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MISSA É BOM! MAS TEM HORA!



“- Meu bem. Neste fim de semana prolongado não irei vê-la pois combinei acampar com alguns amigos. Mas terça-feira já estarei de volta”.

“- Quantos são? Vai mulher?”

“- Acho que uma dúzia. Gente alegre e divertida. De ambos os sexos”.

“- Posso ir?”.

“- Não sei... Acho que sim... Lugar tem. Mas acho que você não vai gostar”.

“- Por que não?”.

“- É que vamos acampar numa praia selvagem. Não existe qualquer tipo de conforto. Nem comida pronta. Até a água será difícil”.

“- Prefiro acompanhá-lo do que ficar sozinha”.

“- Tudo bem. Sairemos amanhã as oito da noite da casa do Lineu. Estarei a esperá-la”.

Conseguimos sair às dez. Éramos quatorze em três carros que puxavam duas carretas carregadas de tralhas. Ela ao meu lado permaneceu quieta toda viagem que se arrastou até o dia seguinte ao meio dia.

A praia eleita era extensa e descampada, um sol intensíssimo e areia a pegar fogo a impedir que se andasse descalço nela.

As barracas foram rapidamente montadas. Todos ao mar para um banho curto, que a fome era de doer os estômagos.

Em poucos minutos alguém fez uma enorme salada de alface com tomates, uma grande macarronada ao molho de atum e uma montanha de abacaxi picado de sobremesa.

Nada a acrescentar a esta divina combinação!

Seguiu-se um descanso digestivo e reparador.

“- Pedro. Preciso ir à cidade. Encontrar, com urgência uma farmácia”.

“- Meu bem. A cidade está muito longe. Mas tenho um estojo médico de emergência com quase tudo que é remédio. O que é que você precisa?”

“- Você não tem. Só mulher usa. Esta viagem mexeu comigo. E antecipou o que deveria acontecer só na próxima semana”.

“- Calma. São muitas as moças que nos acompanham. Já vou saber se qualquer delas veio prevenida”.

Não tive sorte. Fui forçado a rolar vinte e sete quilômetros para ir e outros tantos para voltar até a cidade mais próxima. No escuro e em estrada de terra.

“- Obrigada. Amo você. Mas só agora que chegamos é que percebi que estou com uma fome maluca. Será que sobrou alguma coisa para comer?”

“-Vou ver e já volto”.

Trouxe dois pratos de peixada com arroz e pirão.

Enquanto comia o que me coubera percebi que ela mal tocara no seu prato. E já o encostara.

“- O que houve? Não está bom?”

“- Desculpe. Mas esse peixe está com gosto muito forte. E também não aprecio comida morna”.

Não perdi tempo tentando argumentar.

Lá fora corria solto o samba dos meus companheiros. Que só terminou as duas da madrugada.

Paciência! Estava bem cansado e preferia dormir.

Acordei com seus carinhos.

“- Pedro. Não quero ser chata. Mas hoje é domingo. E preciso perdir-lhe um grande favor. Não posso deixar de ir à missa. Não se apavore. Não precisa ser já. Pode ser a qualquer hora. A última começa as seis da tarde”.

“- Meu amor! Brincadeira tem hora. A cidade, como você sabe, está muito longe. E acabamos de ir e voltar até ela”.

“- Não posso deixar de ir. Nunca faltei à missa em dia de domingo”.

Nessa hora gritaram meu nome.

“- Pedro. Hoje a cozinha é sua. E da Lúcia. Não vá esquecer. Ela já esta lá esperando”.

Levantei, que já era tarde e fui preparar o almoço.

Todos puderam degustar uma gigantesca salada de tomates com palmito. Seguiu-se uma montanha de filés fritos de um peixe de nome desconhecido que havíamos comprado ali mesmo de um caiçara, batatas salteadas na manteiga e, de sobremesa, pêssegos em calda, puros, sem mais nada, que não precisava.

Estômago calçado resolvi investir.

“- Meu amor. Desculpe perguntar. Mas quem tem fé reza em qualquer lugar! Você tem certeza que precisa ir até a igreja?”

“- Tenho. Não posso deixar de ir”.

“- Meu bem. Perdoe a ignorância. Mas se você estivesse hospitalizada. E sem condições de se movimentar. O que faria?”

“- Nessa situação as coisas seriam diferentes. Mas não é o caso. Não estou de cama. Nem entrevada. Posso e devo ir à missa”.

“- Meu bem. Eu gosto muito de você. E nunca foi minha intenção contraria-la. Mas tirei esses poucos dias para ficar em paz. E vou fazer isso. Pode ir com o meu carro. A chave está no contato”.

“- Você precisa levar-me. Não conheço este lugar e não tenho condições de enfrentar sozinha essa estrada de terra”.

“- Então, perdoe-me, mas não deveria ter vindo”.

Ela não foi. E permaneceu emburrada os dois dias que se seguiram.

Na volta permaneceu quieta.

Melhor. Ambos pudemos desfrutar de boa música.

Deixei-a em casa. Sem esquecer de sugerir-lhe que melhor seria encontrar um parceiro diferente, ligado a cultos litúrgicos.

Porque um desligado campista, bebedor inveterado de cerveja, não era o par indicado para entender seus anseios ecumênicos.

E praia, como sempre soube, nunca combinou com igreja.

Só com candomblé. Que faz tudo o que tem que fazer ali mesmo. Na areia! Sem perturbar ninguem!


De novo dedicado a V.A.
Tagobar
Enviado por Tagobar em 07/11/2005
Código do texto: T68563

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