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O PÁSSARO MÁGICO

Era uma vez, num país muito longe, um homem jovem que se achava muito esperto. Ele passava os dias enganando as pessoas para tirar vantagem e ganhar dinheiro sem fazer esforço. Já havia enganado metade da cidade onde morava, quando resolveu partir para o interior onde as pessoas são mais crédulas, por isso ele pensou que se daria muito bem. Partiu no primeiro trem.

Chegou, à noitinha, a uma cidade pequena que se chamava Barbalândia, assim informava a placa presa num tronco seco.
- Que nome esquisito! - exclamou em pensamento – Talvez todos aqui tenham barba. Mas eu a chamarei de Bobolândia. - concluiu sorrindo.

Realmente, naquela cidade, todos os homens usavam barba longa. Foi procurar um lugar para dormir. Encontrou uma pousada bem no fim da única rua com calçamento onde ele passou a noite. No dia seguinte, já descansado, ele saiu para conhecer tudo, em especial os moradores alvo da sua desonestidade. Andava bem vestido, sorria para todos, passava a mão na cabeça das crianças esbanjando simpatia, mas mal sabiam as pessoas o tipo de malandrão que ele era.

Entrou numa vendinha. Chamou a atenção das pessoas pela sua aparência de homem educado, bem vestido e fino. De todos os golpes que ele aplicava, o seu preferido era o dos três copinhos. Ele punha três copos de bocas para baixo, e, em um deles, colocava uma bolinha. Girava os três com muita rapidez, e, mediante aposta em dinheiro, as pessoas tentavam acertar em qual dos copos estava a bolinha. O coitado, com muita certeza, dizia:

- Está no segundo!
Qual nada. Ele levantava o copo e nada tinha porque, ao girar os copos, ele tirava a bolinha e a escondia sem ninguém perceber. Passou dias e dias tirando dinheiro dos trabalhadores com esse engodo.  As pessoas sensatas da cidade começaram a se irritar com aquele homem que viera, não sabiam de onde, para aplicar golpes naquela gente ordeira e trabalhadeira.

A história chegou aos ouvidos do homem mais velho da cidade de Barbalândia que todos consideravam um sábio. Foi uma reunião muito agitada. Todos falavam ao mesmo tempo e sábio só ouvia. Em dado momento ele bateu na mesa para acalmar a turma.

- Bem, podem deixar comigo que eu vou expulsar esse sujeito daqui. Vai ser de forma pacífica. Ele mesmo sairá correndo sem dizer uma palavra e nunca mais se ouvirá falar dele por aqui.

- Como o senhor vai fazer? – perguntou uma mulher que tinha uma criança nos braços.
- Isso é segredo! – respondeu o sábio.
No dia seguinte o sábio passou pela pousada onde o golpista estava hospedado. Ele não estava. Havia saído para enganar mais alguém. O velho sorriu de satisfação. Foi ao pasto da fazenda mais próxima e recolheu, numa lata, uma boa porção de dejetos de vaca, ainda quentinhos, voltou e avisou o pessoal para ficar preparado porque o espertalhão iria sair correndo depois do que estava para acontecer.

O velho despejou os dejetos de vaca no chão e pôs um chapéu em cima ficando agachado segurando-o. Não demorou muito e lá vinha o malandro assobiando uma melodia, contente da vida depois de enganar meio mundo. Olhou o velho ali abaixado segurando aquele chapéu e, intrigado, ele perguntou:

- O que tem aí, velho, debaixo deste chapéu?
- Meu amigo, finalmente eu consegui aprisionar o pássaro mágico!
- Pássaro mágico? Nunca ouvi falar.
- Pois é, moço, este pássaro, que está embaixo do chapéu, vale uma fortuna. Todos os moradores de Barbalândia já tentaram aprisioná-lo, hoje eu consegui. - e bateu no peito com a mão livre continuando a falar.  - Só que eu preciso de uma gaiola para prender o bichinho. Se você puder segurar o chapéu eu vou até em casa buscar a gaiola. – pediu o sábio.

- Pode deixar, eu tomo conta do pássaro.
E o velho foi embora deixando o espertinho na estrada sob um sol muito quente, acocorado segurando um chapéu que cobria o pássaro raro. O tempo foi passando, o velho não voltava, o trapalhão suava em bicas e ao mesmo tempo elaborava um plano para levar a ave mágica, vendê-la e ganhar muito dinheiro deixando o velho na mão. Os moradores da cidade estavam só aguardando o sabichão passar correndo como disse o velho.

Não agüentando mais, o golpista resolveu executar o seu plano e foi levantando, bem devagarzinho, a aba do chapéu e: Crau - meteu a mão para agarrar ave valiosa. Deu um grito. A mão veio cheia de esterco de vaca melando a manga do seu paletó branco e escorrendo pelas pontas dos dedos. Ele saiu em desabalada carreira com o pessoal atrás dele gritando: “fora espertalhão de meia tigela”. Ele passou na pousada, pegou as suas tralhas e pôs o pé na estrada jurando que nunca mais voltaria a Barbalândia.

- Puxa, vovó, bem feito pra ele. – disse o Nandinho depois que sua avó terminou de contar a historia que ele havia pedido.
- É, meu filho, para um esperto existe um outro mais esperto. Você percebeu que não foi preciso violência para livrar Bobolândia, digo, Barbalândia daquele sujeito sem moral. Não se deve enganar as pessoas em hipótese alguma. Isto é falta de humanidade e de cristandade.

06/09/06.
(histórias que contava para o meu neto).
Maria Hilda de Jesus Alão
Enviado por Maria Hilda de Jesus Alão em 07/09/2006
Reeditado em 21/04/2011
Código do texto: T234663

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Sobre a autora
Maria Hilda de Jesus Alão
Santos - São Paulo - Brasil
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Maria Hilda de Jesus Alão