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Corrida de Caracóis






Corrida de Caracóis ...

Eles habitavam um “mundo” minúsculo, desconhecido para mim. Em minha imaginação eles eram uma espécie de heróis.

Eu brincava em um “quaradouro” (um tapete de capim verdejante, que media aproximadamente vinte metros quadrados), ficava na frente de minha casa. Na beira da cerca de madeira que separava os quintais, tinha algumas pedrinhas pequenas, onde meus heróis se escondiam. Minha amiguinha Aninha, detestava esta brincadeira, e dizia que era nojenta.Eu adorava. Catava o maior número possível de caracóis que encontrava, e os colocava na bainha do vestido, depois sentava ao sol, no chão de cimento, e os colova em linha reta, esperando que começassem a “correr”. A extensão do percurso que teriam que completar não era mais do que cinqüenta centímetros. Eu observa paciente o resultado. Na maior parte das vezes, ganhava o maior.

Brincava muitas tardes assim, assistindo a corrida de caracóis...
Uma dia minha vizinha, Dona Alice resolveu me ameaçar, dizendo que iria contar tudo para o meu pai. Não lhe agradava a idéia de colocar os pobres caracóis em uma corrida.
Mesmo com medo do meu pai saber continuei com minha brincadeira. Esperava, certa hora da tarde que eu sabia ela iria dormir, fechando a janela, e pronto, lá ia catar os pobres caracóis e Aninha ficava sempre por perto, fazendo cambalhotas no tapete de capim.

Até que cansei das corridas e parti para uma espécie de louvor aos caracóis. Passei a recolhê-los já mortos. Me indagava como poderiam ser tão frágeis, como se alimentavam, sendo tão minúsculos, porque tinham aquelas anteninhas, escutavam minha conversa, quando eu declarava o vencedor nas corridas. As pedras eram tão duras, e poderiam machucá-los. Viviam tão sozinhos em seu “mundo”. Depois de colher os mortos eu mostrava para minha mãe. Um dia me lembro que ela me deu uma caixa pequena para guardá-los e durante uns dias, eles ficaram ali reunidos, (apenas os frágeis cascos). Procurei pela caixa quando voltei do colégio, e mamãe falou que os cascos dos caracóis tinham desaparecido. Fiquei muito surpresa e me perguntando em meus cinco anos para onde teriam ido. Dois dias depois dei com a caixinha no armpario velho que guardava os brinquedos e trecos dos meus irmãos, estava cheia de bolinhas de gude. Com medo da resposta nem perguntei. Não esqueci os caracóis, só não brinquei mais com eles.

Outro dia procurei na cerca do sítio onde meu irmão mora, alguns caracóis para ver se os encontrava e começava uma corrida como nos velhos tempos. Mas não os encontrei.
Talves a terra no local não fosse úmida o suficiente, ou, realmente, não sei.Passei muito tempo procurando pelos caracóis minúsculos que eu tanto apreciava. Se algum dos leitores souber onde se encontra caracóis para organizar corridas me avise. Pois tenho muita vontade de brincar com meu filho pequeno e mostrar-lhes que ainda existem outras formas de brincar e usar a imaginação, formas diferentes das atuais, que são muito mecânicas e repetitivas.
 
Aradia Rhianon
Enviado por Aradia Rhianon em 24/08/2006
Reeditado em 19/07/2015
Código do texto: T224012
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Aradia Rhianon
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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