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O HÓSPEDE

                                                        Ronaldo José de Almeida

Aborrecido com o término do romance com a bela mulata Iracema, Angelino, que sempre fora uma pessoa comedida, passou a afogar suas mágoas nos copos dos botecos e bares da cidade.
Sempre ladeado pelos dois fiéis escudeiros, Wilson Mocó e Jurandir Seboso, o rapaz que se tornara um autentico notívago, vagueava pela noite fazendo verdadeira via-sacra pelos botequins, até o raiar do sol.
Certa noite os três amigos estavam bebendo no bar do Tião, quando Mocó disse:
--- Na casa da Leobina chegaram umas meninas, vamos lá?
Angelino concordou e os três direcionaram-se para o bordel.
No lupanar, a alegria era geral, mulheres lindíssimas desfilavam pelo salão com roupas curtíssimas e coloridas, atraindo os homens.
Angelino assim que chegou, teve sua atenção voltada para uma linda morena que contava dezoito anos, muito risonha, de um amorenado sombrio, cabelos muito negros, com os seus olhinhos irrequietos, luminosos e de corpo escultural.
O rapaz acenou, convidando a garota para sua mesa, ela  que já o tinha notado, sorriu e aceitou.
---Qual o seu nome morena? –-indagou Angelino.
---Meu nome é Rúbia, mas podem me chamar de Rubinha, respondeu a garota fazendo um trejeito faceiro.
Os dois amigos notaram a sobra e saíram em outra direção, deixando o casal mais a vontade.
Angelino passou a noite com a morena, por quem se enamorou perdidamente. No dia seguinte levantou-se quase na hora do almoço,  tomou um longo banho e na companhia de Rubinha foi para o salão almoçar.
A dona do bordel, não se sabe como, já tinha todas as informações sobre o rapaz, portanto sabia da sua boa situação financeira e assim fazia bons olhos da sua permanência na casa.
Angelino falou do seu interesse pela Rubinha e assim queria o melhor quarto da casa para eles, uma vez que pretendia ficar  hospedado ali por  um bom tempo.
A cafetina estranhou a proposta de estadia do rapaz, fato que nunca tinha acontecido no seu estabelecimento, no entanto concordou uma vez que enxergou a oportunidade de ganhar um bom dinheiro.
E assim Angelino mudou-se de mala e cuia para o bordel.
A noite o rapaz adentrava ao salão, vestido com um terno impecável, lencinho de três pontas no bolso ao alto do paletó e de braços dados com a baiana Rubinha.
Acomodavam-se na sua mesa cativa, onde eram atendidos com presteza e respeito. Permaneciam no salão por um bom tempo, depois recolhiam-se ao aconchego do quarto.
Os dias passaram-se e o romance do casal ia de vento em popa, Angelino era pessoa respeitada e querida no local, as meninas da casa socorriam-se com ele sempre que necessitadas.
Vários amigos do rapaz, sabendo da sua nova moradia, iam ter com ele na vã tentativa de dissuadi-lo da atitude extrema que havia tomado, porém eram rechaçados com elegância. Por outro lado ficavam tranquilos diante da felicidade que Angelino irradiava.
Dona Emereciana, a mãe do rapaz, era uma pessoa muito religiosa, fazia parte da congregação das filhas de Maria, e assim por ser muito ligada ao padre Rocha, pediu sua interferência no sentido de demover Angelino desta sua nova vida:
--- Vou tentar dona Emereciana, contudo não prometo nada, a senhora arranje o número do telefone deste lugar, assim eu ligarei para ele.
Rapidamente a mãe do rapaz conseguiu o número do telefone do bordel e o padre ligou.  Com autoridade mandou chamá-lo:
--- Pois não, é o Angelino.
--- Angelino meu filho, é o padre Rocha, o que você está fazendo com sua vida?
--- Padre Rocha! Que surpresa, no mínimo foi a minha mãe que pediu para o senhor me ligar, no entanto fique sossegado e pode tranquilizá-la, que eu nunca estive tão bem. Se o senhor quiser venha verificar.
---Você me respeite, eu nunca irei na casa do diabo, mas se você quer ficar na companhia dele, o problema é seu, passe muito bem --- disse o padre nervoso.
--- Olhe dona Emereciana, não deu certo, tente o bispo, quem sabe?
--- Mas padre Rocha, o Angelino foi da cruzada eucarística, não pode ter mudado tanto.
--- Lúcifer também foi anjo do senhor, no entanto...
--- É mesmo, hoje  Lúcifer deve ser o porteiro desse bordel e quer levar meu filho. Vou fazer uma novena, ele me paga.
Certa manhã, Angelino levantou-se mais cedo e dirigiu-se ao salão para tomar café, não quis esperar o desjejum no quarto, como era o costume.
Ao chegar no salão deparou-se com dois homens totalmente nus, tomando café alegremente em companhia de duas garotas. O rapaz ficou olhando a pequena distância de onde se via as bundas brancas dos homens e acompanhantes, os quais falavam alto e davam sonoras gargalhadas.
Eram homens conhecidos no meio comercial da cidade, ambos casados e com destaque na sociedade local.
Angelino ao ver aquela cena, sentiu-se indignado e sem dizer uma só palavra voltou ao seu quarto, apanhou as roupas, objetos pessoais e colocou na mala. O barulho e os impropérios que dizia enquanto arrumava a mala, acordaram Rubinha que não entendia o que estava acontecendo:
--- O que foi amor? O que aconteceu?
--- Um absurdo Rubinha!  Você imagina que têm dois sujeitos totalmente nus tomando café no salão! -– Uma falta de respeito, aqui não é lugar para pessoas como nós, eu é que não fico hospedado num lugar libertino e devasso como este! Onde estão a moral e os bons costumes?   ---Em que mundo estamos vivendo?








O HÓSPEDE
Ronaldo José de Almeida

Aborrecido com o término do romance com a bela mulata Iracema, Angelino, que sempre fora uma pessoa comedida, passou a afogar suas mágoas nos copos dos botecos e bares da cidade.
Sempre ladeado pelos dois fiéis escudeiros, Wilson Mocó e Jurandir Seboso, o rapaz que se tornara um autentico notívago, vagueava pela noite fazendo verdadeira via-sacra pelos botequins, até o raiar do sol.
Certa noite os três amigos estavam bebendo no bar do Tião, quando Mocó disse:
--- Na casa da Leobina chegaram umas meninas, vamos lá?
Angelino concordou e os três direcionaram-se para o bordel.
No lupanar, a alegria era geral, mulheres lindíssimas desfilavam pelo salão com roupas curtíssimas e coloridas, atraindo os homens.
Angelino assim que chegou, teve sua atenção voltada para uma linda morena que contava dezoito anos, muito risonha, de um amorenado sombrio, cabelos muito negros, com os seus olhinhos irrequietos, luminosos e de corpo escultural.
O rapaz acenou, convidando a garota para sua mesa, ela  que já o tinha notado, sorriu e aceitou.
---Qual o seu nome morena? –-indagou Angelino.
---Meu nome é Rúbia, mas podem me chamar de Rubinha, respondeu a garota fazendo um trejeito faceiro.
Os dois amigos notaram a sobra e saíram em outra direção, deixando o casal mais a vontade.
Angelino passou a noite com a morena, por quem se enamorou perdidamente. No dia seguinte levantou-se quase na hora do almoço,  tomou um longo banho e na companhia de Rubinha foi para o salão almoçar.
A dona do bordel, não se sabe como, já tinha todas as informações sobre o rapaz, portanto sabia da sua boa situação financeira e assim fazia bons olhos da sua permanência na casa.
Angelino falou do seu interesse pela Rubinha e assim queria o melhor quarto da casa para eles, uma vez que pretendia ficar  hospedado ali por  um bom tempo.
A cafetina estranhou a proposta de estadia do rapaz, fato que nunca tinha acontecido no seu estabelecimento, no entanto concordou uma vez que enxergou a oportunidade de ganhar um bom dinheiro.
E assim Angelino mudou-se de mala e cuia para o bordel.
A noite o rapaz adentrava ao salão, vestido com um terno impecável, lencinho de três pontas no bolso ao alto do paletó e de braços dados com a baiana Rubinha.
Acomodavam-se na sua mesa cativa, onde eram atendidos com presteza e respeito. Permaneciam no salão por um bom tempo, depois recolhiam-se ao aconchego do quarto.
Os dias passaram-se e o romance do casal ia de vento em popa, Angelino era pessoa respeitada e querida no local, as meninas da casa socorriam-se com ele sempre que necessitadas.
Vários amigos do rapaz, sabendo da sua nova moradia, iam ter com ele na vã tentativa de dissuadi-lo da atitude extrema que havia tomado, porém eram rechaçados com elegância. Por outro lado ficavam tranquilos diante da felicidade que Angelino irradiava.
Dona Emereciana, a mãe do rapaz, era uma pessoa muito religiosa, fazia parte da congregação das filhas de Maria, e assim por ser muito ligada ao padre Rocha, pediu sua interferência no sentido de demover Angelino desta sua nova vida:
--- Vou tentar dona Emereciana, contudo não prometo nada, a senhora arranje o número do telefone deste lugar, assim eu ligarei para ele.
Rapidamente a mãe do rapaz conseguiu o número do telefone do bordel e o padre ligou.  Com autoridade mandou chamá-lo:
--- Pois não, é o Angelino.
--- Angelino meu filho, é o padre Rocha, o que você está fazendo com sua vida?
--- Padre Rocha! Que surpresa, no mínimo foi a minha mãe que pediu para o senhor me ligar, no entanto fique sossegado e pode tranquilizá-la, que eu nunca estive tão bem. Se o senhor quiser venha verificar.
---Você me respeite, eu nunca irei na casa do diabo, mas se você quer ficar na companhia dele, o problema é seu, passe muito bem --- disse o padre nervoso.
--- Olhe dona Emereciana, não deu certo, tente o bispo, quem sabe?
--- Mas padre Rocha, o Angelino foi da cruzada eucarística, não pode ter mudado tanto.
--- Lúcifer também foi anjo do senhor, no entanto...
--- É mesmo, hoje  Lúcifer deve ser o porteiro desse bordel e quer levar meu filho. Vou fazer uma novena, ele me paga.
Certa manhã, Angelino levantou-se mais cedo e dirigiu-se ao salão para tomar café, não quis esperar o desjejum no quarto, como era o costume.
Ao chegar no salão deparou-se com dois homens totalmente nus, tomando café alegremente em companhia de duas garotas. O rapaz ficou olhando a pequena distância de onde se via as bundas brancas dos homens e acompanhantes, os quais falavam alto e davam sonoras gargalhadas.
Eram homens conhecidos no meio comercial da cidade, ambos casados e com destaque na sociedade local.
Angelino ao ver aquela cena, sentiu-se indignado e sem dizer uma só palavra voltou ao seu quarto, apanhou as roupas, objetos pessoais e colocou na mala. O barulho e os impropérios que dizia enquanto arrumava a mala, acordaram Rubinha que não entendia o que estava acontecendo:
--- O que foi amor? O que aconteceu?
--- Um absurdo Rubinha!  Você imagina que têm dois sujeitos totalmente nus tomando café no salão! -– Uma falta de respeito, aqui não é lugar para pessoas como nós, eu é que não fico hospedado num lugar libertino e devasso como este! Onde estão a moral e os bons costumes?   ---Em que mundo estamos vivendo?




















RONALDO JOSÉ DE ALMEIDA
Enviado por RONALDO JOSÉ DE ALMEIDA em 10/10/2007
Reeditado em 18/12/2007
Código do texto: T687988

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Sobre o autor
RONALDO JOSÉ DE ALMEIDA
Montes Claros - Minas Gerais - Brasil
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RONALDO JOSÉ DE ALMEIDA