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Mas quem é que fechou isto ontem?

Elenco:
Sr. José – Um sem abrigo com alguma idade. Procura no lixo ou nas ruas jornais para ler e para se cobrir. É conhecido do grupo de esteticistas e cabeleireiras. Tem uma amargura latente que se pode verificar nas suas expressões e no modo como fala.
Dirceu Malaquias — Director do Grupo “Entala”, grupo fictício de distribuição de jornais e revistas. Um homem de meia-idade, executivo altaneiro e soberbo.
Rosita — De todas as esteticistas é a mais comedida e discreta.
Mitó — Fútil e por vezes lenta no raciocínio. Tem um passado de namorados e amantes.
Nelinha — Por hábito calma e comedida, apresenta-se como sorumbática e aborrecida com algo que nunca se chega a saber ao certo de que se trata.
Paula — Dona do salão. Mulher decidida e empreendedora.


Cena 1
(Os títulos lidos pelo Sr. José podem variar em conformidade com as notícias presentes na comunicação social aquando da representação da peça)
José — Raios partam! Mas que merda (Pega numa e noutra página e vai lendo) É que não há uma… nem uma… que se aproveite…  E eu que não guardei as da semana passada.  Olhem-me para esta merda!  "Novo aumento do preço dos combustíveis"… E isto ainda é notícia?  De segunda página?! Porque é que não metem também os novos carros adquiridos pelo governo ou a nova casinha de férias do primeiro-ministro?  Vão gozar com o…(coloca o jornal no chão como para fazer um cobertor)
(Continua à procura nos jornais) E o caso do miúdo que foi molestado pelo outro… o gajo que disse que… e o pessoal que estava à porta do tribunal… tudo do lado do merdas… Pois.  Já não aparece em lado nenhum.  Não é moda, pois não? Mas o merdas continua a ir à televisão falar de si e do que sofreu com toda aquela merda… Ah!...(coloca o jornal no chão, e procura um outro)
Mais dois Americanos que morreram no Iraque… Ora!  Puta que os pariu!  E quantos portugueses é que morreram por cá nas estradas, nas obras… em casa?  Puta que os pariu a todos!
E aquele merdas que era ministro?... onde é que está?  Agora que saiu do governo parece que ficou tudo na boa. Cambada de bêbados, intrujões, salafrários… Roubam tudo quanto podem… Puta que os pariu.
(Para fora) Ó Marcelo!  Tá aqui a necrologia!  Não queres? (Marcelo pode responder no seguimento da fala em voz off imperceptível) Quê?  Vem cá tu ó bêbado de merda!  Quê? Lê tu ó seu porras… vem cá buscá-lo…  Eu não te leio esta merda mais nenhuma vez… Tu nem conheces os gajos!  Eu até podia estar a inventar que para ti era igual… Vem cá tu, merda!... No máximo eu leio-te isto daqui.
Cá vai então!
Artur Carrapiço morreu com 62 anos, vinte anos apenas após ter feito 42!  Pela foto ninguém diria.
Manuel Ferro morreu sem ter recebido desta vida o devido valor que dão aos justos.  E os familiares devem ter a mania que ele era importante.
Jeremias Cação pôs fim à vida por motivos desconhecidos.  Foda-se.
Zeca Gomes morreu a cumprir o seu dever. Mas tava de certeza a pensar noutra coisa.
Ricardo Rego… Este pela cara a morte teve pena dele e levou-o.
Afonse de Azeredo Albuquerque Flor de Lima.  Este deve-se ter ido para o alto de um prédio para morrer num lugar elevado
Manuel Pina, coveiro de profissão, teve uma enfarte e caiu na cova que estava a abrir.  Eh pá!  Eu nem preciso de inventar muito.
Zé Tino, o bufas, foi retirado desta vida pela autoridade competente.  Estes gajos já nem sabem o que escrever para ser diferente!
Mário Castro caiu tão dramaticamente das escadas abaixo que nem é possível descrever a sua morte.
Sousa dias morreu de pé…. Mas enterraram-no deitado como toda a gente.

Ora… Raios partam estas merdas.  Toma lá que é para a colecção… Então fica aqui… vai pró…. Raio que ta parta.

Deixa-me cá compor… o suplemento de Economia é que me dava jeito agora…  Teatro e cinemas…. Daqui a uns tempos já nem aparecem… Olha!  Limpei o cu a este gajo no outro dia!  A Europa… a Europa…  Chupistas e ladrões… Será que ainda há gente a ler isto?...  Campanha de Saldos… filhos da puta… Natal e Saldos e colecção nova e férias e viagens e têm a honra e a pouca vergonha de estar sempre a falar na crise ao mesmo tempo.  Filhos da puta dos jornalistas. Moda primavera-verão… espero que venha por aí um tremor de terra ou dois para lhes dar alguma coisa para escrever…o que é que eles têm para meter debaixo do dente?  Cambada de abutres.
Ó Marcelo!  É a última vez que ficas com o suplemento de Economia! (Sai de cena)

Cena 2

(Entra Dirceu, vê os jornais, adianta-se um pouco e cola a pasta no chão. Volta atrás para ver os jornais no chão)
Dirceu — Ó valha-me Deus. Que miséria. (Para fora) Augusto.  Vê-me isto.  Augusto.  (José entra com o suplemento de economia e fica atrás de Dirceu)  Olha para esta miséria. "Governo decide aumentar em 3% o IVA".
José — Mas o senhor está parvo ou quê?
Dirceu — (Assusta-se. Tenta ir buscar a pasta mas hesita ) Parvo porquê?  Não. Eu estava a falar para o meu assistente.(Gera-se um jogo em que o Director tenta ir à sua pasta e o vagabundo impede a sua passagem)
José — O senhor tem alguma coisa que estar a ler o meu cobertor?
Dirceu — Augusto! Deixe-se estar.  Desculpe. Foi um impulso estúpido.
José — Eu posso-lhe dar outro impulso estúpido se quiser.
Dirceu — Augusto!
José — Perdeu o cão?
Dirceu — Não. É o meu assistente.  Augusto!
José — Pois… chame lá o seu assistente que é para ele assistir a isto.
Dirceu — Olhe… calminha… pode ficar com a carteira se quiser (Estende-lha)… mas deixe-me a minha pasta. Augusto!
José — Mais essa agora… para que é que eu quero a sua pasta?  Eu quero é que ele veja a triste figura que o senhor está a fazer. Porque é que está aí aos gritos?
Dirceu — É para chamar o meu assistente. Íamos os dois a passar e não sei porquê ele ficou para trás (Estende-lhe a carteira e deixa-a cair ao pegar na pasta).
José — E por causa disso o senhor não pode continuar o seu caminho e deixar-me dormir em paz? (Pega na carteira de Dirceu)
Dirceu — Sim.  Realmente tem razão.  Desculpe. Não queria estar a importuná-lo na sua… casa.
José — (Devolve-lhe a carteira) Não… esteja à vontade. Afinal minha casa é a sua rua. Não é?
Dirceu — Pois… bem… não quero chateá-lo mais. Desculpe lá isso. Olhe… tome lá que é para si. (Tira dinheiro da carteira e tenta dá-lo)
José — O quê? Não senhor. Agora não que estou fora do meu horário de trabalho.
Dirceu — Pois. Claro. Que estupidez a minha.
José — Mas vejo que o senhor ainda está a trabalhar.
Dirceu — Como?
José — Esta aí a chamar pelo seu assistente… Bem… mas eu também não sei em que é que ele o assiste.
Dirceu — Desculpe?  Eu sou Director do Grupo Entala, o maior grupo de produção e distribuição de revistas e jornais. Como deve perceber eu não tenho um horário de trabalho normal.
José — Ah. O senhor vende revistas e jornais!  Então o senhor é o meu fornecedor.
Dirceu — Pois… Visto assim… Bem… mas eu tenho que ir…
José — Claro que tem!  Nem seria bom que o vissem por aqui a estas horas, na companhia de gente como eu.
Dirceu — Não é isso que eu quero dizer.
José — Claro que não. Mas não é verdade que estaria melhor numa festa de Jet 7 do que nesta rua à procura do seu assistente e a aguentar o meu sarcasmo?
Dirceu — Sarcasmo!  Muito bem dito.
José — Claro que está muito bem dito.  Acha que eu uso os jornais apenas para me cobrir?
Dirceu — Bem… claro que não.
José — Ou para ir ali atrás cagar?
Dirceu — Ouça…
José — Acha que eu não posso ter a mesma educação que o senhor?
Dirceu — Não.  Claro que não… Quero dizer… não acho…
José — O senhor já alguma vez pensou bem no que escrevem nos seus jornais e revistas?
Dirceu — Como?...
José — Já alguma vez ligou aos números de não sei quantos porcento de desemprego, de uma data de fábricas que fecharam, de mais um caso de injustiça em tribunal?  Já pensou nas pessoas que estão metidas nas entrelinhas do que escrevem nas merdas dos jornais? Sabe onde estão os desempregados das fábricas que fecham e de que vocês gostam tanto de dar a notícia? Sabe onde vão parar as pessoas de quem pessoas como o senhor gostam tanto de contar as desgraças?
Dirceu — Bem… o nosso trabalho não é dar apoio ou seguir os casos que noticiamos. Além disso eu só apenas o Director.
José — E diz isso como se não tivesse culpa nenhuma!  Claro que não. E como Director apenas, não consegue estar alertado para o facto de haver pessoas que vivem todos os dias a desgraça que vocês metem em meia dúzia de linhas?  Toda a gente acha as cheias e os tremores de terra muito trágicos, mas depois isso passa-lhes. Não é? Só que as vítimas continuam a ser vítimas passados dois meses ou mesmo dois anos. Mas aí já ninguém se lembra.
Dirceu — O senhor tem toda a razão.
José — Quero lá saber se tenho razão. Eu gostava é que se fizesse alguma coisa em vez de se estar sempre a escrever sobre isso. Sabe o que é que eu acho?  Pessoas como o senhor só servem para vender indignação!
Dirceu —  Vender indignação…
José — E a um preço acessível que é para toda a gente comprar. Vende-se muito bem a indignação hoje em dia. Não vende? Metem uma história de uma família a viver sem condições e… oh! Toda a gente se indigna e lê a "reportagem". A campanha eleitoral até estava a correr bem para os candidatos, mas os senhores tratam logo de arranjar um escândalo ou um segredinho estúpido para indignar os leitores …oh! Este parecia ser tão sério!... E ninguém repara que são vocês jornalistas que tiram e colocam quem querem no governo… Não é assim?
Dirceu —Olhe que estou a gostar muito de o ouvir.
José — Está é a enrolar-me com essa conversa para ver se eu o largo.
Dirceu — Não senhor. Olhe… e para lhe mostrar que estou mesmo interessado em ouvi-lo ainda mais falar sobre esses assuntos… tem aqui o meu cartão.
José — Isto vai mesmo dar para eu me cobrir melhor.
Dirceu — Está a ver.  Esse cinismo pode vir a ser interessante. Venha ter comigo um dia destes para conversarmos melhor.
José — (Lendo o cartão) Dirceu Malaquias. Director Executivo do grupo Entala.
Dirceu — Está aí a morada e número de telefone… por isso dê-me uma apitadela… ou apareça por lá… enfim… peça a alguém para falar comigo.
José — Pode contar com isso.
Dirceu — Mais uma vez desculpe de o ter incomodado… mas tive muito prazer.
José — Não foi nada. Até breve então.
Dirceu — É isso mesmo. Até breve… (Afastando-se chega junto à boca de palco, dizendo para alguém do público). Augusto!  Onde é que te meteste, ó besta. Estive ali a falar com o bêbado qualquer a ver se tu vinhas atrás… Achas que ia adivinhar que tinhas ido pela outra rua!  (Sentando-se junto de uma pessoa do público) Ainda por cima vens para aqui ver uma estúpida peça de teatro…(Entra Rosita que vai abrir o salão de cabeleireira e encontra o José a dormir)

Cena 3
Rosita — Então senhor José. Ainda na cama a esta hora?
José — (Acordando) Olá Rosita. Desculpa menina, mas… ontem à noite tive… tive aqui um chato que não me deixou dormir.
Rosita — Teve de dormir à pressa então?
José — Desculpa filha. Eu sei que já devia estar aqui a esta hora.(Arruma os jornais para sair com eles)
Rosita — Deixe-se estar mais um bocadinho na cama. Vá… descanse.
José — Qual quê.  Tenho de me fazer à vida. Pensas que me vêm trazer o pequeno almoço à cama?
Rosita — Eu não sabia que gostava desses luxos! Para a próxima que o apanhar aí ofereço-lhe café e uns croissants.
José — Não me digas isso que ainda me deixo dormir todos os dias.
Rosita — Vá lá. Vá se fazer à vida então. Olhe que o patrão ainda o despede.
José — Não me fales de desgraças. Queres que te traga alguma coisa logo do Hipermercado?
Rosita — Então hoje vai fazer compras…
José — Já sabes… não é? Se calhar vou visitar o pessoal dos armazéns e dos contentores.  Queres que te traga alguma coisa?
Rosita — Deixe lá. Se precisar de algum recado mando-o chamar. Está bem?
José — Já sabes que podes contar comigo. Adeus.
Rosita —Até logo.
(Uma série de caixotes esperam à entrada da porta. Rosita coloca uma música numa aparelhagem existente em palco e vai carregando alguns caixotes para fora durante a cena com a Mitó. Deixa um por arrumar Já com a loja aberta entra a Mitó a ler uma revista

Cena 4
Rosita — Olá, olá.  Então. Boazinha?  Lindo dia hoje. Não?
Mitó — Espera… Ouve isto… Peixes… "Grandes decisões estão à sua espera. Cabe a si saber tomá-las. Em caso de necessidade não decida sozinha. Procure sempre os amigos mas saiba escolhê-los.  Época propícia para se confrontar a si própria."Tu já ouviste isto? Como é que eu posso encarar um lindo dia com um horóscopo destes?  Grande decisões… cabe a si tomá-las… saber escolher os amigos… confrontar-me comigo própria!
Rosita — Se o horóscopo dissesse para tu não saíres da cama nem vinhas trabalhar. O que vale é que os conselhos que eles dão são sempre muito vagos.
Mitó — Vagos?!  Tu não ouviste?! Grandes decisões estão à sua espera. Cabe a si saber tomá-las…
Rosita — Ouvi muito bem. Mas isso pode servir para qualquer pessoa.
Mitó — Até parece que não me conheces! Não vês o que está aqui escrito?  "Grande decisões estão à sua espera. Cabe a si…"
Rosita — Claro!  Claro que só te poderia acontecer a ti ter grandes decisões à tua espera!  Num salão de cabeleireira.
Mitó — E por que não?  Ouve… "Cabe a si saber tomá-las."
Rosita — Sim...
Mitó — Quem é que toma as decisões aqui dentro?
Rosita — A Paula.
Mitó — Achas?
Rosita — Que eu saiba ela continua a ser a dona deste salão. Ou não?
Mitó — Está bem, mas quem é que toma as decisões quando estou com uma cliente?
Rosita — Bem… Por vezes eu também me pergunto isso.
Mitó — Grandes decisões estão à sua espera. Cabe a si saber...
Rosita — Olha.  Lê lá o Leão.
Mitó — Mas tu és Touro.
Rosita — Mesmo por isso.
Mitó — Ah!  Tens algum Leão na tua vida… (ruge a imitar um leão).
Rosita — Não é nada disso.
Mitó — Claro que é isso. Porque é que queres que eu leia o Leão?
Rosita — Então lê Gémeos.
Mitó — Gémeos e Touro não se dão nada bem. Já te aviso.
Rosita — Óptimo!  Lê lá então.
Mitó — Está bem… "Encare com calma as pequenas contrariedades deste dia. Os amigos podem não ser uma grande ajuda mas conte com eles como confidentes. Tenha cuidado ao transportar objectos pesados."(Rosita deixa cair uma caixa que estava a transportar) Cuidado!
Rosita — Ora vê lá bem como esse horóscopo está de acordo comigo.
Mitó — Mas… mas… nem sequer é o teu.
Rosita — Mas não dá na mesma?  Repete lá para ver… o início.
Mitó — Encare com calma as pequenas contrariedades deste dia.
Rosita — E não estou a encarar com calma?
Mitó — O quê? Que contrariedades?
Rosita — Continua.
Mitó — Os amigos podem não ser uma grande ajuda…
Rosita — Lá está!  E cuidado com os objectos pesados.
Mitó — Deixaste-o cair de propósito.
Rosita — Não podes ter a certeza disso.  Pois não?
Mitó — Bem… eu vi.
Rosita — Mas foi quase ao mesmo tempo que acabaste de ler.(Sai com o caixote)
Mitó — (Tempo) Tu já tinhas lido isto?
Rosita — Ainda agora cheguei. Quem te diz a ti que os signos não estão trocados?
Mitó — Não pode ser.
Rosita — Vê lá bem isso. Imagina onde pode estar o teu horóscopo. Até podes ser Gémeos sem saberes.
Mitó — Achas? (Começa a ler os restantes)
Rosita — Porque é que não os lês todos e juntas um bocado de cada um à medida que te der jeito.
Mitó — Isso não funciona assim.
Rosita — Claro!  Da outra maneira é que funciona bem.
Mitó — Que maneira…(São interrompidas pela entrada de Nelinha)

Cena 5
Rosita — Olha a Nelinha!  Estás boa filha?
Nelinha — (Tom de desagrado) Eh…
Rosita — Hoje não é segunda-feira.  Porque é que vens com a cara de segunda-feira?
Nelinha — Não é nada.
Mitó — Queres que te leia o horóscopo? Tu és Virgem?
Rosita — Cala-te lá com isso.
Mitó — Estava a perguntar pelo signo.
Rosita — Mesmo por isso.  (Para Nelinha) Anima lá um bocado anda.
Nelinha — A Paula já chegou?
Rosita — Deve estar quase a chegar.
Nelinha — Ah. Está bem então. (Senta-se num dos sofás)
Rosita — Então? O que é isto?
Nelinha — O que é?
Rosita — Não te vais preparar? Achas que isso é roupa para estar aqui?
Nelinha — Ah… tens razão. (Vai para trás do biombo para se preparar)
Rosita — Foste tu que fechaste o salão ontem?
Nelinha — Fui.
Mitó — Mas ela é Virgem não é?
Rosita — Veio muita gente à tarde.
Nelinha — Nem por isso.
Mitó — Olha o que diz aqui.
Rosita — Tens marcações para hoje?
Nelinha — Não. E tu?
Rosita — Uma ou duas.(Vão-se sentar as três, folheando revistas. Após algum tempo entra a Paula)


Cena 6
Paula—  Olá meninas! Já estão agarradas ao serviço tão cedo?
Rosita — Cala-te. Tem sido uma manhã horrível.
Paula—  Imagino. Só pelo monte de cabelos que está lá fora dá para ver.
Rosita — E isso foi só de três clientes.
Paula—  Ena!
Mitó — Vocês estão a gozar. Não estão?
Paula—  É claro que estamos!
Mitó — Ah ainda bem.
Rosita — Porquê?
Mitó — É que eu também estou a gozar quando pergunto se estão a gozar
Paula — Olha para ela tão esperta hoje.  (Encontra cabelos no chão) Quem é que fechou isto ontem?
Nelinha — Fui eu.
Paula — Veio muita gente à tarde?
Nelinha — Nem por isso.
Mitó — Olha o que diz aqui.
Rosita — Vocês já viram o penteado da Ninicas na festa de noivado do Duque de Albuquerque?(Mostra às outras)
Mitó — Que miséria. Nem dá para ver o que ela tem em cima da cabeça. É um chapéu ou é o cabelo dela.
Paula — Visto assim parece um animal morto.
Rosita — Mas é o cabelo dela, não é?
Paula — Ela ainda tem alguma coisa que é dela?
Mitó — Dá-me pena ver uma coisa dessas.
Nelinha — Coitada.
Mitó — Não. Coitadas de nós aqui paradas e andam por aí umas lambisgóias quaisquer a fazerem penteados destes.
Rosita — Falta-nos o mais importante.
Mitó — O que é?
Rosita — Falta-nos nome.
Paula — Ou ter um salão noutro sítio.
Nelinha — Freguesas de jeito também vinham a calhar.
Mitó — Vocês acham que se penteássemos uma destas colunáveis não vinham clientes por aí fora? Tínhamos a salão cheio num instante.
Rosita — Mas sabem o que me chateia mais?  (tempo procura novamente na revista) Termos de andar a fazer misérias destas nas cabeças das nossas clientes só porque elas viram a Ninicas nesta revista e acham que ela está linda.
Mitó — É verdade. Não viram ontem aquela cliente que até vinha com uma página da revista?
Rosita — Não.
Mitó — Quem é que fechou isto ontem?
Nelinha — Fui eu.
Rosita — Veio muita gente à tarde?
Nelinha — Nem por isso.
Mitó — O que é que vocês estão praí a dizer? Eu a perguntar-vos se viram aquela freguesa que vinha com um página da revista e vocês a desconversarem.
Rosita — Esquece lá. Pronto. O que é que tem a freguesa?
Mitó — Então!  Ainda agora disse! Vinha com uma página de revista!
Paula — E o que é que tu lhe fizeste?
Mitó — Eu não fiz nada. Deixei-a aí sentada e larguei o serviço. Por isso é que eu estava a perguntar quem é que fechou isto ontem.
Nelinha — Fui eu.
Rosita — (A gritar) Já se sabe!!
Paula — (Forçando) Veio muita gente à tarde?
Nelinha — Nem por isso.
Rosita — Vocês param com essa merda de conversa?
Paula — Agora a sério. Nelinha. Foste tu que a atendeste?
Nelinha — Fui.
Mitó — Fizeste-lhe aquele penteado?!
Nelinha — Eu fiz.
Mitó — Tu olhaste bem para aquilo?!
Nelinha — Não. Olhei só uma vez e depois fechei os olhos enquanto lhe cortava o cabelo. O que é que tu achas?
Mitó — E fizeste-lhe aquele penteado.
Nelinha — Ela pediu-o, eu fiz o que me pediu. Ela pagou e saiu. Qual é o problema?
Mitó — Há gente que faz qualquer porcaria que venha nas revistas.
Rosita — É como aquelas que seguem o horóscopo.
Paula — E vocês nunca fizeram nenhuma porcaria dessas revistas?
Mitó — Penteados não. Poupa-me. Acho que tenho melhor gosto do que alguns "estilistas".
Paula — E dietas? E curas? E receitas?
Rosita — Cala-te lá com as receitas. Ouve-me esta que aqui está: "Bifes de avestruz com sultanas de Málaga e… (Lendo "cherez" e "cserez") Xerez ou… Xerez.
Paula — É um vinho.
Rosita — E lombo entrançado de borrego? Onde é que tu arranjas isso. No mesmo sítio que vende os coriandros e os cajus curtidos? Vocês já alguma vez fizeram uma destas receitas?
Nelinha — Já. E calhou ser no pior dia.
Rosita — Porquê?
Mitó —Lá está! Imaginem se eu fosse com essa página a um restaurante e lhes pedisse que me fizessem essa receita.
Rosita — Porque é que calhou ser no pior dia?
Nelinha — Digamos que tinha convidado uma pessoa a jantar e que a comida foi toda parar ao caixote do lixo.
Mitó — O que é vocês acham que acontecia se eu levasse esta receita ao restaurante do Serafim?
Paula — E puseste o convidado a comer do caixote do lixo?
Mitó — Acham que o Serafim fazia bijus recheados com amêndoas doces?
Rosita — Cá para mim puseste a comida toda para o lixo porque nem perderam tempo a comê-la. Aquilo deve ter sido "Posso entrar?" e, cinco minutos depois, "Foi bom para ti?"
Mitó — O que é que são Lentriscas?
Paula — Deves ter passado mais tempo a ler os conselhos "Melhore a sua vida sexual" do que a receita.
Mitó — O que é que são Lentriscas?
Rosita — Lentilhas!
Mitó — Não, não. Lentriscas. Achas que é gralha?
Nelinha — Não me admirava nada.
Paula — (Depois de ter encontrado um caixote deixado pela Rosita) Quem é que fechou isto ontem?
Rosita e
Mito — Foi a Nelinha.
Nelinha — (Ao mesmo tempo que as outras duas) Fui eu.
Paula — Bom… pelo menos já se sabe. Mas… o que é que se passa contigo filha? Tu deixaste isto aqui?
Nelinha — Eu não. Deve ter sido o fornecedor que o deixou.
Paula — Mas então… Não fechaste isto ontem?
Nelinha — Fechei. Fechei como fecho todos os dias. Achas que o pessoal por aí não sabe já que a porta fecha mal?
Mitó — Punhas o secador de cabelo contra a porta, como eu faço, e saías pelos fundos.
Nelinha — Pára de me dar conselhos estúpidos!
Mitó — Eh lá! Tu havias de ir para aqueles S.P.As (lê como sigla) que aconselham na (Nome de revista feminina)  deste mês. Leram?
Rosita — É Spas!
Mitó — O que é que é spas?
Rosita — É Spas que se diz e não S.P.As.
Mitó — E não é a mesma coisa?  Não dá para descansar é?
Nelinha — E eu lá preciso de descanso. Precisava era de ganhar mais dinheiro.
Paula — Olha.  Isso é coisa que não vem na (nome da revista anterior) deste mês.
Rosita — Nem deste mês nem de nenhum mês. Ainda estou para ver nessas revistas conselhos do género "Aprenda a aumentar o seu ordenado" ou "Ganhe mais dinheiro ficando bela e elegante".
Paula — O que elas aconselham é coisas para nos tirar mais dinheiro. Isso é que é.
Mitó — Bem… mas enquanto uma mulher se preocupa com a sua beleza e aspecto esquece um pouco da vida em que está enfiada. Não é verdade?
Paula — Isso é muito profundo… sobretudo vindo de ti.
Mitó — Ah. Obrigado.  (Tempo) Ainda não vos contei uma que me aconteceu no outro dia…
Rosita — Conta lá então.
Mitó — Sabem… fui ao médico na… quinta-feira passada.
Nelinha — Ao Bernardo?!
Mitó — Sim, imagina!
Paula — Ai imagino, imagino.  E depois?
Mitó — Estava eu na sala de espera… sozinha…
Rosita — Sozinha?
Mitó — Bom… estava lá a assistente dele.
Nelinha — A mal encarada?
Mitó — Não.  A vesga.
Rosita — Ela ainda usa aqueles óculos horríveis?
Mitó — Esquece isso.  O que interessa é que eu estava lá… na sala de espera… sozinha… a ler umas revistas…
Paula— E…?
Mitó — Olho para cima da mesa das revistas e, no meio delas… o que é que eu vejo?
Nelinha — O quê?
Mitó — Uma revista da (nome de revista masculina com nus)!
Nelinha — Oh!
Paula — E depois?
Mitó — E depois? Vocês já alguma vez viram uma revista da (mesmo nome de revista masculina com nus) num consultório médico?
Rosita — Bem… Também… não há assim uma norma.
Mitó — Uma norma?!
Rosita — Sim… existe alguma regra… alguma lei ou norma sobre o tipo de revistas que os médicos devem ter no seu consultório?
Nelinha — Já vi médicos que até têm a Ana Mais Atrevida.
Mitó — Não é a mesma coisa!
Paula — E o que é que a (mesmo nome de revista masculina com nus) tem de mau?
Mitó — Já a leste?
Paula — Não mas… enfim… já folheei… Não tem nada de mais.
Nelinha — Mas é de admirar que um médico tenha esse tipo de revista…
Rosita — Enfim… ele é ginecologista.
Mitó — E a (mesmo nome de revista masculina com nus) é um revista técnica para ele?
Rosita — Não… mas ele deve olhar para aquilo como… sei lá… como um mecânico a olhar para um carro.
Paula — Achas que um mecânico a ler a (nome de revista especializada em carros) não cobiça nenhum carro que lá esteja… não tem vontade de sentar o cuzinho naquelas máquinas?(Tempo)
Paula — Eu não vejo as coisas assim.  Eu, quando vejo um homem a ler a (mesmo nome de revista masculina com nus) faz-me a mesma impressão que ao ver um outro a ler a (nome de revista com temas de viagens ou destinos) ou (nome de revista com temas de geografia).
Mitó — Achas que é o mesmo?
Paula — Eu acho.  No fundo estão a olhar para sítios onde nunca estiveram e alguns deles nunca estarão.(Risos de todas)
Rosita — Essa é boa!
Mitó — Enfim… (Folheando uma revista) Alguma de vocês trouxe a (nome de revista feminina de grande tiragem com correio sentimental) desta semana?
Paula — Porquê? Estás com vontade de ler o correio sentimental?
Mitó — E depois? Qual é problema? Achas que quem compra a (mesmo nome que o anterior) não vai logo a correr ver o que lá está escrito?
Rosita — Pois é.  Vocês acham que é para se rirem, ou é por causa do mesmo instinto que nos leva a parar junto de um acidente na estrada?
Mitó — Vocês podem não acreditar, mas muita coisa do que lá está são dúvidas verdadeiras. Há mesmo pessoas que têm aquelas dúvidas. Sabiam?
Paula — Por favor… Olha que eu já li a daquela que estava aflita porque tinha dormido com as cuecas do namorado e não sabia se estava grávida por causa disso.
Rosita — Essa é quase anedota. Mas pior é haver ainda mulheres que perguntam se podem lavar a cabeça quando estão com o período.
Paula — Ou bater claras em castelo.
Mitó — Não podem bater claras quando estão com o período?
Rosita — Isso é código.
Mitó — É código?
Rosita — Estou mesmo a imaginar aqui há uns tempos atrás a mulher para o marido: "Posso estar com o período mas não te bato as natas"!
Paula — Ena que porca!
Mitó — Ai que horror.
Nelinha — Boa.
Paula —  Enfim… Por vezes penso que estes tipos ou tipas nem lêem aquilo que escrevem.
Mitó — Têm que ler. Não é?
Paula —  Está bem… mas não ligam aquilo que escrevem.  E mais ninguém se importa. Publicam toda a porcaria.
Nelinha — É verdade… não há ninguém a controlar estas coisas?
Rosita — Que coisas?
Nelinha — Estes artigos… estes conselhos… estas rubricas… quem é que  controla isto tudo?
Paula —  Eu acho que têm gente a controlar, mas depende da revista.
Rosita  — Aquele correio e conselhos da Maria não teve ter ninguém a controlá-lo. Ou então é tudo gente estúpida.
Paula —  Lá está! Depende da revista. De certeza que isso, noutra revista não passava.
Nelinha — E deixam passar nessa porquê?
Paula —  Não sei… são estilos… tendências… na verdade não sei.
Rosita  — Eu imagino uma coisa assim: um tipo ou uma tipa qualquer escreve uma rubrica ou um texto… certo? Depois mostra-o ao chefe ou à chefe? Não acham? Eles depois dizem se está bem ou não e publica-se.
Nelinha — E quem é que diz ao chefe ou à chefe se ele pode deixar publicar  essas coisas.
Paula —  Eu acho que ninguém diz. Por isso é que são chefes!
Nelinha — Mas deve haver alguém acima deles.
Rosita — Deve haver, mas ele não decide nada.
Nelinha — Então para que é que ele existe.
Rosita — No fundo é para… é para ser o responsável disso tudo.
Nelinha — Então é essa pessoa que é culpada.
Paula —  Desde quando é que o responsável é o culpado?
Nelinha — Como?
Paula —  Eu acho que a culpa é de quem está abaixo. O que está por cima é apenas o responsável e, portanto, não tem culpa nenhuma.
Rosita  — Tu andas a ler a (revista séria de actualidade) ou quê? Isso já é política a mais.
Mitó — Ou então andas a ler (Jornal desportivo) e o (outro jornal ou revista desportivos) às escondidas.
Paula —  Mas não acham que está certo? Como é que uma pessoa que não sabe o que se passa entre os seus subordinados pode ter culpa do que eles fazem?
Mitó — Isso é uma boa desculpa. O que é que essa pessoa faz o dia todo?  Não tem tempo para ler um pouco do que os seus… (pronúncia mal) subrodinados.. fazem? Isso é só desculpa.
Nelinha — Eu digo-vos uma coisa. Seu eu apanhasse o sacana que deixa  publicar certas merdinhas nestas revistas…
Rosita — Como é que sabes que é um homem?
Nelinha — Só pode ser.  Porquê?  Achas que uma mulher deixava passar  coisas destas:  (Lê um título sensacionalista ou absurdo sobre alguém que está na moda)?
Rosita — Não vejo porquê.  Mas eu também acho que é um homem.  É típico do nosso país os homens estarem nos lugares de chefia mais altos.  Quantas directoras de jornais ou revistas é que vocês conhecem.
Mitó — Deixem-me cá ver...Eu… na verdade nem conheço nenhum director.
Paula —  Mas sempre dá para ver pela ficha técnica!
Mitó — Pela ficha técnica?
Paula —  Olha aqui… deixa cá ver...(Procura numa revista  Olha! Ficha técnica!
Mitó — Tu ligas a cada coisa! Agora andas a ler as fichas técnicas?
Paula —  Bem… até que é engraçado. Foi uma vez que fui à casa de banho e só lá estavam algumas páginas da revista. Já tinha lido o resto… de modos que andei à procura de coisas novas e vi que havia uma ficha técnica.
Rosita — O que a gente aprende na casa de banho…(O José passa em segundo plano ou junto à loja)
Paula —  Mas digo-vos que… mesmo assim… deve haver alguém acima deste gajo.
Nelinha — E eu digo-vos que se apanhasse esse gajo…
Rosita — Claro! A gente vai convidá-lo para a tua festa de aniversário.
Mitó — Que é para a tua festa aparecer numa revista. Qual é que preferes?  (Nome de revista com assuntos da sociedade) ? (Outro nome de revista do mesmo tipo) ?
Nelinha — Eu acho que aparecia n' (nome de jornal ou revista especializado em casos de crime ou sensacionalistas).  Em letras grandes, na primeira  página.
Paula —  Isso é que é rancor filha. Ainda bem que somos amigas.
Nelinha — Não a sério! Se eu apanhasse o verdadeiro responsável por todas essas porcarias que publicam em revistas e jornais…
Paula — O que é que fazias? Matava-lo?
Nelinha — Talvez… Mas antes ele tinha que sofrer um bom bocado.
Mitó — O que é que fazias? O que era?
Nelinha — Não sei.
Paula — O que tu precisas é de um almoço avantajado. Ó meninas vamos fechar mais cedo para almoçar. Assim como assim não vem ninguém.(Começam a sair)
Quem é que fecha isto?
Mitó — Espera. Deixa-me ir mudar de roupa.
(Começam a arrumar a loja, a fechar as luzes, etc)
Rosita — Onde é que vamos almoçar?
Paula — Podíamos ir ao restaurante do Serafim. O que é que achas Nelinha?
Nelinha — Eh.
Rosita — E levamos a página da revista para ver se ele nos faz lombo entrançado de borrego?
Paula — Ó Mitó! Despacha-te!
Mitó — Esperem! Não fechem isto comigo cá dentro!
Rosita — Sim! Como se não soubesses sair daqui com a porta trancada...
Paula — Vá vamos!
(Mitó aparece com uma roupa muito parecida à que já trazia.)
Rosita — Estivemos à tua espera para isto?
Mitó — Vamos embora então? Quem é que fecha isto?
Rosita — Quem é que fechou isto ontem? (Olham para ela um tempo) Estava à brincar. Eu fecho.(Vai fechar as luzes, saindo por última pela porta)


Se leu até aqui tem de certeza vontade de saber mais. Contacte-me para saber o final: :-)
Gilberto Cardoso
Enviado por Gilberto Cardoso em 04/09/2007
Código do texto: T638505

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Sobre o autor
Gilberto Cardoso
Portugal, 48 anos
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