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NEGOCIO DA CHINA

                                                             Ronaldo José de Almeida

O reluzente BMW preto parou no estacionamento privativo do restaurante chinês. O elegante senhor, um rico empresário, tentou sair do carro e foi abordado pelo marginal de revolver em punho;
--Chegue pra lá, coroa. Vamos rápido, senão leva chumbo.
--Calma, rapaz. Fique calmo --disse o empresário.
--Que calma que nada, coroa. Passe o dinheiro.
--Ando com pouco dinheiro. Tome, tenho somente 300 reais. Uso mais o cartão.
--É desse jeito. Hoje em dia está difícil trabalhar. Ninguém carrega mais dinheiro. Mas tudo bem. Eu fico com a mixaria. Passe o relógio. Gostei deste "bobo".
--"Bobo". Eu? --Indagou o empresário.
--Não babaca. "Bobo" é o relógio que trabalha de graça --respondeu irritado o ladrão.
O empresário, sob a mira do revólver, tirou o relógio, um autêntico Rolex e timidamente entregou ao ladrão.
--Maneiro o seu relógio. Gostei. Vou levantar uma boa grana com ele. Valeu coroa. Você é sangue bom.
Quando o ladrão ia saindo o empresário disse:
--Seu ladrão. Por favor.
--Que foi, doutor?
--Você vai vender o relógio, não vai?
--Claro. Eu tenho todo o tempo do mundo. Só não tenho dinheiro. Ao contrário do senhor que tem dinheiro, mais não tem tempo. Quem é mais feliz?
O empresário ficou por algum tempo meditando sobre o que disse o marginal, em seguida falou:
--Por quanto irá vender o relógio?
--Olhe doutor. Acho que o "Pé de pato", um "aparador" lá da comunidade, paga uns cem reais por ele. É bem bonito o "bobo", impressiona as "minas".
--Seu ladrão. Eu lhe pago 150 reais pelo relógio.
--Qualé amizade, o senhor está sem dinheiro. Como vai me pagar, mano? Já levei sua mixaria.
--Se confiar em mim eu pago com cheque.
--Sem essa, doutor? Está me achando com cara de otário? Recebo seu cheque, e quando eu for descontar no banco, a repressão chega e me arrocha.
--Repressão?
--Sim, a polícia. Os " homis".
--Que isso, seu ladrão? Sou pessoa de bem. Sou homem honesto. Eu lhe dou minha palavra. Pode confiar -- disse indignado o empresário.
--Tudo bem. O senhor tem cara de honesto mesmo. Vou confiar na sua pessoa. Espero que não banque o "crocodilo" comigo.
--Fique tranqüilo, Seu ladrão. Tome o cheque.
--O senhor colocou o telefone e o endereço nas costa do cheque?
--Não é preciso. Tome o meu cartão, tem todos os meus dados.
--Beleza, chefia. Negócio bom é quando é bom para os dois lados. O senhor pagou um bom preço por uma mercadoria fina. Ficou satisfeito. Do meu lado, eu também fiquei, pois transei rápido. O dinheiro circulou. Fique com Deus. Abraços na família --disse o ladrão.
--Felicidade para você e sua família também, seu ladrão.
Alguns dias depois o celular do empresário tocou:
--Como vai, chefia?
--Ah! É você? Tudo bem, seu ladrão. Algum problema com o cheque?
--De maneira nenhuma, meu amigo. Pelo contrário, o senhor é gente fina mesmo. Fiquei tão satisfeito em fazer negócio contigo que estou lhe telefonando para lhe oferecer  uma pechincha.
--Pechincha?
--Sim, doutor. Fiz um trabalho ontem, e recebi um bobo igual aquele que lhe vendi.
O doutor interessa comprar?

FIM
RONALDO JOSÉ DE ALMEIDA
Enviado por RONALDO JOSÉ DE ALMEIDA em 27/09/2007
Reeditado em 18/12/2007
Código do texto: T670954

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Sobre o autor
RONALDO JOSÉ DE ALMEIDA
Montes Claros - Minas Gerais - Brasil
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RONALDO JOSÉ DE ALMEIDA