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Vovó Juliana

- Vovó. Vovó. Ahhh! Desculpe, não sabia que a senhora estava dormindo.
- Não tem importância, Ana Luiza. Eu vivo dormindo.
- Sabe vovó, tenho que responder a uma pergunta de geografia e não sei como fazer.
- Vamos lá, minha netinha. Talvez a vovó consiga te ajudar.
- Onde fica a Irlanda?

Eu ainda estava sonolenta, esfreguei os olhos com as mãos ao mesmo tempo em que me balançava levemente na cadeira de balanço. Eu adorava cochilar depois do almoço, fazia isso todos os dias enquanto Ana Luiza e Ricardo - meus netos – faziam as tarefas da escola. Infelizmente eu os ajudava cada vez menos nos deveres, deixei de estudar  cedo, apesar da insistência de meus pais para que eu continuasse na escola. Naquele tempo eu achava os estudos uma chatice, porém mais tarde me arrependi, nem mesmo sabia onde ficava a Irlanda, não podia ajudar a Aninha.

- Ei vovó! Responda  minha pergunta. Você não vai me ajudar? – insistiu.
- Acho que vou ficar te devendo mais essa, Ana Luiza. A vovó não consegue se lembrar onde fica a Irlanda.
- Não se lembra, ou não aprendeu, vovó? – perguntou Ricardo.
- É talvez você tenha razão, Ricardinho. – respondi envergonhada, notando que ele estava rindo por ter sido mais esperto que eu.
- Não fale assim com a vovó, Ricardo. Ela é uma pessoa tão boa. Bem que você gosta dos brigadeiros e do pão de queijo que ela faz para você. – falou Aninha em minha defesa.
- Eu não disse que a vovó é ruim, só perguntei se ela havia aprendido onde ficava a Irlanda.


A cada dia que passava eu ficava mais arrependida por não ter completado meus estudos. Deixei as coisas boas passarem por mim e não aproveitei como devia. Sempre fui geniosa, cismei que não queria mais estudar e abandonei a escola aos treze anos. O pior é que nada mais eu podia fazer, estava com 63 anos de idade, muito velha para recuperar o tempo perdido.

- Vovó!
- Fale, Ricardo.
- Ah! Não é nada não. Eu ia perguntar o que é molécula, mas deixa pra lá, eu pergunto para o papai hoje à noite.
- É melhor você fazer isso. Vovó não pode te ajudar.

Voltei a me entreter com o tricô;
- Um meia, um tricô, um meia, um tricô, um... – pensava mentalmente enquanto tecia.
- Responde outra coisa, vovó?
- Claro, querida.
- Pare de perturbar a vovó, Aninha, ele não sabe as nossas lições de escola.
- A pergunta não é de escola, seu bobo!
- Deixe ela perguntar, Ricardo. – intervi.
- Eu queria saber porque você não se formou médica de bichos?
- Não é médica de bichos, Aninha. O nome é ve-te-ri-ná-ria.!   - Interrompeu-a Ricardo mais uma vez.
- Ta bom! – exclamou Aninha. – Por que você não quis ser veterinária?
- Eu queria ser veterinária, mas para isso eu tinha que completar o primeiro grau de depois cursar o colegial. Nunca gostei de estudar geografia, matemática e odiava português. Achava que estudar isso era bobagem. Hoje percebo o quanto eu estava errada. Infelizmente não posso fazer mais nada.
- Se você quiser, vovó, eu falo com a tia Tereza e arranjo uma vaga lá na minha classe. – propôs Aninha.
- Ora querida! Você e seus coleguinhas têm sete ou oito anos de idade, ninguém vai querer se sentar ao lado de uma mulher da minha idade.
- Seus pais também não estudaram? – perguntou Ricardo.
- Muito pelo contrário, Ricardo, papai era formado em administração de empresas e metido a escritor. Mamãe era enfermeira.
- Enfermeira! Como a dona Olívia que aplica injeção?
- Não, Aninha. A dona Olívia é auxiliar de enfermagem, minha mãe era formada na faculdade de enfermagem. Era enfermeira padrão.
- Aninha, vamos brincar lá fora? – sugeriu Ricardo.
- Eu posso, vovó?
- Se vocês terminaram as lições podem ir, mas antes tomem o leite.

Quando meus netinhos foram para o quintal senti sono novamente e adormeci. Pouco tempo depois voltaram a me acordar;
- Juliana! Juliana! Acorde, são seis e meia, hora de se levantar e ir  à escola.
- Escola! – exclamei – É muito tarde para ir à escola.
- Que bobagem, filha. Levante-se, não é tarde não.

Quando abri os olhos, vi minha mãe ao meu lado com o uniforme nas mãos, só então percebi que estava sonhando.
- Por que você falou que era tarde, filha? – perguntou minha mãe.
- Deixe pra lá, mamãe. Eu me levanto num minuto.

Minha mãe saiu do quarto sem nada entender. Depois de tomar o café da manhã papai me levou à escola em seu carro. Eu olhava para ele e sentia um grande alívio por ter apenas treze anos. A partir daquele dia passei a ser uma aluna dedicada aos estudos. Era quarta-feira, dia da aula de geografia, eu estava ansiosa para encontrar a professora e perguntar onde ficava a Irlanda.

Quando estávamos quase chegando na escola perguntei ao meu pai o que era molécula. Quando ele se preparava para responder já estávamos na porta da escola e ao parar o carro ele atrapalhou o trânsito e começaram a buzinar, então falei;
- Deixe, pai. Depois você me ensina.

Desci do automóvel, feliz. Feliz por ter apenas treze anos, feliz por ter uma vida inteira para estudar me formar, e poder um dia quem sabe responder à minha neta onde fica a Irlanda.

Laerte Russini
Enviado por Laerte Russini em 30/10/2007
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Sobre o autor
Laerte Russini
São Paulo - São Paulo - Brasil, 65 anos
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