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A GRAVATA DO MORTO

Algumas amizades são eternas, embora admitam às vezes um pequeno estremecimento. Era o caso das duas velhotas, viúvas, conhecidas como “pão-de-ló de velório”. Não fosse o medo de divulgar uma calúnia, diria até que seu único divertimento eram as noites passadas ao pé do caixão de algum infeliz, o rosto compungido, as vestes pretas sempre de prontidão, no aguardo de qualquer notícia infausta. O pessoal da cidadezinha até já se acostumara: falecia alguém, iam imediatamente avisá-las, como se fossem elas parentes dos finados.
     - Sabem quem morreu? – e observavam a expressão alvoroçada das duas, como quem aguarda o disparar de uma bela fofoca.
     - Conta, conta!  Não me diz que foi o velho Claudomir, que estava nas últimas?
     - Não, esse ainda continua de molho. Foi alguém mais jovem. Uma mulher.
E esfregavam as mãos, animadas com o jogo de adivinhação:
     - Uma mulher? A sogra do Lelinho Costa!
     - Tá esquentando! Tá esquentando!
Após os atos fúnebres, costumavam voltar pra casa caminhando, cochichando, juntinhas, de braços dados. Fossem irmãs, não se entenderiam tão bem. Não faltava munição para as conversas: os motivos ou a veracidade das lágrimas vertidas pelos parentes; a pouca-vergonha das jovens de vestido acima dos joelhos. Ou a ausência dos fulanos tão-amigos-do-falecido.
Foi numa dessas que aconteceu o entrevero entre elas. No enterro do ex-vereador Elesbão. Após se esgotarem os assuntos costumeiros, uma delas voltou as armas de grosso calibre para o defunto:
     - Você notou a gravata que colocaram no coitado?  Uma aberração! Que ridículo desenho azul.
     - Azul não, você está enganada. Tenho certeza de que era verde.
     - Estou lhe dizendo: azul. Naquela hora eu pensei comigo: no lugar para onde vai, a única coisa azul que vai ver é a ponta da gravata. E olhe lá, hein? Se o fogo não queimar.
A outra armou um gesto de impaciência:
     - Isso pode ser, não discuto. Mas a gravata era verde. Verdinha da silva. Me lembro bem...quando apareceu a sirigaita da esquina, com esmalte verde, as garras arreganhadas feito caranguejo, fiquei chocada com a coincidência. Seria para combinar com a bendita gravata? E olha que a desinfeliz deixou escorrer umas lagrimazinhas, bem que eu notei.
A primeira, de nome Judite, bateu o pé; de sua certeza não arredava:
     - Olhe, Olívia (mastigava bem as palavras com as gengivas lisas), o homem foi enterrado de gravata azul. Eu vi! Minha vista ainda está boa. Todo mundo viu que a gravata era azul.
     - E a senhora quer dizer que eu também não vi? – quando se tratavam por senhora o negócio não ia bem. Está me chamando de ceguinha? A bendita da gravata era tão verde quanto a sua cara bexigosa.
     - Ora, quem é que está falando!  A senhora, uma velha ridícula dessas! Que só vai a enterro pra ver mais uma morte que não quis lhe agarrar.
A outra já esgrimia no ar as unhas curvadas:
     - E a senhora? Sua velha sovina, que já matou dois maridos e quer ver se Deus lhe perdoa!
Pararam no meio da rua enlameada e, se alguns cidadãos não viessem acalmá-las, iam chegar realmente às vias de fato.
Voltaram para casa com a amizade provisoriamente cortada. Claro, não iriam suportar a falta de companhia nas horas frias diante de algum caixão, do braço amigo pra se apoiar na subida do morro do cemitério. No próximo velório voltariam às boas. De todo jeito, acabaram esquecendo do falecido Elesbão, o ex-vereador, passivamente enfiado no seu terno preto e na sua gravata de horroroso desenho cinzento...
Hilton Gorresen
Enviado por Hilton Gorresen em 15/10/2007
Código do texto: T695844

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Sobre o autor
Hilton Gorresen
Joinville - Santa Catarina - Brasil
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