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Concurso do homem mais feio

               A moçada se assanhou quando o circo chegou na cidade.
               Cidade do interior tem pouca diversão: uma praça de Matriz onde o footing comia solto, um cinema fuleiro onde, se não fosse  bangbang italiano passava filmes de kung fu, brincadeiras dançantes aos sábados com as mesmas garotas de sempre, futebol de várzea, pescaria e só !
              Mas o circo chegou!
              Não era assim um circo famoso, tipo Stankovick, Di Roma e outros com superproduções luxuosas. Cirquinho mambembe, duas trapezistas já meio passadinhas, um apresentador com a cara do Márcio Grick fazendo papel de galã, mágico e mestre de cerimônias e o Embrulhão. Bem, pelo nome não é preciso dizer sua profissão!
              Circo Teatro Guacira,era o nome pomposo escrito em letras garrafais nas placas de propaganda tripezadas nas esquinas centrais!
              Duas vezes por ano na cidade. Restante do tempo nas redondezas.
              Nossa turma era grande. Zete, Marina, Lucinha, Mariana, Neusa, Drica e Lê de mulheres. Gardé, Zui, Clair, Santo, Carmo, Ico e eu de homens. Todos unidos para o que desse ou viesse. E com uma regra vital: não podia haver namoro entre nós! Namoro estraga a amizade, a gente tinha ouvido não sei onde nem ninguém sabia quem tinha dito tal frase mas seguíamos ao pé da letra.
              Assistimos alguns espetáculos normais esperando o concurso.
              A gente sabia que dia mais dia menos lançariam o famigerado “ A mulher mais bonita e o homem mais feio” Não existe circo furreca que não faça isso para atrair atenção e ganhar uma graninha a mais. Sem contar com a propaganda boca a boca que conta muito.E falar verdade, o povão adora esse tipo de competição. Sempre tem um feio que todos conhecem e uma vizinha bonita demais da conta.
             Duas semanas depois. . .
             A turma combinou de lançar a Marina como mulher mais bonita. Loira, olhos azuis, chamava a atenção e o mais importante: estava sem namorado para atrapalhar.
             O prêmio sempre o mesmo: um corte de tecido das Casas Pernambucanas.
             E para o homem mais feio um metro de lingüiça e um litro de cachaça da boa!
             Disputa justíssima no palitinho e eu ganhei(?) para representar a turma.
             - Trate de ganhar, hein?
             Na verdade eu não tinha certeza se queria levar o prêmio ou não. Tratei de responder monossilabicamente um sim, sem estender muito o assunto.
             As meninas perceberam meu desconsolo.
             - A gente sabe que você não é de jogar fora! Se não fosse da turma. . .
             Mas não convenceram, mesmo com a sugestão implícita que dariam bola pra mim se não fossem amigas.
             A tática era a seguinte: a gente cabalaria meio mundo pra aplaudir a Marina e eu. Valia tudo pela vitória.Palmas. Gritos. Bater no poleiro com força. Enfim, fazer a maior algazarra do mundo para encobrir possíveis concorrentes.
             Se existem regras em multidões, uma é infalível! É só uma turma agitar legal que todos entram no embalo. Contávamos com isso.
             A Marina ganhar de moça mais bonita foi barbada! Também pudera! As outras quatro eram um bando de feiosas que pelamordeDeus! E era bonitinha nossaamiga! Resta ver que mais uns anos casou-se com o Zé Rolinha, locutor da rádio e um autêntico ídolo da mulherada local. Hoje tem uma loja de bordados na Rua José Custódio.
             O problema era a eleição do mais feio.
               Circo lotado, gente saindo pelo ladrão, eu e um outro concorrente, que mais tarde descobri que se chamava Jonas, subimos no palco por livre e expontânea vontade. Os outros 3 foram caçados no laço!
               Aquela sacanagem de, de repente alguém falar um nome em voz alta e todo mundo ao redor concordar. Aí o sujeito sem outro jeito, mais chateado que noivo abandonado no altar, parecendo res indo para o matadouro, caminha para o palco.
               Resumindo: o único com fã-clube legítimo era eu. Seria até honroso, não fosse a causa imprópria
               Na primeira rodada de salva de palmas o Jonas foi pro saco.
               Na segunda, um carinha pego no laço e na seguinte também.
               Restaram eu e um baixotinho berruguento que não pegava ninguém de tão feio. A gente conhecia bem ele. Teve vez de puta recusar. E isso na ZONA! Estou falando isso para avaliarem o grau de feiúra do meu concorrente. Confesso que até poderia sentir pena dele, se o meu também não estivesse na reta.
               Foi quando senti o primeiro frio na barriga.
               Se venço aquela mistura de Charles Bronson com lobisomem, meu filme ia queimar com meio mundo. Ainda dei uma olhadinha de trevés conferindo se era pelo menos um pouco mais bonito que ele e na volta, novo gelo barrigal. O Gardé na platéia fazendo sinal de positivo pra mim.
                Sabem aquelas situações que a gente quer sumir no ar; aquele roncronc no estômago avisando que a coisa vai feder mais pra frente; aquele pensamento de” o que estou fazendo aqui, meu Deus”; aquele desejo de não ter levantado da cama de manhã; aquela vontade de mandar todo mundo pra putaquipariu? Pois é! Eu estava sentindo. E tudo ao mesmo tempo.
                 O Embrulhão pediu palmas para o trubufu de caroço.
                 O circo quase veio abaixo. Senti uma leve esperança que ainda não havia chegado meu fim.
                 Minha vez.
                 Tinha tido mais palmas que o Frankstein ou era só impressão minha?
                  Uma certeza eu tinha: minha turma além de gritar como uns desvairados devia ter batido como uns doidos nos poleiros e feito uma algazarra sem tamanho. Estavam malucos pra eu me ferrar só pra encherem o rabo de linguiça e cachaça.
                  Nova votação!
                  Empate técnico de novo.
                  “Quer saber duma coisa – pensei – o metro de lingüiça, o litro de pinga , a turma, eu quero que vá tudo pra casa do chapéu! Eu não vou passar por esse vexame!”
                  Que, modéstia a parte, eu não sou aquilo que as mulheres diriam” Mas que pedaço de homem!” Ou se estapeariam por minha causa. Mas, usando sinceridade também não sou uma mistura de Monstro do Pântano com lobo guará!Ou um mafaguifo de plantão!
                  Chamei o Embrulhão meio de lado e confidenciei que abandonava a competição.
                  Achei que isso resolveria a pendenga mas não é que o lazarento pegou o microfone e falou pra quem quisesse ouvir:
                  - Meu povo e minha pova, tenho uma revelação bombástica pra revelar para vocês!
                  O silêncio foi tão pesado que deu para ouvir uma bicicleta passando na rua em frente.
                  - Sabem o que acontece? Ah! Não sabem? O carinha aqui ( e me indicou com o dedo) se julga o bonitão do pedaço e quer desistir!  Mas aqui não tem disso de desistir não! De maneira alguma!
                  Gelei de novo! Agora a bosta ia feder de verdade!
                  - Se vocês acham que ele é muito bonito, muito galã( grifou o galã) para essa competição, batam palmas!
                  Ninguém! Olha a bicicleta voltando.
                  Nisso o feio me olhou de lado, me deu uma conferida dos pés a cabeça, como a dizer” vai me deixar nessa roubada sozinho, seu filhadaputa? Eu não sou o único feio nessa bosta não! Tu é feio também, ta pensando o quê?”e juro por Deus! Deu a impressão que até cresceu uns dez centímetros.
                  - Bem! – continuou o palhaço filhadaputa:- Mas se vocês acham que ele deve ganhar o prêmio de homem mais feio dessa cidade, batam palmas agora! E com fé e vontade!
                  Voces podem não acreditar. . . mas eu juro por todos os santos que existem no céu, nunca vi salva de palmas mais forte, mais estrondosa, mais desgracenta que aquela!
                   Mais tarde comemos a lingüiça com cachaça. A turma rindo que só eles, eu meio amargurado por dentro. Uma vontade de morrer.
                   E fiquei mais de ano sem pegar umazinha, uma só mulher que fosse.
                  Algumas até se entusiasmavam com meu papo-cabeça mas era só descobrirem que eu tinha ganho o maledeto concurso davam no pé. Lá eram doidas de namorar o cara mais feio da cidade?
                  A coisa só melhorou quando no meio do ano seguinte outra besta ganhou o concurso e a urucubaca passou para ele.
Nickinho
Enviado por Nickinho em 04/10/2007
Reeditado em 04/10/2007
Código do texto: T680553
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Sobre o autor
Nickinho
Ibitinga - São Paulo - Brasil, 63 anos
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