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Jackie, o anjo de asas quebradas

 

Seu nome é Jackie. Olhos azuis, cabelos louros cacheados que lembram um dia de sol escaldante refletindo o céu em águas claras no oceano. Seu sorriso é como se o paraíso estivesse abrindo as portas para mim. E, dentro da casa, escuto sua voz doce a me chamar: Babete! Corro ao encontro daquele som familiar e me deparo com o vazio.

Fico a pensar como uma criaturinha pode preencher minha vida com tanto amor!

Crianças são anjos que nos protegem e nos divertem ao mesmo tempo. Uns possuem asas quebradas, unhas pintadas, caras lavadas, mas são anjos. A todo o momento algo me faz voltar para a saudade que esta ausência se tem transformado em presença...

Outro dia ao passar pela sala e vi na tevê o desenho das ‘meninas superpoderosas’, lembrei-me de um dia em que ela as assistia tranqüilamente comendo seu danoninho e de repente começou a chorar quando o monstro engolia uma das meninas que se chama Docinho. Todos nós ficamos assustados e saímos em desabalada correria, ela apontava seu dedinho para a tela da tevê dizendo entre soluços: o monsto momeu a rimã... ?!?

Meu marido, o mais apavorado de nós, a pegou e perguntava:_ Jackie fala pro titio o que aconteceu? E ela, respondia: _ Fubeto... o monsto momeu a rimã...?! Natala o monsto momeu a rimã...?! Não sabíamos se ríamos ou a acudíamos. Repentinamente ela começou a rir e dizia entre alegre e aliviada: _Fubeto fica tiste não, o monsto cupiu éia.

Em sua cabecinha as meninas superpoderosas eram sua família. Florzinha, sua mãe, Docinho, a irmã e Lindinha a própria Jackie.

Muitas vezes me pego rindo sozinha ao lembrar as cenas inusitadas de Jackie. De sua brabeza quando contrariada. Se há zanga em alguma de suas travessuras, diz logo: vou bóia pa tásinha minha!

Um dia destes, Babi, minha filha caçula, chamou sua atenção e no auge de sua crise, Jackie disse que ia embora pra sua casinha. Babi reafirmou: vá! E vai a pé, porque ninguém vai levá-la, abriu a porta e esperou... Jackie depois de minutos de reflexão disse: num vou agóia não, tá, Babi, vou peiá a mamãe minha, surpreendendo a todos nós que não agüentamos e caímos na risada, e ainda acrescentando: fecha a porta Babi!

Hora do banho nem preciso dizer, uma balbúrdia. Lava tudo: box, azulejos e até quem está tentando  banhá-la. Os gritinhos animados ecoam pela casa inteira, ainda agora que me vejo presa a estas maravilhosas lembranças...

Uma vez, ao buscá-la na creche, vinha sentadinha em sua cadeirinha no banco traseiro do carro. Ao parar no semáforo, percebi num outro carro as pessoas acenando e rindo pra ela. Olhei para trás e ela estava fazendo um gesto obsceno.

Meu Deus! Esta menina está demais! Com cuidado indaguei como aprendera a fazer aquele sinal, ela me disse que foi com uma amiguinha. Ela, em sua inocência, mal sabia o que aquilo significava, mas eu tive que ensiná-la que aquilo correspondia a uma coisa muito feia. Babete ficaria zangada se ela continuasse a fazer aquilo principalmente para os outros. Faço mais não Babete, respondeu-me.

Depois disto, muitas coisas ela aprendeu, e cada vez mais nos fazia rir e divertir. Maneiro, dizia quando gostava de algo; que saco!, quando recebia uma zanga. Jackie é um anjo de asas quebradas que amo muito.

Há pouco tempo, seu avô esteve internado e, no dia em que ela visitaria o avô, ele entrou em coma. Estava impossível, falava o tempo todo que ia visitar o vovô. Quando ela viu que a mãe não viera apanhá-la, ficou triste e inquieta, a noite chegou e não dormia. Nesse mesmo dia seu avô partira. Ninguém tinha coragem de contar a ela. Como não conseguia dormir fui, aos poucos, tentando confortá-la e explicar a ausência do vovô tão querido. Que ele tinha partido pra morar lá no céu, junto com o outro avô que ela não conhecera. E, quando a saudade viesse, ela podia olhar pro céu, e a estrelinha que ela visse mais brilhante era o vovô e que rezasse pra ele. Com ares de gente grande parecia ter entendido. Depois de ficarmos na sacada olhando a noite estrelada, dormira sobre meus ombros. Sem choro, sem ressentimentos.

As crianças-anjos sabem lidar com as coisas melhor que nós adultos. Fora ver o avô no velório e conversou com ele, dizendo que ia sentir saudade de brincar com ele e de ir ao bar para comprar jububa. Mas que ele não ficasse triste porque ela ia rezar pra ele todo dia.

Já fazia quase um mês que o avô partira quando ela saiu com mais esta:_ Vovó eu quéio ver o vovô, cê me leva? A avó entre emocionada e confusa tentava em vão explicar pra ela que não tinha jeito. Tem sim vovó, ela dizia, e só pulá bem gande que vai lá no céu, visita o vovô e ponto, depois eu caio e cê me segura pra eu não cair no chão e quebá o naiz. Como resistir? Difícil ficar impassível diante de tanta candura...

Jackie é esta mistura de criança, anjo, moleca. É a grande paixão da minha família. Sei que um dia ela será uma moça linda e inteligente, quem sabe alguém com respostas para tantos mistérios que assolam este mundo. Apesar de não ter a certeza de vê-la moça, peço a Deus para que ela seja antes de tudo, muito feliz!

Traduzo este vocabulário inusitado e próprio de Jackie embora acredite que não seria necessário, porque todos nós um dia fizemos uso dele.

Agóia: agora

Babete: tia Bete

Babi: Gabi

Bóia: embora

Cê: você

Cupiu: cuspiu

Éia: ela

Fubeto: tio Beto

Gande: grande que para ela é o mesmo que alto

Jububa: jujuba – bala de goma

Momeu: comeu

Monsto: monstro

Naiz: nariz

Natala: Nathalia

Péia: espera

Ponto: pronto

Pulá: pular

Quéio: quero

Quebá: quebrar

Rimã: irmã

Tasinha: casinha

Tiste: triste

 


bette vittorino
Enviado por bette vittorino em 13/08/2006
Reeditado em 27/03/2009
Código do texto: T215199
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre a autora
bette vittorino
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil, 62 anos
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