Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

O Mistério do Velho Chico





       Tunico encontrava-se às margens  de um rio. Mais precisamente, às margens do Rio São Francisco. Rio Chico, que muitos conhecem, ou pensam que  o conhece.
       De repente, ele ouviu uma estranha voz que perguntou-lhe:
      – "Tunico, você quer ficar rico?"
            Assustado, Tunico correu em direção da sua casa e os seus pés chegavam a tocar-lhes as nádegas. Chegou em casa muito suado, nervoso e contou o ocorrido ao seu avô Antônio. Camponês simples e honesto, conhecido por todos como Totonho. Simples e humilde homem que levava a vida a plantar arroz nos brejos que margeam o Rio São Francisco.
          Curioso, e, acima de tudo, duvidoso da estória do Tunico, o velho Totonho resolveu seguir o menino até o local onde ele dissera ter ouvido a tal voz.
          Os estreitos varedos dificultavam o acesso as margens do  rio. Mesmo assim, o velho seguia a frente do garoto que,  mesmo  na companhia do adulto, não desgrudava os olhos da ribanceira do rio.
          Chegando no local onde o pequeno Tunico dissera ter ouvido a voz, nem mesmo se ouviam o  coaxar dos sapos ou rãs. Presente mesmo só a fumaça do cachimbo do velho Totonho que, mesmo sendo o fumo de boa qualidade, fazia com que Tunico espirrasse.
        – Ôu Tun, num admito que “vor me cê” me venha com mentiras... Com essa danada “farta de respêtho”. Da próxima vez eu vô  puxar suas “zurêias”, tá me ouvindo, seu moleque!–Falou o velho, ainda indignado com o garoto.
           – Tô, vô. Mas o que eu falei pro sinhô é verdade!
Sem nada responder, o velho, juntamente com o pequeno Tunico, tomaram a vereda de volta para casa.
          No dia seguinte, lá  estava o Tunico, mais uma vez às margens do pomposo  e misterioso Chico.
           A sua nova linha para pescar era de nylon e por isso, era bastante resistente. Mesmo já refeito do susto, ele não deixava de olhar o rio. E nada aconteceu.
         Pescou alguns carás, traíras, piranhas e tantas outras espécies de peixes. Na volta para casa, Tunico ia cantarolando e nem mais se lembrava do ocorrido no dia anterior.
        Chegando em casa, onde o velho Totonho o aguardava, Tunico  começou a contar vantagens...
        – Bem, vô... amanhã quando eu for pescar, vou trazer uma fileira de peixe bem assim, oh!...– gesticulou abrindo os finos braços a fim de transmitir a quantidade de peixes que desejava pescar no dia seguinte.
        Enquanto aquele molequinho endiabrado falava sem parar, seu avô o observava. Sabia que aquele molequinho gostava de contar estórias, lorotas de pescadores. Foi por isso, embora com medo, que Totonho foi até a beira do rio e sabia que nada iria encontrar. Se não fosse, perderia a fama de corajoso.
        No dia seguinte Totonho seguiu para  a roça para cuidar da sua plantação de arroz e o Tunico foi pescar, como de costume.
       Quase anoitecendo, e chegando em casa, o velho Totonho não encontrou o Tunico, como de costume. Desesperado, ele correu para a beira do rio onde encontrou uma grande quantidade de peixes enfileirados e a vara de pescar do menino. Não encontrou, porém, o menino.
        Desesperado pôs-se a chamar Tunico, mas não obteve resposta; e sem acreditar, viu as pegadas do garoto. Pegadas que seguiam em direção ao rio.
       Totonho imaginou mil coisas... Não! Tunico não se afogaria. Era um exímio nadador!
        Desesperado, o velho continuou a  chamá-lo. Triste e cansado, Totonho sentou-se no chão e continuou a chorar. Chorou muito até não ter mais lágrimas para chorar.
        A noite foi embora e o dia chegou, e o velho Totonho continuou a chorar e a contemplar o rio.
        De repente, ele ouviu uma voz que falou mais ou menos assim:
– Totonho, você quer ficar rico?
Ninguém sabe se o velho Totonho também queria ser rico...
       E contam  os pescadores que o avô, após ouvir aquela voz, foi  ao encontro do Negro D` água não em busca de riquezas... mas, para resgatar o pequeno Tunico.
       Alguém jamais viu o Tunico ou mesmo o velho Totonho.
       Com medo de ouvir as tais vozes, os navegadores do Rio São Francisco usam carrancas na frente dos seus barcos. Segundo os mesmos pescadores, as carrancas servem para assustar o Negro D`água.
       E, se você, Leitor,  encontrar-se às margens do Rio São Francisco e ouvir a tal voz... Corra!... Corra o bastante para que não venha a ser envolvido pelo Negro D` água e pelo mistério que habita naquele belo E MÍSTICO PARAÍSO AQUÁTICO.




 Este trabalho está registrado na Biblioteca Nacional-RJ

carlos Carregoza
Enviado por carlos Carregoza em 17/11/2006
Código do texto: T293726
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
carlos Carregoza
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 53 anos
102 textos (5968 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/12/16 22:08)
carlos Carregoza