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O Rei dos Animais


CENA I

Ao abrir-se o pano vê-se um jovem sentado ao pé de uma árvore, à sua direita (um pouco afastado) encontra-se uma pequena mesa com um pequeno cartaz onde se lê:


CONVOCAÇÃO. Ficam todos os animais convocados a participarem de um debate e posterior eleição para ser escolhido o rei dos animais que irá representar os demais etc, etc....


No cento do palco encontra-se uma pequena tribuna (ou caixote).

(O jovem põe-se de pé, dirige-se vagarosamente em direção à platéia, com um sorriso nos lábios, cumprimentando-a com uma pequena curvatura do corpo).

Jovem:
 - Eu me chamo Noélio, mas sou conhecido como Quixote – Dom Quixote - só porque me acham um sonhador, dizem que vivo no mundo da lua, ora, não me importo. Quem não tem um sonho para acalentar, está perdendo pelo menos a metade de sua vida.
O meu pai é o guarda-florestal responsável por manter a ordem nesta área da floresta. Desde criança que o ouço dizer que para termos um mundo melhor e superior, devemos conter a poluição, a violência e principalmente respeitarmos os animais. Cada qual deve fazer a sua parte, pois afinal, o que seria dos grandes rios sem a ajuda dos pequenos regatos?
Meu pai tem razão e eu sempre prestei muita atenção em suas palavras. Prestar atenção - parar para ouvir - é uma coisa que faz a gente ficar sábio.
Ultimamente, meu pai está apreensivo com as várias queixas com relação aos animais que constantemente estão em calorosas discussões. Todos querem se intitular o chefe dos demais, o que acarreta falatórios e algazarra. E provocam grande alarido e desmando, tirando a paz da floresta.
Assim, resolvi tentar ajudar da melhor maneira para encontrar a solução. Depois de muito matutar cheguei à conclusão que teria que ser escolhido democraticamente, o verdadeiro líder que ficaria à frente de todos e passaria então a ser o representante dos animais.

Jovem: (Faz um breve intervalo – espreguiça-se, lança um olhar ao público e, com as mãos em concha sobre a boca, como quem vai contar um grande segredo)
- Como tudo já foi devidamente providenciado, vou continuar aqui no meu sossego descansando e curtindo o som que vem lá do riacho.
CENA II

Um papagaio se aproxima do cartaz. Coloca os óculos. E põe-se a ler atentamente o texto, como que para conferir se está tudo em ordem.

Papagaio:
- Cá pr’a nós, essa idéia do Noélio de promover a escolha do Rei dos Animais até que foi uma boa. Espero que com isso as coisas melhorem, acabem as discussões e brigas. Eu, de minha parte, nunca pensei em ser rei de ninguém. (Prosseguindo, como quem conta um grande segredo). - Até que uma vaguinha de primeiro ministro ou até mesmo de porta-voz do Rei, não seria nada mal, pois afinal, falar e comigo mesmo.

(Logo em seguida, aproxima-se um coelho. Vem em desembalada corrida. Ao ver o cartaz, pára bruscamente e põe-se também a ler com grande interesse.


Coelho: (Lendo e murmurando consigo mesmo)
- Hum! Líder?! Será que finalmente terei oportunidade de mostrar meus dotes de liderança? Não custa nada tentar. Serei candidato.

Papagaio: (Com uma ficha de inscrição em uma das mãos)
- Então Sr. Coelho o senhor pretende se inscrever?

Coelho:
Ah! Sim pretendo me inscrever, mas antes, irei espalhar as notícias, quem sabe não consigo alguma torcida. Na hora da escolha uma boa torcida e alguma influência não fazem mal a ninguém. (E continua em disparada carreira, deixando o Papagaio sem entender nada).

Papagaio: (Ainda com a ficha na mão e cara de espanto)
- Deixe-me refazer o plano combinado com o Noélio. A pessoa (digo, o animal) deve fazer sua inscrição aqui comigo, assinar esta ficha de inscrição (mostra a ficha) e em seguida deve se apresentar e expor seus planos e provar que tem condições suficientes para ocupar o cargo desejado. (Faz uma pequena pausa para reflexão) – Mas, espera aí, o candidato deve subir naquela tribuna, afinal deve ser p’ra isso que ela está ali! Humm! (dá um sorriso maroto e continua com certa malícia) - Será que o Elefante também vai ser candidato?...
 
(O papagaio é interrompido em suas reflexões com a entrada da Girafa)
   
Papagaio: (Sempre com uma ficha de inscrição à mão)
- Pois não minha senhora, deseja fazer sua inscrição?
GIRAFA – Pois é claro, como não?!.. Eu, a Girafa, sou o maior dos animais. Aliás, para aqueles que não acreditam que bicho fala, saibam que eu falo - e muito - sou conhecido como “alto falante”. Portanto, estou aqui para dizer que me sinto no direito de me candidatar para ser o Rei dos Animais, melhor dizendo serei a Rainha dos Animais .... (preenche a ficha de inscrição e continua).
- Como já disse, eu falo, e muito bem, aliás, também canto maravilhooooosamente! (E começa a se dirigir à tribuna)

Papagaio: (Se apressa em impedir que a Girafa suba à tribuna; e murmurando)
- Deus nos livre! Conheço bem a sua fama de cantora. Que desastre!)

Girafa: (Querendo entender o que não conseguira ouvir direito)
-Como disse?!!...

Papagaio:
- Ora, nada não! A senhora agora só deverá aguardar o resultado, nada mais. Viu como a coisa é simples?!... Obrigado e boa sorte! (E, murmurando: - Ufa!! Essa foi por pouco, se a deixo cantar, lá se vai a nossa paz)

(Entram em cena, juntos, o boi e o burro. Aproximam-se da mesa. São interpelados pelo Papagaio com a mão estendida em direção à dupla)

Papagaio:
- Por favor, senhores, os candidatos deverão se apresentar individualmente.

(Os dois pretendentes ao cargo encaram-se, por um breve momento. Finalmente o boi dirige-se ao burro com exagerada mesura).

Boi: (curvando-se)
- Por favor, compadre, primeiro você.

(O burro, um pouco embaraçado com a presteza do amigo, ameaça a retribuir da mesma forma, porém resolve aceitar o convite).

Burro: (tomando seu lugar na tribuna e em exagerada atitude de menestrel)

Aos senhores peço vênia para me apresentar
Sou de nobre estirpe da raça dos muares
Estou sempre presente em todos os lugares
Sirvo tão bem para carga como para montar.

Papagaio: (fazendo uso do seu humor murmura baixinho)
- Oh, Céus! Um burro poeta. O que mais nos falta?!. Ora, ora, um burro metido a besta! (põe-se a rir da própria piada).



Burro:
- Como disse Senhor Papagaio?!!.

Papagaio: (Preocupado de ter magoado o candidato)
- Nada não Senhor Burro. Não se trata de interpretação, basta preencher esta ficha e pronto, o senhor já se tornará um candidato.

(O Burro desce da tribuna, um pouco acanhado e vai preencher a ficha de inscrição).
 
Papagaio: (Percebendo que o burro já havia terminado, agradece sua presença e pede para entrar o próximo candidato que aguardava sua vez).

(Entra o Boi, aproxima-se da mesa de inscrição e de forma simples e humilde cumprimenta e ameaça a se dirigir para tribuna).

Papagaio: (Parando suas anotações e dirigindo-se ao candidato, impedindo-o de subir à tribuna).
- Por favor, compadre Boi, basta preencher a ficha de inscrição. (Murmurando) – Se um burro deseja ser menestrel, posso imaginar o que aprontará um Boi!)

(A apresentação é interrompida por um grande alarido fora de cena. É o elefante que deseja entrar e é contido. Todos têm medo de que venha destruir todo o cenário).

Papagaio: (Demonstrando nervosismo, pedindo calma).
- Por favor, vamos manter a ordem. Estamos em plena Democracia, não podemos criar dificuldades com qualquer candidato, todos têm o direito garantido de ser candidato.

 (Procurando uma saída diplomática, sai de cena indo ao encontro do Elefante).

Papagaio: (Entrando em cena, acompanhado do Elefante, cheio de mesura, como que avaliando o tamanho do Elefante e o seu)
- Por favor, queira nos desculpar o pequeno incidente. Para ser candidato, basta preencher esta ficha e ser qualificado, e então será avaliado como os demais concorrentes.

Elefante: (Demonstrando contrariedade)
- Já não é a primeira vez que tentam me impedir de ser candidato, ainda não me esqueci, pois saibam, tenho uma prodigiosa memória, verdadeira memória de Elefante... Sou grande (olha para o Papagaio como que comparando e ameaçando) ... Tenho uma tremenda força e, por isto, devo ser considerado o Rei dos Animais...

Papagaio: (Com receio e preocupado com a ameaça, querendo agradar)
- Senhor Elefante! É como eu já disse..., aqui todos têm direito igual. Basta preencher esta ficha e pronto! O Senhor já será o nosso candidato (sempre olhando o Elefante com receio de contrariá-lo) e que candidato! Digo mais, Vossa Excelência é um candidato de PESO!
(O Elefante preenche a ficha e entrega ao Papagaio que faz questão de acompanhá-lo até a saída).
 
Entra em cena o leão. Olhando para trás como se esperasse que com ele entrasse também mais alguém. Traz uma coroa sobre a cabeça e uma grande capa. Faz uma breve parada na entrada de cena, aguardando que o Papagaio se ponha à sua frente, em clara submissão a sua realeza numa grotesca encenação.

Papagaio:
- Senhor Leão é bom ser lembrado que mesmo sendo considerado o rei dos animais, “Vossa Alteza” terá que se apresentar como candidato e se submeter às avaliações como os demais.

Leão:
- Não creio que tenha que me apresentar. Todos aqui já me conhecem o suficiente para que eu seja aclamado como verdadeiro rei.

Papagaio: (Já impaciente)
- Deve estar havendo um engano. Todos foram convocados a serem candidatos, isto é, espontaneamente se apresentarem e aceitarem as regras da convocação. Portanto, o regulamento é claro e deve ser cumprido na íntegra.

(O Leão lança um olhar de indignação ao papagaio e segue adiante, saindo de cena arrastando a grande capa).

(Mal entra em cena, a Pomba já vai se apresentando).
Pomba – Desde os tempos de Noé, em obediência à vontade de Deus, nós as pombas, estamos voando, oferecendo a paz, mas nem sempre encontramos quem a queira, mas de minha parte, não desisto, pois sou conhecida como a Pomba da Paz e se estamos precisando de paz nesta floresta, estou aqui para dizer que sou candidata.

Papagaio: (Preenche rapidamente a ficha de inscrição)
- Sim Senhora Pomba, estamos precisando de muita paz e é um prazer tê-la como candidata.

(Aproxima-se da mesa um lindo Pavão, pára diante do cartaz e põe-se a ler)
Papagaio: (Em tom de pilhéria começa a cantar em falsete)
Pavão misterioso, pássaro formoso, tudo é mistério nesse teu voar
Ah, se eu corresse assim, tantos céus assim
Muita história eu tinha prá contar
Pavão misterioso nessa cauda aberta em leque
Me guarda moleque de eterno brincar
Me poupa do vexame de morrer tão moço
Muita coisa ainda quero olhar.....

Pavão – Eu ouvi a apresentação da Dona Pomba, quantas qualidades! Tudo bem, mas obediência só não basta... É preciso também apresentar beleza e, convenhamos, beleza é com o Pavão... (dirigindo-se ao público) – Cá p’rá nós, como tem gente, digo, bicho feio nesta floresta, precisamos mudar um pouco essa situação, portanto: para vosso rei vote no Pavão.
Papagaio: (após completar a ficha de inscrição)
- Tudo bem senhor Pavão! O senhor agora também é um candidato e, diga-se de passagem, um grande candidato. Digo mais, quase imbatível! O senhor tem tudo para ser eleito.
(O Pavão fica contente com a bajulação e se afasta satisfeito da vida).
(Toda atenção é dada para a nova personagem que aponta na entrada de cena. É uma linda ovelha que vem se aproximando, vagarosamente. Olhar de assustada, um pouco apreensiva, ou talvez indecisa. Olha para um lado, para o outro. O Papagaio vai ao seu encontro).

Ovelha:
- Muito obrigada pela acolhida. Mesmo não sendo do meu feitio, afastar-me de meu rebanho, resolvi candidatar-me assim que tomei conhecimento de que haveria a escolha. Nós, as ovelhas, sempre fomos reconhecidas como os mais dóceis dos animais e com certeza faríamos um bom reinado. De que adianta sermos forte e bonita e não sermos obedientes. Para haver respeito na vida, temos que ter obediência...

Papagaio: (Interrompe a ovelha entregando uma ficha de inscrição e dirigindo-se ao público)
- Que ninguém se engane ao ver um animalzinho com aparência tão frágil, sua obediência faz da senhora Ovelha uma grande candidata. Por favor, é só assinar e pronto!

(Entra em cena o Sapo, prontamente preenche sua ficha de inscrição)
Sapo: - Bem, “beleza não põe mesa” já diz o ditado. Eu, o Sapo, ainda que feio e assustador, tenho cá minhas utilidades. Sou um animal útil, devo ser o Rei...

Papagaio: (Com um sorriso sarcástico)
- Não há dúvida, estamos diante de um “b-e-l-o” e útil candidato.

(O Sapo se faz de desentendido da provocação e retira-se de cena)

(Aproxima-se da mesa a Coruja que é saudada com alegria pelo Papagaio)
Papagaio: Professor Sabino que honra em tê-lo como candidato, logo se vê que não podíamos passar sem termos uma pessoa, digo, um animal, de brilhante cultura como candidato. Verdadeiro fecho de ouro! Aqui está sua ficha é só...
 
Coruja – (Ajeitando os óculos) - Não senhor Papagaio, não sou candidato, só passei aqui para cumprimentá-lo e ao Noélio pela brilhante idéia de promover esse evento. (Dirigindo-se para o lado em que se encontra o jovem Noélio). Por favor, meu jovem aproxime-se.
(Em tom de discurso prossegue o professor Coruja com emoção)
Coruja: - Estão matando nossos rios, e com isso nossos irmãos peixes, estão se acabando. As flores murcham e as árvores choram e são poucos os que se preocupam com isso. Não podemos nos esquecer que toda essa beleza foi criada para ser apreciada e usufruída. (Faz um breve intervalo e prossegue)
- Gostei das apresentações, realmente todos se mostraram fortes candidatos, porém, para sermos justos na escolha, não podemos nos esquecer de ninguém, (e se aproximando do público, prossegue).
- Crianças, quem vocês acham que deve ser o Rei dos Animais?....
- Prestem atenção, existe um animal que não foi lembrado e que:

1 – Não é tão alto quanto a GIRAFA, mas inventou a escada...

2 – Não é forte como o TOURO, mas criou a máquina para fazer força para ele...

3 – Não tem a cega obediência da OVELHA, mas sabe a quem obedecer...

4 – Pode até não ter a beleza do PAVÃO, mas não é tão feio assim...

5 - Claro que não voa como a ÁGUIA, mas inventou o avião.

6 – Não chega a ser tão horrível quanto o SAPO, mas tem sido útil para a Natureza.

7 – Para que ter memória de ELEFANTE, se ele criou a calculadora, a agenda, o computador?...

8 – As obras que ele faz são de dar inveja a qualquer FORMIGA.

9 – Puxa, é só lembrar os grandes pensadores deste mundo, são bem melhores que a própria CORUJA.

10 – E o que dizer dos aviões supersônicos, suas velocidades deixam qualquer COELHO de boca aberta.
11 – Ah, o animal de que estamos falando, fala muito mais que o PAPAGAIO. Principalmente, se for do sexo frágil...

12 – O nosso escolhido é mais rei que o próprio LEÃO, pois o domina.

- E agora, já descobriram de quem estamos falando?...

- Então, quem é o O ESCOLHIDO?
Laerte Creder Lopes
Enviado por Laerte Creder Lopes em 24/11/2007
Código do texto: T751129
Classificação de conteúdo: seguro

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