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O CANÁRIO DA AROEIRA

O CANÁRIO DA AROEIRA

Welington Almeida Pinto
 
ESPORTE FAVORITO de menino criado no interior era pegar canarinho com alçapão de imbaúba. Não havia diversão melhor do que caçar no mato um Canário-da-Terra, aquele de peito amarelo, farta penugem verde escurecida em castanho nas costas e vermelho-sangue na coroa da cabeça, por isso também chamado de Cabecinha-de-Fogo. Canarinho-de-Telha, no sul do Brasil.

Caçada ao Chapinha, outro nome do passarinho, tinha seus macetes; além de quirela de arroz ou canjiquinha de milho, colocava-se espelho no fundo do alçapão, velho truque para pegar canário brigão. Ao se ver refletido imaginava outro a insultá-lo. Não resistia, descia com tudo para dentro da armadilha. E ficava preso, traído pela própria imagem. Divertia-me esse entretenimento cruel. Passava horas, escondido atrás de uma árvore, na expectativa de prender um passarinho.

Companheiro bom para compartilhar o gosto pelos passarinhos era Lincoln; éramos velhos amigos, desses de unha e carne. Depois de pronto o dever escolar, nos encontrávamos para cuidar dos bichinhos; preparar para eles gema de ovo cozida, couve (alface esfriava o bichinho, não podia), alpiste, quirelas, areia fina e água de filtro, apanhada numa vasilha bem limpa. Cada um engaiolava seus canarinhos. Um no alpendre, outro na janela da frente da casa, outro pendurado debaixo do pé de manga. Chapinhas ainda ficavam mais valentes quando testados em rinha. Isso, mesmo!... Não tinha alegria maior de menino ver seu canário ganhar uma briga!

Certo sábado, decidimos caçar passarinhos. Ao primeiro sol da manhã, partimos para o mato. Logo, atravessamos o bairro São Vicente, dobramos o morro da Capelinha e paramos para descansar à sombra rala de um velho Araticum, próximo ao Cruzeiro do Senhor Bom Jesus dos Passos. O local da caçada era um pouco mais adiante, pelas imediações do mata-burro da fazenda do Lazinho, onde uma Aroeira rebrotada, que servia de esteio, abrigava o ninho de um casal de canarinho, famoso pela valentia.

Fôlego recuperado, andamos mais uma hora até o local combinado. Lá, encontramos vários garotos com alçapões armados para pegar o Cabecinha-de-Fogo. Entre eles, um sujeitinho metido a besta, caçava com visgo; uma massa grudenta feita com leite de Jaca, igualzinha a chicletes, enrolada de fora a fora num espeto de bambu. Passarinho que pousasse ali ficava preso.

Tivemos um dia sem sucesso. Ninguém pega o Chapinha. Desapontado, o menino do visgo desafia:

- Amanhã, pego esse espertinho de qualquer jeito, garanto!

A maioria da garotada caiu na risada, debochando do piá. Eu e Lincoln recolhemos nossas gaiolas e batemos em retirada, decididos a retornar no dia seguinte com um alçapão mais eficiente que se armava também na lateral, artifício a mais para enganar a criaturinha.

No domingo, acordo ansioso para sair. Manhãzinha ainda, encontro Lincoln esperando no portão de minha casa. Sem perda de tempo, caminhamos sem descanso até o mata-burro, aproveitando bem a manhã; havia chovido durante a noite, o calor cedeu.

Para nossa surpresa, encontramos o local mergulhado numa quietude estranha. Nenhuma pessoa por perto, nem pio do canário. Chegamos a ficar por algum tempo inteiramente calados, com os olhos perdidos no infinito, procurando sinal do Chapinha. O único som era o trinado de uma Maria-Preta, pousada na Aroeira.

Dependuramos as gaiolas, cada uma num mourão de cerca, distante um do outro. Tento animar o colega:
 
- O canário da Aroeira deve estar por perto. Só esperar.
- Sei não!... – responde Lincoln com uma voz de quem estava imaginando coisas.

Zombo dele:
- Cisma não, sô!...

Minutos depois aparece um garoto com duas gaiolas nas mãos. Um friozinho percorre minhas pernas; o coração aos pulos, pergunto:

- Oi, Pelé! Vem de onde?
- Da sede da Fazenda. Peguei esses dois - responde o caçador, mostrando os pássaros dentro do alçapão.
- E o canário daqui?
- Ué!... Ainda não sabe? – estranha o menino, piscando significativamente os olhos.
- Que foi, fala logo?
- Nem bem alvoreceu o dia, aquele pirralho, com cara espantada de porquinho-da-índia... o daquele trem... o tal visgo... matou o pobrezinho com uma pelotada de estilingue.

Lincoln recua um passo e aperta a testa com a palma da mão, espantado:
- Nossa Senhora!...
- Escomungado aquele moleque! – xinga Pelé.

E emendo:
- Matou por inveja. Esconjuro o malvado!...

Cheio de pena, viro os olhos para o chão. Depois, enxugo as lágrimas com a manga da camisa. Despeço de Pelé e chamo meu amigo para voltar.
 
Do curral, um vento brando trazia o cheiro adocicado de cana picada e esterco fresco de gado. No azul, alto e sereno, planava um grande Gavião-Mateiro.


CONQUISTANDO A LINGUAGEM

Atividades/Responda em folha anexa:

1) Você conhece o Chapinha? É o passarinho mais brasileiro que existe de norte a sul do país. Encanta nossos olhos com a beleza verde-amarela e o canto de pura alegria. Ele é conhecido por vários nomes, cite outros.
2) O chapinho não é considerado extinto, mas está sumido das cidades e do meio rural brasileiro. Como fazer para o Chapinha voltar a cantar nas ruas e nos campos?
3) Os dois personagens eram apaixonados por passarinhos presos em gaiolas. Certo ou errado? Gostaria, ou não, de ter passarinho em casa? Por quê?
4) Copie a parte do texto mais interessante, mudando ou acrescentando frases.

PARA A PROFESSORA
Reflexão:
A mais pura imagem da liberdade é, para mim, uma ave; corta os céus em largos vôos, desce à fonte, aos grãos, entoa seu canto, eleva sua alegria ao Criador e, ao cair da noite, pode adormecer tranqüila porque sua liberdade soube usar. Grande exemplo de um pequenino ser, que o homem ainda não quis compreender (Antenor Vieira de Melo).

POEMA:
De repente, o canário trina e amarela
A sombra da mangueira e o quintal
Resiste e canta o cabecinha-de-fogo
Desde antigamente, quando talos de embaúba entreteciam sonhos
A vida não segurava o tempo,
e a infância voava no azul e branco – (Pascoal Motta)

 MOTIVAÇÃO:
Fale sobre amizade entre amigos.
Organize um jogral com os alunos.

* Vocabulário: selecione verbetes desconhecidos e oriente a consulta no Dicionário * Educação Ambiental - Fale sobre a importância da fauna alada na preservação das florestas. * Faça um mural com as espécies de pássaros conhecidas, envolvendo os pais dos alunos. Convide alguém ligado ao meio-ambiente para conversar com os alunos sobre a Legislação de Proteção da Fauna e Flora no Brasil.

** PCNs: história de acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ministério da Educação, certificada pela Diretoria de Desenvolvimento da Educação Infantil e Fundamental da Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais, conforme ofício nº 39/02, de 22 de janeiro de 2002.
GÊNERO: aventura.
TEMAS TRANSVERSAIS: ética: caça aos pássaros – relacionamento de pessoas com animais. * Geografia e Ciências: espécies animais e vegetais do Brasil. * Português: diversidades das línguas e dos costumes


* FBN© 2004 * O CANÁRIO DA AROEIRA/Categoria: Conto Infantil – © Welington Almeida Pinto - Texto revisado para substituir o da publicação como o mesmo nome – Edições Brasileiras

i.PÁGINAS:

* Biográfico:
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* POESIA:
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* CONTOS INFANTIS:
www.mundodacrianca.blogspot.com

* CONTOS & CRÕNICAS:
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* EDUCAÇÃO:
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* SAÚDE BUCAL INFANTIL:
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* ESCOLA LEGAL/Teatro infantil:
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* LIVROS DISPONÍVEIS NA WEB

* O MÁGICO DE OZ:
www.omagicodeoz.blogspot.com - www.ieditora.com.br

* SANTOS-DUMONT, NO CORAÇÃO DA HUMANIDADE:
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* A SAGA DO PAU-BRASIL(história):
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* O CONDOMINIO E SUAS LEIS:
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Welington Almeida Pinto
Enviado por Welington Almeida Pinto em 15/05/2005
Reeditado em 17/05/2005
Código do texto: T17036
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Sobre o autor
Welington Almeida Pinto
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 67 anos
31 textos (104059 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 06/12/16 08:30)
Welington Almeida Pinto