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Trânsito Muito Louco

 

            Leio que um terço dos motoristas do país não têm carteira, o que, em suma, esclarece muita coisa.

            Esclarece mas não explica a falta de educação.

 

            Dirigi por São Paulo e vi motoristas melhores que os goianos – perdoem meus conterrâneos, mas no quesito trânsito levamos de goleada, e seria de 8 ou 9 a zero.

            Fiquei encantado quando respeitavam minhas setas – aquela luz que pisca nas quinas dos veículos. Acho que tem gente que deve pensar que seta é enfeite de natal. Tenho uma parente que nunca usa:

 

            - E pra quê? Ela me pergunta atônita – ninguém respeita mesmo.

            Não posso lhe tirar a razão, mas um pensamento assim só piora o que já está ruim.

 

            Uma das minhas maiores dificuldades, creiam-me é sair de casa. Minha rua é estreita. Três veículos emparelhados não conseguem passar juntos. Com o crescimento do bairro, de onde brotam agora prédios de 20 a 30 andares, a rua virou um pandemônio. Resido em uma das últimas casas do setor. Tenho que sair de ré visto minha garagem desembocar em rampa. Quem disse que consigo? Por duas vezes quase fui atropelado por motocicletas – o diabo anda em duas rodas.

 

            Outra feita um engraçadinho, vendo que eu saía lentamente, acelerou para frear quase batendo no meu veículo. Foi um “show” proposital. Eu pergunto: o que o cara ganhou com isso? Fiquei olhando para ele tentando entender a lição gloriosa que tentou ministrar. Fiquei gelado e esperei que a raiva passasse. Não xinguei e nem fiz gesto algum. Lembrei-me que estava diante da minha casa e não sabia com que tipo de psicopata estava lidando. Deixei passar, mas perdi o humor por várias horas.

 

            Um dia o mal educado fui eu. A via é de mão única e, percebendo os veículos avançando a distância, acelerei e quase esmaguei uma velhinha de 80 anos – iria virar manchete de jornal:

 

            - Respeita o pedestre – ela gritou. Envergonhado, pedi mil desculpas e tive que esperar por algum tempo que o trânsito abrisse uma nova brecha.

             Tenho um recado para as mulheres: sejam gentis no trânsito. Muitas vezes um motorista em dificuldade não é um terrorista muçulmano é apenas isso: um motorista em dificuldade.

 

            Sei que minhas leitoras vão gritar: espera aí? Do que você está falando?

            Sinto muito minhas caras, mas de vez em quando um gentil cavalheiro me cede a vez, permite que eu passe à frente, faça uma manobra em estacionamento, avance sobre um cruzamento ou saia de uma enrascada. Nas rótulas, então, sempre tem uma boa alma a nos acudir, mas as mulheres levam muito a sério. Tantas vezes tive que desviar, recuar, mesmo quando a preferência era minha, para não ser atingido por uma ou outra “senhora” em ataque de nervos.

 

            Claro que de vez em quando isso também ocorre com homens, mas não me lembro de nenhuma mulher ter me cedido a vez no trânsito. Sou pela valorização do sexo feminino, mas é hora de vocês, minhas caras, mostrarem melhor educação. A par das estatísticas defenderem as mulheres como melhores motoristas, quero ver na rua, na prática.

 

            Mas o caos mesmo e o auge da desumanidade atingimos ao procurar vagas em estacionamentos. Minha memória, nessas ocasiões, mergulha no filme Tubarão. Todos aqueles carros rondando, silenciosos, traiçoeiramente em busca de uma vaga e, quando ela aparece: carnificina. Por várias vezes um “espertinho”, sendo a maioria “damas”, tomou uma vaga pela qual eu já aguardava. Esses indivíduos ignoram meus protestos e saem caminhando na maior paz do mundo. Por vezes tenho ímpetos de partir-lhes ao meio – e não é que alguém fez isso com uma “dama” não sei aonde?

 

            Vamos então nos esquecer de nossas brigas, rixas, e transformar o trânsito em um local mais humano? Humano não, por que o ser humano não anda com bom crédito. Vamos tornar o trânsito divino – e nessa hora recordo que Deus fulminou Sodoma e Gomorra. Melhor deixar como está...

Jurandir Araguaia
Enviado por Jurandir Araguaia em 18/09/2007
Código do texto: T657491
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Jurandir Araguaia
Goiânia - Goiás - Brasil
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Jurandir Araguaia