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A FONTE DO SAPO

Havia uma casa grande toda pintada de branco com janelas azuis, na Rua do Coração que ficava no lado leste da cidade da Imaginação. A casa tinha, na frente, um belíssimo jardim com flores de todos os matizes. Pássaros, abelhas e borboletas viviam felizes ali. Na casa viviam o casal e duas meninas, uma de sete anos e a outra de quatro. Dentro da casa era como no jardim, um paraíso de alegria. As meninas eram como os pássaros e as borboletas, alegres e traquinas.

Numa tarde, quando as duas brincavam na frente da casa, a menina mais velha, Mariana, percebeu que faltava algo para aumentar a beleza do jardim.

- Já sei! – disse ela – Uma fonte.
Entrou e foi falar com o pai.
- Papai, porque não faz uma fonte no jardim. Ele ficaria mais bonito e os passarinhos podem beber água e tomar banho.

- Tens razão, filhinha, eu vou providenciar.
E o pai chamou o vô Zelito, conhecido pedreiro da cidade e que tinha fama de bruxo. Diziam que ele fazia bruxaria e que coisas inexplicáveis aconteciam com as obras que ele executava porque misturava, ao cimento, um pó mágico feito asa de morcego. Depois de uns dias de trabalho, lá estava a fonte jorrando água para o alto e com um sapo esculpido em cimento (será que tinha o tal pó) na posição de quem se mira no espelho da água. Uma verdadeira obra de arte. Os pássaros e as duas meninas estavam felizes.

Numa tarde vô Zelito caminhava pela Rua do Coração e, ao chegar diante da casa da fonte, avistou a menina Mariana agachadinha olhando o sapo. Zelito parou e disse, assustando a criança distraída:

- Parece de verdade, não é?
- É. Ele só falta pular e coaxar... – respondeu, refazendo-se do susto.
- Não quer experimentar? – perguntou o velho.
- Mas ele é um sapo de cimento, nunca será um sapo de verdade...
- Vamos, feche os olhos e deseje muito para ver o que acontece. – recomendou o velho Zelito.

Mariana fechou os olhos e desejou muito, com toda a força do seu coraçãozinho. Escutou um barulho. Foi abrindo os olhos bem devagar... Olhou para o sapo e lá estava ele comendo os insetos que se acumulam na água parada. E o vô Zelito? Ele não estava mais no portão. Desapareceu. Mariana ficou intrigada, não com medo, e resolveu que iria colocar aquela história em pratos limpos tão logo encontrasse o vô Zelito.

- Ele vai ter de me explicar tudinho. Quero saber como o sapo ganhou vida e depois de alguns minutos voltou a ser de cimento... eu quero saber... – dizia ela entre os dentes.

Dias depois, a menina estava no jardim colhendo flores e, de costas para o portão, não viu que vô Zelito apareceu como num passe de mágica. Só ouviu a sua voz que dizia:
- Você disse que eu tenho de lhe explicar tudinho, eu vim para isso.

Virando-se ela lhe perguntou:
- Como o senhor sabe que eu disse isto? Não estava mais aqui quando o sapo virou de cimento novamente! O senhor é bruxo, mago ou duende desses que advinham tudo?

O velho não negou nem confirmou e, sorrindo, respondeu:
- Esquece que o vento carrega as palavras e os pensamentos da gente para o espaço?  É por isso que eu sei.
- Então me diga como é que o sapo ficou vivo e depois virou de cimento. – pediu ela.

- Eu mandei você fechar os olhos e desejar muito, não foi? O seu desejo sincero e a sua fantasia deram vida ao sapo. Só que a fantasia é temporária, não pode durar para sempre. Terminado o tempo, volta tudo à realidade. Você pode se valer desse recurso para sonhar sem se perder no sonho. Porque se você viver no mundo da fantasia sem limite ficará decepcionada com a realidade quando for adulta.
 
- Então, se eu não exagerar, posso fazer o sapo viver quando eu quiser?
- Sim. – respondeu o vô Zelito desaparecendo numa nuvem branca confirmando as suspeitas de Mariana.
 
– Ele é um mago... eu não me enganei... eu não me enganei... – murmurava a menina meneando a cabeça.
Mariana ficou contente. Agora ela podia ter o sapo vivo na fonte quando quisesse, podia falar com as flores e ouvi-las, com as borboletas, com os pássaros, com as minhocas, com os besouros, com as abelhas... Seria um tremendo falatório, tremenda algazarra... tremenda bagunça... balburdia geral... era só desejar muito.

- Ei, pode parar! – exclamou ela para si mesma, lembrando-se das palavras do velho Zelito – Alguém pode pensar que sou louca... Fantasia tem limite. – completou a menina.

23/11/06.
(histórias que contava para o meu neto).
Maria Hilda de Jesus Alão
Enviado por Maria Hilda de Jesus Alão em 23/11/2006
Reeditado em 21/04/2011
Código do texto: T299456

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Sobre a autora
Maria Hilda de Jesus Alão
Santos - São Paulo - Brasil
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Maria Hilda de Jesus Alão