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AS SEMENTES DA MAÇÃ

- Vovó, você me dá uma maçã!
- Dou sim, meu menino.
A vovó pegou a maçã, lavou-a muito bem, partiu a fruta em duas partes e começou a tirar as sementes. O netinho, muito atento, perguntou:
- Por que as frutas têm caroços, vovó?
- Os caroços são sementes, este é o nome correto, mas pode chamar de caroços. Como eu ia dizendo, os caroços são a garantia de continuidade das árvores frutíferas ou não. Assim: eu pego este carocinho, abro um buraquinho na terra, ponho ele lá dentro, jogo terra por cima e vou regando com água fresca.  Passado um tempo brotará um novo pé de maçã, uma nova macieira, e com isso a garantia de não faltar a fruta pra ninguém. Você entendeu?
- Sim, vovó. – respondeu o menino dando uma mordida na maçã.
- É assim com qualquer fruta? – perguntou ele.
- Não meu filho. Nem todas as frutas têm caroço, mas essas, antes de ficarem velhas, produzem uma muda, ou seja, uma árvore pequenina para ser plantada em outro lugar e dar origem a uma grande carregada de frutos.
- A senhora conhece alguma fruta que não tem caroço?
- Conheço, sim! O abacaxi, a banana, o coco... – e foi interrompida pelo menino.
- Vovó, já pensou se acabassem todas as frutas! Coitado do macaco, não teria banana pra ele comer.
- E nem pra nós, né meu queridinho! – exclamou a vovó ajeitando os óculos no nariz.
- Sabe, meu filho, esta nossa conversa me fez lembrar do tempo de Jesus quando ele esteve entre nós.
O menino pôs os cotovelos sobre a mesa, com as mãos segurando o queixo para ouvir atentamente a história. E a vovó começou:
- Jesus caminhava muito pelas estradas, pelos montes e cidades. Foi num dia de muito calor, quando ele estava no monte, que aconteceu um fato interessante. Ele andava sempre acompanhado de seus discípulos, preparando-os para seguirem os seus passos. Lá pelo meio-dia, Jesus foi descansar à sombra de uma oliveira e os discípulos trouxeram o almoço para ele. Eram frutos, pão, mel e a água fresca que brotava da terra. Todos comiam silenciosamente. Não se ouvia um barulhinho. Os pássaros ficavam por ali, rodeando. Sabiam que o mestre estenderia a mão com pedaços de pão convidando-os: - Venham!  E eles se apressavam, pousavam no braço de Jesus para comer as migalhas. O vento balançava os cabelos do mestre que, concentrado, tirava os caroços das frutas e os guardava no bolso da sua túnica. Depois de dormir um pouco, ele se levantou e começou a jogar as sementes, que tinha no bolso, em várias direções. Pedro, um dos apóstolos, perguntou:
- Mestre, por que jogas as sementes em várias direções, se podes deixá-las aí no chão aos teus pés?
- Pedro, se eu deixar as sementes aqui, não poderei repartir o alimento com bichos e homens. As árvores nasceriam somente neste espaço. Alguns teriam comida, e os outros? Por isso espalho pra todos os lados, porque comer é um direito de todos. Devemos repor o que tiramos da terra, plantar onde não existem frutos, grãos, ervas e tudo que possa saciar a fome. Eu te digo, Pedro, se arrancares uma árvore, planta três vezes três. Deixa atrás de ti uma floresta de ações em benefício dos que virão.
O menino estava com olhar fixo no espaço, talvez imaginando Jesus com a mão cheia de sementes jogando no ar. O vento levando muitas delas, os pássaros comendo algumas para depois depositá-las, com auxílio das fezes, em pontos de difícil acesso. A vovó olhava para o netinho enternecida. Pegou a mãozinha dele e cantarolou sorrindo:
- Ta na hora de acordar... acorda menino!
- Vovó, que história linda. Acho que vou fazer o mesmo com estes caroços que você tirou da minha maçã, com os caroços da laranja e...o caroção do abacate não dá pra jogar assim do jeito de Jesus. Esse eu vou plantar na praça aí em frente.
- É isso, meu menino, siga sempre os exemplos do mestre.

20/05/06.
Maria Hilda de Jesus Alão
Enviado por Maria Hilda de Jesus Alão em 20/05/2006
Reeditado em 21/04/2011
Código do texto: T159542

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Sobre a autora
Maria Hilda de Jesus Alão
Santos - São Paulo - Brasil
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Maria Hilda de Jesus Alão