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COMO LER O OLHAR DE ALGUÉM


     Há pessoas que se entregam facilmente. Expõem o que são. Mostram seus gostos, aversões e manias. Suas atitudes, muitas vezes, são previsíveis. Seus sorrisos não conseguem disfarçar, nem quando soltaram um "pum". Como um cantor que só almeja a fama e o dinheiro, fingindo provar o contrário. Por outro lado, há seres que não entregam, indistintamente, o que pensam, gostam, odeiam ou têm vontade de fazer, quando os contrariam. Algo do tipo, ler uma obra de aritmética abstrata, onde os cálculos não se entregam facilmente. Ou seja, eles acasulam-se. Prendem-se em paredes invisíveis, com muralhas transparentes de solidão. São criaturas secretas, subterrâneas. Logo, diante deste quadro de contrastes, surgem indagações: Qual é o mais verdadeiro e humano, o silencioso ou o sirene de ambulância perdida? Qual é o mais feliz no amor? Será que não somos sempre uma aglutinação desses dois, e nossos amigos também?

     Somos sempre levados a acreditar que as respostas, a estas questões, estão sempre dentro de nós, no nosso "eu". O que não deixa de ser verdade. Porém, não uma verdade pura, cristalina, como lágrima de criança. Sim, parcial e fantasiosa. Como a idéia de democracia no Brasil. Pois, ao contrário do que dizem os gramáticos, a verdade e o amor não são abstratos, impalpáveis. No tocante, eles o são. E podem ser notados facilmente, sem o auxílio de detectadores de mentida ou policial metido a juiz, ou ainda sogras açougueiras. A verdade e o amor não estão dentro das palavras ou gestos, todavia, exclusivamente, no olhar. No fundo dos olhos. Onde só se ver com bastante atenção e cuidado. Não o cuidado de um marido, que se acha esperto, ao dizer a seu melhor amigo, que transou com a cunhada ou a secretária do escritório. Mas, sim, o de um serial "Killer" ou deputado ladrão. Atencioso e preciso.

     No olhar há a alma. Sua exata cor. Suas janelas ocultas. Tudo o que se quer, ou se queria saber, ou se dissimulava. Lá. É gritante. Nossos olhos são inimigos íntimos. Traidores do bem ou do mal. Se nos apaixonamos ou mentimos, eles, no momento mais impróprio, nos entregam. Constrangem-nos. Humilham-nos. São bombas prontas a disparar, no entanto, sem relógio, para que possamos nos prevenir. São labirintos e oceanos, às vezes. Porém, quase sempre fofoqueiros de plantão na nossa face.

     Prestemos mais atenção no olhar das pessoas que lidamos. Olhemos nos olhos, não só para saber se a pessoa bebeu. Como algumas mulheres fazem com os maridos, e vice-versa. Mas, para saber como elas são. Como realmente são. O que estão pensando ao falarmos. Como é o cheiro da sua alma. Se podemos contar com elas para sempre, ou se são apenas colegas. A verdade e o amor são visíveis pelos olhos. Não olhemos somente para o sexo, seios, pernas, cabelos e afins. Olhemos para os olhos. Os olhos nos dirão mais sobre nós, e sobre os outros, do que qualquer ficha médica ou passado. Aliás, o passado não interessa se o olhar for verdadeiro. Apesar de ser um dos exercícios mais complexos da humanidade, o olhar nos olhos. Ele é essencial, preciso. Pois, nunca se deve confiar num homem ou mulher que não olha nos olhos quando fala. Sendo assim, não é o silencioso ou o falante, que é mais ou menos, confiável e, sim, o que saí dos seus olhos, que irá dizer o que são ou serão.
Emanoel Rodrigues
Enviado por Emanoel Rodrigues em 10/12/2008
Código do texto: T1328175

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Sobre o autor
Emanoel Rodrigues
Vitória de Santo Antão - Pernambuco - Brasil, 33 anos
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Emanoel Rodrigues



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