irritado)  Isso agora não interessa!
2 —  Mas era só para saber…
1 — (Mais calmo)  Tenho.  Tenho algumas coisas escritas…
2 —  Claro.  Um pouco como toda a gente.
1 — O quê?…
2 —  Não… não quis dizer nada… não é pessoal.  Mas… afinal toda a gente tem alguma coisa escrita.  Não é?  Há sempre alguém que tem uma coisita ou outra na gaveta… um poema, uma crónica, um artigo de jornal, o princípio de um romance, uma peça de teatro…  Afinal nós somos o país dos autores por publicar… como disse já não sei quem…
1 — Isso!
2 —  Não fui eu que disse isso.  Acho que foi…
1 — Mas disseste- o bem.  É isso!
2 —  Nem sei se está bem dito… Não sei se é o país dos autores por publicar ou dos escritores por publicar.
1 — Esse é que é um grande título:  “O País dos Autores por Publicar”!
2 —  Está bem…  E de que é que o livro vai falar?
1 — Então… de… deixa cá ver…  De escritores, claro!  De escritores que não conseguem publicar… ou não podem… porque…  porque…
2 —  Porque no país deles já há muito quem publique?
1 — Sim.  Ou porque têm vergonha?
2 —  Vergonha?
1 — Ou medo.
2 —  São reprimidos pelo governo!
1 — Não.  São reprimidos por eles próprios!
2 —  Então é essa a intriga?
1 — Qual intriga?
2 —  Vou escrever um livro sobre um país inteiro cheio de autores que não conseguem publicar nada porque têm medo ou vergonha de fazê-lo…
1 — Dito assim não tem piada nenhuma!  Com um título desses e vais depois escrever uma porcaria?!
2 —  Mas eu nem queria escrever sobre isso.
1 — Agora é tarde!  Já tens o título, tens de escrever alguma coisa que tenha a ver com isso.
2 —  Mas eu não queria…
1 — Não interessa o que querias!  Vais escrever o livro!  Já tens o título tens que escrevê-lo!
2 —  Mas posso muito bem ter esse título e escrever algo que não tenha nada a ver com isso. Pois não?
1 — Como?
2 —  Há tantos a fazerem isso!  Nunca viste um livro cujo o título não tem nada a ver com o conteúdo?
1 — NÃO!!!
2 —  Ah… é verdade.  Tu não lês…
1 — Pronto!  Está decidido então.
2 —  Está decidido o quê?
1 — Vais então escrever o livro com esse título.
2 —  E vou falar de quê?
1 — Já te disse!!
2 —  Mas eu não percebi muito bem… sabes?  Não vi aí no que tu me explicaste algo de sólido… sabes… uma trama…
1 — Bom… o melhor é arranjares assim meia dúzia de histórias amorosas… assim… tudo separado… e depois vais juntando as personagens…
2 —  Ah!  Uma novela!
1 — Está bem.  Pronto.  Uma novela.  Qualquer coisa ao gosto dos leitores.
2 —  Qualquer coisa?!  Mas eu não quero escrever qualquer coisa… Quero escrever um bom livro
1 — Já tens um bom título.
2 —  Bem…
1 — Está tudo combinado!  Vai escrever o livro e não se fala mais nisso.
2 —  (Como que atordoado com toda a conversa) Não se fala mais nisso…
1 — Vai-se falando.  Mas não se discute mais o assunto.
2 —  (Ainda atordoado) Está bem… pronto… o assunto.  (Recuperando)  Mas tua vais escrever o teu.  Não vais?
1 — Vou pois.
2 —  Mas é diferente.  Não é?
1 — Claro.
2 —  É sobre o quê?
1 — Não sei… quero dizer:  ainda não sei ao certo.
2 —  Não tens título?
1 — Não.  Ainda não.
2 —  Queres o meu?
1 — Quê?
2 —  Sim.  Se quiseres podes ficar com o meu título.
1 — O quê?!  Não gostas dele.
2 —  Gosto, gosto.  Mas se quiseres… se precisares dele… podes ficar com o meu título.
1 — Ora… Então!  Foste tu que o achaste!  Ia lá agora ficar com o teu título…
2 —  Pois… claro.  Estava a brincar.
1 — Vai lá.  Anda.  Vai lá escrever.  Não se fala mais nisso.
2 —  Mas depois falamos.
1 — Depois falamos.  Não se discute mais.
2 —  Isso.


(Continua)
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Gilberto Cardoso
Enviado por Gilberto Cardoso em 29/08/2007
Código do texto: T628688

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Sobre o autor
Gilberto Cardoso
Portugal, 48 anos
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