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TODOS PECARAM

Todos Pecaram

O Mistério da Impiedade


Raniero Cantalamessa — A vida sob o senhorio de Cristo


O tema desta meditação é o que ocupa a primeira seção da epístola aos Romanos (Rm 1,18-3,20) e que o Apóstolo resume, no fim, com a famosa afirmação: “Todos pecaram e estão privados da glória de Deus!” (Rm 3,23). A S. Paulo não interessa tanto expor diretamente o que é o pecado quanto, de preferência, que o pecado existe, afirmar que “todos estão debaixo do domínio do pecado” (Rm 3,9), sem excluir ninguém. De fato, porém, acaba declarando também o primeiro — ou seja, o que é o pecado — e é precisamente o ensinamento que queremos colher agora.

“Quem sabe o que é o pecado?”, dizia na Vulgata o versículo de um salmo que fez meditar gerações inteiras de cristãos: “delicta quis intelligit?” (Sl 19,13). Uma coisa podemos ao menos responder com segurança: só a revelação divina sabe realmente o que é o pecado, não o homem, nem qualquer ética ou filosofias humanas. Homem algum pode dizer, por si mesmo, o que seja o pecado, pelo simples fato de que ele mesmo está em pecado. Tudo o que ele diz do pecado, no fundo, não pode passar de paliativo, de atenuação do próprio pecado. “Ter uma idéia fraca do pecado — disse alguém — é condição da nossa realidade de pecadores” (S. Kierkegaard).
No coração do ímpio — diz a Escritura — fala o pecado... Ele se engana a si mesmo ao procurar a sua culpa e detestá-la (Sl 36,2-3). O pecado também “fala”, como faz Deus na Bíblia; também ele profere os oráculos e a sua cátedra é o coração do homem. No coração do homem fala o pecado; por isso é absurdo esperar que o homem fale contra o pecado. Eu mesmo que estou aqui a discorrer sobre o pecado e por isso deveria dizer-vos: não vos fieis demais em mim e do que vos digo! Ao menos, ficai sabendo o seguinte: que o pecado é algo mais sério do que eu conseguirei fazer-vos compreender. O homem, por si só, poderá no máximo chegar a compreender o pecado contra si mesmo, contra o homem, não o pecado contra Deus; a violação dos direitos humanos, não a violação dos direitos divinos. E de fato, considerando bem, vemos que é isto que acontece à nossa volta, na cultura que nos cerca.

Por conseguinte, só a revelação divina sabe o que é o pecado. Jesus confere mais precisão a esta noção, ao dizer que só o Espírito Santo está em condições de “convencer o mundo de pecado” (cf. Jo 16,8). Só ele pode exercer o papel de “advogado” de Deus e de Cristo, no processo contra o mundo, como lembrou o Sumo Pontífice João Paulo II, na sua encíclica sobre o Espírito Santo, intitulada Dominum et vivificatem. Por isso, deve caber a Deus falar-nos do pecado.

Se o mundo hodierno perdeu o sentido do pecado e não aceita mais o chamamento à ordem da Igreja, talvez seja porque pensa que, dizendo: “O Espírito Santo convence o homem de pecado”, a Igreja queira de imediato identificar-se com o sujeito da frase e não com o seu objeto, pondo-se a si mesma da parte do acusador, e os demais na parte do acusado, quando, na realidade, não é assim. Se de fato, por um lado — em virtude do mandato que recebeu —, ela está com o “Espírito” que convence de pecado, por outro — como realidade humana que é —, sabe que também ela faz parte do “mundo” que é convencido de pecado.

Eu dizia que ao próprio Deus compete falar-nos do pecado. De fato, quando quem fala contra o pecado é Deus, e não o homem, não é fácil permanecer impassível; a sua voz é um trovão que “derruba os cedros do Líbano”. A nossa meditação terá alcançado o seu objetivo se conseguir unicamente arranhar a nossa inabalável segurança fundamental e fazer-nos conceber um pavor salutar diante do imenso perigo representado para nós, não digo pelo pecado, mas pela simples possibilidade de pecar. Esse pavor se tornaria então o nosso melhor aliado na luta contra o pecado: “Tremei e não pecai”, diz a Escritura (Sl 4,5), isto é, tremei e não pecareis, tremei para não pecar! “Vós ainda não resististes até o sangue na vossa luta contra o pecado!” (Hb 12,4).

1. O pecado, recusa de conhecer a Deus.

Ouçamos pois, o apóstolo Paulo que nos revela o ponto de vista de Deus com respeito ao pecado: “A ira de Deus se revela do alto do céu contra qualquer impiedade e injustiça dos homens, que com sua injustiça sufocam a verdade. Porque tudo o que se pode conhecer de Deus lhe é manifesto: Deus lho manifestou. Desde a criação do mundo, a inteligência pode perceber as perfeições invisíveis de Deus, seu poder eterno e sua natureza divina, através de suas obras. Por isso é que para eles não há desculpa. Porque, mesmo conhecendo a Deus, não o glorificam como Deus, nem lhe deram graças, mas se perderam em seus raciocínios falsos, e o seu coração insensato mergulhou na escuridão. Pretenderam ser sábios e tornaram-se estúpidos! Substituíram a glória do Deus imortal por imagens que representavam homens mortais, aves, quadrúpedes e répteis” (Rm 1,18-23).

O pecado fundamental, objeto primário da ira divina, é caracterizado por S. Paulo como asebeia, ou seja, impiedade. Em que consiste ao certo esta impiedade, ele o explica logo, dizendo que ela consiste na recusa de glorificar (doxazein) e agradecer (eucharistein) a Deus. Em outras palavras, na recusa de reconhecer a Deus como Deus, em não tributar-lhe a consideração que lhe é devida. Consiste, poderíamos dizer, em “ignorar” a Deus, onde, porém ignorar não significa tanto “não saber que existe” quanto “agir como se não existisse”. No Antigo Testamento, ouvimos Moisés gritar ao povo: “Reconhece que Deus é Deus!” (cf. Dt 7,9) e um salmista repete este grito dizendo: Reconhece que o Senhor é Deus: ele nos fez e somos dele! (Sl 100,3). Reduzido ao seu núcleo germinal, o pecado está em negar este “reconhecimento”; é a tentativa, por parte da criatura, de eliminar por iniciativa própria, quase que por prepotência, a infinita diferença que há entre ela e Deus. Assim fazendo, o pecado ataca a raiz mesma das coisas; é um “sufocar a verdade”, uma tentativa de manter a verdade prisioneira da injustiça. Algo incomparavelmente mais tenebroso e terrível do que tudo que o homem possa imaginar e exprimir. Se o mundo soubesse o que é na realidade o pecado, morreria de pavor.

Esta recusa corporificou-se, em concreto, na idolatria, que consiste em adorar a criatura em vez do Criador (cf. Rm 1,25). Na idolatria, o homem não “aceita” Deus, mas institui um deus para si; a ele cabe resolver no que concerne a Deus e não vice-versa. Invertem-se os papéis: o homem torna-se oleiro de Deus, vaso que ele molda a seu talante (cf. Rm 9,20ss).

Até aqui, o Apóstolo expôs a involução efetuada no coração do homem, a sua opção fundamental contra Deus. Agora, passa a expor os frutos dela derivados no plano moral. Isso tudo deu ensejo a uma dissolução geral dos costumes, uma verdadeira e autêntica “torrente de perdição” que arrasta a humanidade à ruína, sem que ela sequer se dê conta. Nesta altura, S. Paulo traça este quadro impressionante dos vícios da sociedade pagã: homossexualismo masculino e feminino, injustiça, perversidade, avareza, inveja, engano, maledicência, soberba, insolência, rebelião contra os pais, deslealdade... A lista dos vícios é extraída dos moralistas pagãos, mas a figura de que dela resulta é a do “ímpio” da Bíblia.

O que, à primeira vista, é desconcertante, é que Paulo interpreta toda essa desordem como conseqüência da ira divina. De fato, por três vezes repete a fórmula que o afirma de modo inequívoco: Por isso (isto é, por causa da ira divina) Deus os entregou à impureza... Por isso Deus os entregou a paixões infames... Porque desprezaram o conhecimento de Deus, Ele os abandonou em poder de uma inteligência depravada (Rm 1,24.26.28). Deus, indubitavelmente, não “quer” coisas dessas, mas as “permite” para fazer o homem compreender onde leva a sua rejeição. “Estas ações — nota Sto. Agostinho —, embora sendo castigo, também são pecados, porque o castigo da iniqüidade é ser ele mesmo iniqüidade; Deus intervém para punir o mal e da mesma punição pululam mais pecados” (De nat. et grat.). O pecado é o castigo de si mesmo, pois a Escritura diz: Com as mesmas coisas pelas quais alguém peca, será depois castigado (Sb 11,16).Enquanto o mundo ainda dura, revela-se assim nele o juízo de Deus; Deus é “forçado” a abandonar os homens a si mesmos para não abonar a sua injustiça e para que eles voltem sobre os próprios passos.

2. “O mistério da iniqüidade está em ação”

Até aqui, S. Paulo denunciou o pecado da sociedade pagã do seu tempo, isto é, a impiedade que se manifestava na idolatria e trazia consigo, como conseqüência, a desordem moral. Se quisermos agora seguir o seu exemplo e aceitar de fato a sua lição, não podemos deter-nos aqui e fazer igualmente uma simples denúncia da idolatria da sociedade greco-romana do tempo do Apóstolo; devemos fazer como ele, isto é, lançar os olhos à nossa sociedade — como ele fazia com a sua — e descobrir a feição que a impiedade assumiu nela. O Apóstolo arrancou a máscara do rosto dos pagãos; revelou como por trás de todo o orgulho por si mesmos, da elevação dos discursos sobre o bem e o mal e os ideais éticos, na realidade disfarçavam a auto-glorificação e a auto-afirmação do homem, isto é, impiedade e falsidade. Cumpre agora deixarmos agir a palavra de Deus e veremos como arrancará a máscara do rosto do mundo moderno e do nosso próprio rosto!

Transportemo-nos, pois, para o mundo de hoje; atualizemos e historicizemos a Palavra de Deus, tentando ver se, e em que medida, ela também nos diz respeito, entendendo por ora “nós” no sentido mais genérico de “nós, homens de hoje”. S. Paulo concretizou a raiz do pecado na recusa de glorificar e agradecer a Deus, na irreligiosidade, que ele denomina, com termo bíblico, impiedade. Em outras palavras, na rejeição de Deus como “criador” e de si mesmo como criatura. Ora, nós sabemos que, na era moderna, esta rejeição assumiu uma forma consciente e descoberta que com certeza não tinha no tempo do Apóstolo e que, talvez, nunca teve em outra época da história. Por isso devemos reconhecer logo que “o mistério da iniqüidade está em ação” (cf. 2Ts 2,7); ele é uma realidade atual, não uma simples evocação histórica ou especulação metafísica.

Se insisto no pecado contra Deus — a impiedade —, não o faço por não existir em nosso mundo também o pecado contra o homem, ou por não ser este igualmente grave, mas porque ele, hoje, é reconhecido e denunciado por toda a parte, ao passo que o pecado contra Deus, que é a sua raiz, não mais se reconhece, ou é subestimado. O pecado contra o homem serve até de pretexto para negar o pecado contra Deus. “Todo o pecado — foi escrito ironicamente numa diatribe contra o cristianismo — é uma falta de respeito, um delito de lesa-majestade divina, e nada mais!... Se, por outro lado, se provoca um dano com o pecado, se com ele deita raízes uma grave e crescente calamidade que, como um contágio, aferra e estrangula os homens um depois do outro — tudo isto deixa indiferente em sua sede celestial esse oriental ávido de honrarias: pecado é a ofensa cometida contra ele, não contra a humanidade!” (F. Nietzche).

Quem escreveu tais palavras (e levianamente continua a apropriar-se delas) evidentemente não se lembra que é precisamente este Deus oriental, “ávido de honrarias”, quem diz, em Isaías, que não sabe o que fazer com o incenso, as orações, festas e sacrifícios, caso não se socorra o oprimido e não se faça justiça ao pobre, e quem não aceita outro jejum senão o que consiste em “desatar as cadeias, socorrer os oprimidos, repartir o pão com o faminto e vestir quem está nu” (cf. Is 1,10ss) e não se lembra de que, dos dez mandamentos dados por ele à humanidade, só três se referem às obrigações para com Deus, ao passo que todos os demais respeitam os deveres para com os homens.

Mas o motivo pelo qual insisto no pecado de impiedade é ainda mais profundo do que isso, e é que em toda esta parolagem sobre o pecado contra o homem — na qual se prescinde da Palavra de Deus — perde-se o conceito mesmo de pecado. Pecado não é mais “aquilo que é mau aos olhos de Deus” (cf. Sl 51,6), mas o que é mau aos olhos do homem. O homem determina o que é pecado, resolve por si mesmo o que é com e o que é mau; traça autonomamente a sua moral progredindo na história, “como um rio que, avançando, cava sozinho, o próprio leito”.

E isto significa recair na impiedade. Sem se dar conta, acaba-se dando uma definição do pecado perfeitamente “egoísta”. De fato, quando se contrapõe o pecado contra o homem ao pecado contra Deus, como nas palavras acima citadas, não se entende por homem o homem “em si”, mas o homem “em mim”, isto é, o nome que se identifica com a minha classe, a minha ideologia, os meus motivos, ou que posso aduzir como argumento contra meus adversários, para demonstrar-lhes a sua culpa. Quase nunca é o homem contra o qual eu peco, mas sempre o homem contra o qual os outros pecam. Destarte, essa “nova moral” que se estrutura prescindindo de Deus acaba, o mais das vezes, sendo igual à dos pagãos, “um vício esplêndido”, uma veste sedutora com que o egoísmo humano tenta encobrir a própria nudez. Com ela pode-se justificar até a supressão da vida inocente, como de fato acontece na prática do aborto, hoje generalizada e legalizada.

O pecado é o que é, e “se eleva a uma potência infinita”, só onde Deus está de permeio, quando quem peca existe e age na presença de Deus, quando, em outras palavras, Deus lhe serve de medida. Também o pecado contra o homem eleva-se a uma potência infinita, mas precisamente porque Deus está de permeio e também ele contrapõe-se a Deus. Voltemos, pois, sem nos deixar embair no engano, à tarefa que a Palavra de Deus nos atribui, que é denunciar a impiedade do mundo, e isto com um objetivo bem determinado: o de tomar consciência de que, à nossa volta, está ocorrendo uma guerra entre dois “reinos”, diante da qual não podemos permanecer neutros, e o de nos livrarmos, por isso, da superficialidade e de um certo otimismo ingênuo e pouco bíblico referente ao “mundo”. Ouçamos algumas vozes mais conspícuas que exprimiram a rejeição de Deus em nossa cultura atual, tendo presente, contudo, que nós julgamos as palavras e não as intenções e responsabilidades morais das pessoas, só de Deus conhecidas, e que poderiam ser muito diferentes do que se nos afiguram.

Karl Marx motivou assim a sua rejeição da idéia de um “criador”: “Um ser só se revela independente enquanto é senhor de si, e só é senhor de si enquanto deve a existência a si mesmo. Um homem que vive pela ‘graça’ de outro é considerado ser dependente... Mas eu viveria completamente pela graça de um outro se ele tivesse criado a minha vida, se fosse à fonte da minha vida e esta não fosse minha própria criação” (K. Marx, Manuscritos de 1844). A consciência de um homem é “a mais excelsa divindade”; “a raiz do homem é o próprio homem” (Crítica da filosofia do Direito de Hegel). Outra voz muito conhecida neste campo é a de J. P. Sartre: “Eu mesmo — faz ele dizer a um personagem seu — me acuso hoje e só eu também posso absolver-me, eu, o homem. Se Deus existe, o homem nada é... Deus não existe! Felicidade, lágrimas de alegria! Aleluia! Não mais céu. Não mais inferno! Nada mais do que a terra” (J. P. Sartre, O diabo e o bom deus).

Mas, na realidade, “não mais inferno”? Os homens de hoje especialmente os “intelectuais”, devem saber de onde provém este pensamento, segundo o qual o homem deve arvorar-se em fundamento último de si mesmo, seu verdadeiro descobridor... É dever de quem anuncia a Palavra de Deus revelar-lho para que cessem de enganar-se e enganar os simples e comecem também eles a “tremer”. O Novo Testamento fala muitas vezes de um “renascimento” do homem, descrito de vários modos, como renascimento “do alto”, “do Espírito”, “da Palavra de Deus”... S. João o descreve como um renascimento “não da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (cf. Jo 1,13).

Ora, também Satanás, quando Deus lhe permite “abeirar-se” de certas almas para tentá-las, propõe-lhes um renascimento. Isto corresponde a um hábito seu que é de arremedar as obras de Deus. Também o Maligno, pois, propõe ao homem renascer, mas renascer precisamente “da vontade do homem”, isto é, de si mesmo, não de Deus. Tal renascimento consiste na decisão lúcida de dar um novo começo à própria existência, desembaraçando-se de toda a dependência e considerando-se senhor absoluto de si mesmo. Deus, por vezes, nos seus desígnios misteriosos, permite ao inimigo sugerir semelhante pensamento até as almas que lhe são caras, para purificar-lhes a fé, e então sucede uma coisa misteriosa e tremenda que algumas destas almas descreveram para nosso encantamento.

O espírito do homem vive, por alguns momentos e como em provação (isto é, sem verdadeiro consentimento e responsabilidade moral), a embriaguez da liberdade satânica; sente em si um orgulho e um poder desmesurados, parece-lhe encontrar em outro universo do qual é soberana. Tem a sensação de poder tudo. Compreende o que significa a expressão usada nos evangelhos para descrever a tentação de Jesus no deserto: “Ele o conduziu ao alto” (Lc 4,5); de fato, a alma sente-se como librada acima do mundo, numa dimensão que é puramente interior, mas vivida de tal sorte que parece real e física. Experimenta uma espécie de êxtase, mas de sinal negativo, isto é, não voltado para a luz, mas para as trevas e o abismo.

Ao cessar o poder da sugestão satânica, a pessoa, atônita, pergunta-se: “Mas o que aconteceu? Que era isso?”, e, à luz de Deus, descobre o engano; percebe que o Maligno, mais uma vez, mentiu e descobriu-se para dano próprio. O renascimento da “vontade do homem” é, na realidade, um renascimento “da veleidade do homem”; é, portanto, uma veleidade de renascimento, não um renascimento real. De fato a criatura, inclusive Satanás, pode aspirar a tal coisa, mas não a pode efetuar, pois ninguém pode agir como se não houvesse recebido o próprio ser de Deus, muito embora o desejasse.

Assim, esta veleidade só faz crescer o desespero de Satanás e dos que, por desventura, o seguem nesta trilha. Ao invés de eliminar o inferno, essas afirmações, portanto, o demonstram. Mas o segredo do inferno que Satanás só descobre aos que mais não podem voltar atrás e cair na conta está todo incluído nestas palavras: “Eu existo e persisto em virtude do engano”. Ele se firma no engano. Faz parecer bom o que é mau, ou faz estimar como mal pequeno, inevitável, que todos cometem, aquilo que, ao invés, é grande mal; diz, como fez com Eva: “Não morrereis, pelo contrário...”, enquanto bem sabia que a conseqüência seria precisamente a morte.

Outro modo de abolir por prepotência a diferença entre o Criador e a criatura, entre Deus e o “eu”, consiste em... Confundir um com o outro, e esta é a forma que hoje a impiedade por vezes adota, no âmbito da psicologia profunda. O que Paulo exprobrava aos “sábios” do seu tempo não era estudar a natureza e admirar-lhe a beleza, mas ficar nisso; assim também o que a Palavra de Deus exprobra hoje a certa psicologia profunda não é ter descoberto uma nova zona do real que é o inconsciente humano e procurar deitar luz sobre ela, mas ter feito desta descoberta a enésima ocasião para livrar-se de Deus. Desta sorte a Palavra de Deus presta um serviço à própria psicologia, purificando-a, do que a ameaça, como de resto a psicologia pode servir, por sua vez — e efetivamente tem servido em muitos casos —, para purificar a nossa inteligência da Palavra de Deus.

A impiedade que se aninha em algumas tendências mais recentes desta ciência é a supressão da distinção entre o bem e o mal. Com um procedimento que lembra de perto a velha gnose herética, dilatam-se perigosamente as fronteiras: a fronteira do divino para baixo e a fronteira do demoníaco para cima, até confinarem uma com a outra, e sobreporem-se vendo no mal nada mais do que “a outra face da realidade” e no demônio, nada mais do que “a sombra de Deus”. Nesta linha, há quem se adiante a ponto de acusar o cristianismo de ter introduzido no mundo “a nefasta contraposição entre o bem e o mal”.

Lemos em Isaías uma sentença que parece ter sido pronunciada hoje mesmo, para a situação atual: Ai daqueles que chamam bem ao mal e mal ao bem, que trocam as trevas em luz e a luz em trevas (Is 5,20). Para os psicólogos desta orientação, o importante não é “salvar a alma” (isto é, posto completamente em ridículo), nem sequer “analisar a alma”, mas “manipular a alma”, isto é, permitir à alma humana — ou seja, ao homem natural — exprimir-se em todas as direções sem coibir nenhuma. A salvação consiste na auto-revelação, em manifestar-se o homem e sua psique por aquilo que é; a salvação consiste na auto-realização.

Atribui-se ao sonho mais verdade e importância que à Palavra de Deus, à doutrina da Igreja, ao bom-senso e à experiência multissecular. A salvação — pensa-se — está dentro, imanente ao homem; não vem da história, mas do arquétipo que se manifesta no mito e no símbolo; vem, em certo sentido, do inconsciente. Este último que a princípio era considerado sede do mal, onde se radicam as neuroses e as ilusões (entre as quais a “ilusão” de Deus), com uma desconcertante evolução numa “ciência”, agora é visto potencialmente como sede (se assim se pode dizer) do bem, como uma mina de tesouros escondidos ao homem. Quando rejeita, de saída, qualquer verdade revelada e qualquer referência à Palavra de Deus, o pensamento secular acerca do homem nada mais faz que oscilar entre uma afirmação e o seu oposto, sem nenhuma consistência, e deteriorar as próprias conquistas, misturando-lhes o erro.

“Tendo-se apartado da Verdade — dizia Sto. Irineu dos antigos gnósticos —, agitam-se em todos os erros deixando-se bambolear por eles; conforme as ocasiões pensam sempre diferente acerca dos mesmos argumentos, sem jamais ter um pensamento estável, porque preferem ser sofistas das palavras a ser discípulos da verdade. Não estão fundados na rocha única, mas na areia” (Sto. Irineu, Adv. Haer.). Um dia, depois de ter lido almas obras de psicologia profunda repletas das idéias aqui apontadas, impressionado e assustado, eu andava a perguntar-me que “juízo” faria Deus de tudo aquilo e a resposta veio-me inequívoca dentro em pouco, da leitura destas palavras de Jesus no evangelho de João: O juízo é este: a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque suas obras eram más (Jo 3,19). O Espírito Santo tem o poder de “convencer de pecado” também o mundo da psicologia profunda, orgulhoso e descuidado de Deus, ainda todo embriagado com a própria novidade e o próprio sucesso.

E, todavia não atingimos o fundo. As formas de impiedade que serpeiam no âmago da filosofia e da psicologia são mais perigosas porque propaladas por todos os meios, erigidas, em certos lugares, em sistemas políticos, impingidas acriticamente aos jovens nas escolas e universidades, porque afetam as idéias e os princípios que são o ponto nevrálgico de qualquer cultura, porque, afinal, se acobertam com o prestígio de que hoje goza a palavra “ciência”; mas não são em si mesmas, as mais graves. Há nelas muita presunção e não raro muita ignorância da verdadeira e autêntica experiência de fé.

À nossa volta, algo há bem mais tenebroso que preocupa menos, só por se manter oculto. Junto à negação intelectual de Deus do ateu convencido (honesta ou desonestamente) de que Deus não existe, há a negação voluntária de quem rejeita a Deus, embora saiba que existe, e o desafia abertamente dizendo: Eu não me submeto! “Non serviam!” Esta forma extrema de pecado, que é o ódio a Deus e a blasfêmia, traduz-se pelo insulto aberto e ameaçador contra Deus, em proclamar com alto e bom som, com sinais e gestos nefandos, a superioridade do mal sobre Deus, das trevas sobre a luz, do ódio sobre o amor, de Satanás sobre Deus.

Ela é manobrada diretamente por Satanás; de fato, quem mais do que ele seria capaz de conceber o pensamento que “o bem é um desvio do mal e, como todo o desvio, secundário e destinado há desaparecer um dia”, ou que “o mal não passa, na realidade, de um bem mal entendido”? As manifestações mais evidentes desta forma de impiedade são: a profanação da Eucaristia (o ódio desmedido e totalmente desumano contra a hóstia consagrada é uma terrível contraprova negativa da “presença real” de Cristo na Eucaristia para quem dela precisasse); a paródia, em estilo obsceno e sarcástico, das narrativas e ditos de Deus na Bíblia; a encenação da figura de Cristo em filmes e espetáculos intencionalmente dessacralizantes e ofensivos. O objetivo último é a perda das almas e a luta contra a Igreja.

Para despachar uma alma ao seu infernal senhor, essas pessoas são capazes de uma constância e de uma multiplicação de meios comparáveis aos que só os mais santos dentre os missionários sabem pôr em ação para lucrar uma alma para Cristo. Eu não sei a que aludiria concretamente S. Paulo quando escreve aos Efésios: De tudo o que é feito por esses em segredo, é vergonhoso até falar (Ef 5,12); sei, contudo, que estas palavras se aplicam à letra, à situação que estou descrevendo.

Por outro lado, tal situação não é tão remota como muitos cristãos poderiam imaginar; pelo contrário, é uma voragem aberta a dois passos da indiferença e da “neutralidade” em que eles vivem. Parte-se do abandono de toda a prática religiosa e acaba-se, um triste dia, entre os inimigos abertos e declarados de Deus, e isso ou pela adesão a organizações cujo objetivo (inicialmente mantido oculto à maioria) é guerrear a Deus e subverter os valores morais, ou por causa das aberrações sexuais e de um certo consumo de pornografia, ou em conseqüência de contatos imprudentes com magos, espíritas, seitas esotéricas e outra gente deste jaez.

De fato, a magia é outro modo e o mais grosseiro, de sucumbir à velha tentação de ser “como Deus”. “A força oculta que norteia a magia — assim se lê num manual deles — é a sede de poder, O objetivo do mago define-se primordialmente, com assaz propriedade, pela serpente do jardim do Éden... A eterna ambição do adepto das Artes Negras consiste em adquirir poder sobre todo o universo e fazer de si mesmo um deus”. Não importa se, na maioria dos casos, se trata de pura charlatanice; basta a intenção ímpia com que se exerce esta arte, ou se recorre a ela, para fazer cair sob o poder de Satã. Ele, na realidade, opera mediante a mentira e o logro, mas os efeitos da sua ação nada têm de imaginários.

Na Bíblia, Deus diz: Não se encontre em teu meio... quem exerça a adivinhação, ou o sortilégio, ou o augúrio, ou a magia; ou feitiços, nem quem consulte os espíritos, nem quem interrogue os mortos, porque qualquer um que faça essas coisas é objeto de abominação para o Senhor (Dt 18,10-12), e no profeta Isaías encontramos esta severa advertência: o Senhor ferirá o país porque este “regurgita de magos orientais e de adivinhos” (cf. Is 2,6). Os homens só têm dois caminhos lícitos para conseguir poder sobre si mesmos, sobre as doenças, sobre os acontecimentos, sobre os negócios, e estes dois caminhos são a natureza e a graça.

A natureza indica a inteligência, a ciência, a medicina, a técnica e todos os recursos que o homem recebeu de Deus na criação, para dominar a terra na obediência a ele; a graça indica a fé e a oração com que, por vezes, se obtêm até curas e milagres, sempre, porém, provindos de Deus, já que “o poder pertence a Deus” (Sl 62,12). Quando se envereda por um terceiro caminho, o da procura de poderes ocultos, conseguidos por meios ocultos, como que às escondidas de Deus, dispensando a sua autorização, ou certamente abusando do seu nome e dos seus sinais, então logo entra e cena, de um modo ou de outro, o senhor e pioneiro deste terceiro caminho, aquele que disse um dia que todo o poder da terra é seu e que o dá a quem lhe apraz, contanto que o adore (cf. Lc 4,6).

Nestes casos a ruína é certa; o mosquito caiu na teia da “grande aranha” e dela não sairá facilmente vivo. Está acontecendo na nossa sociedade tecnológica e secularizada exatamente o que Paulo observava: Enquanto pretendiam ser sábios, tornaram-se estúpidos (Rm 1,22): abandonaram a fé para abraçar toda a espécie de superstições, até as mais pueris.

Deste tipo extremado de impiedade, que é desprezo de Deus, não estão ao abrigo sequer os que moram na casa de Deus, isto é, os sacerdotes, religiosos, frades e freiras. Começa-se a tomar “liberdades”, passa-se ao sacrilégio e acaba-se num estado de rebelião surda e luta contra Deus. S. Bernardo a define “liberdade de pecar” e “hábito do pecado” e assim a descreve num monge: “Já que por um terrível juízo de Deus a impunidade vai ao encalço das primeiras culpas, sucede que o prazer, uma vez provado, repete-se e, repetido, enche de ilusões. Desperta-se a concupiscência, a razão adormece... Doravante só usa aquilo que lhe agrada, em vez daquilo que é lícito, como se não fizesse diferença alguma; doravante nada mais contém o seu ânimo, as suas mãos ou seus pés de pensar, cometer, procurar o proibido, mas tudo o que lhe acode à mente, à boca, entre mãos, ele o trama, o executa; mau, vaníloquo, desonesto” (S. Bernardo, De grad. hum. et super.).

Diz um salmo: Por que te gabas do mal, ó prepotente na sua infâmia? (Sl 52,1). Chegado a este ponto, o obstinado se gaba do mal, e até do mal acha modos de auferir glória, fazendo-o passar por sinceridade e rejeição da hipocrisia, sem se dar conta de que algo há ainda mais grave que a hipocrisia e a jactância do pecado (cf. Is 3,9); de fato, o hipócrita, disfarçando o seu pecado, mostra que ainda reconhece a superioridade do bem sobre o mal, presta homenagem à virtude, ao passo que quem se jacta do pecado mostra que também ultrapassou esta última barreira.

Se presta atenção, percebe-se que seus discursos contêm sempre um sutil laivo de acusação contra Deus, por causa dos seus mandamentos “impossíveis” e opostos à felicidade do homem. Qualquer preceito da moral é volatilizado com sutis distinções, de sorte a justificar toda a liberdade. Chega-se a fazer apologia aberta do pecado e o mesmo pecado é imputado a Deus por não conceder a sua graça! Tudo isso porém, de forma ambígua, dizendo e desdizendo, de modo a sempre deixar a possibilidade de fazer pé atras, e não se comprometer a ponto de ver-se obrigado a assumir as próprias responsabilidades e renunciar a um estado no qual, entrementes, se lograram todas as comodidades.

3. O salário do pecado

Mas consideremos também qual é o êxito da impiedade, para que não reste, na mente do homem, sequer sombra de dúvida de que alguém possa prevalecer contra Deus. No profeta Jeremias, lê-se essa palavra dirigida a Deus: Aqueles que te abandonam ficarão confusos (Jr 17,13). O abandono de Deus leva à confusão e ao extravio até de si mesmo; quem quiser salvar a própria vida perdê-la-á, dizia Jesus (cf. Mt 16,25). “Perda”, “extravio” são as palavras que ocorrem com mais freqüência na Bíblia, ao se falar de pecado: a ovelha perdida, a dracma perdida, o filho perdido...

A mesma palavra com que se traduziu em grego o conceito bíblico de pecado, hamartia, contém a idéia de extravio e de fracasso; dizia-se de fato, de um rio que perde o seu leito e se espraia num pântano, da flecha que, arremessada, erra o alvo e perde-se no vazio. O pecado é, portanto, um fracasso e um fracasso radical. Um homem pode fracassar de muitos modos; como marido, como pai, como homem de negócios; se mulher, pode fracassar como esposa, como mãe; se sacerdote, pode fracassar como pároco, como superior, como diretor de consciências... Mas são fracassos relativos; sempre deixam uma possibilidade de compensação; alguém pode fracassar de todos esses modos e ser uma pessoa respeitabilíssima, até mesmo um santo. Mas com o pecado não se dá o mesmo; com o pecado, fracassa-se enquanto criatura, isto é, na realidade fundamental, naquilo que se “é”, não aquilo que se “faz”.

Este é o único caso em que se pode dizer de uma pessoa o que Jesus disse de Judas: “Teria sido melhor para ele não ter nascido” (Mt 26,24). O homem, pecando, julga ofender a Deus, mas na realidade ele “ofende”, isto é, danifica e rebaixa somente a si mesmo, para vergonha própria: Mas será que — diz Deus — esses ofendem a mim, ou pelo contrário a si mesmos para a própria vergonha? (Jr 7,19). Recusando glorificar a Deus, o homem acaba ficando ele mesmo “privado da glória de Deus”. O pecado ofende, isto é, entristece também a Deus, e o entristece muitíssimo, mas só enquanto mata o homem a quem ele ama; fere-o no seu amor.

Mas tentemos aprofundar ainda mais o olhar nas seqüelas do pecado. S. Paulo afirma que o salário do pecado é a morte (Rm 6,23). O pecado conduz à morte; não tanto porém à morte como ato — que duraria um instante — quanto à morte como estado, precisamente àquela que foi denominada “a doença mortal”, que é uma situação de morte crônica. Nesta situação, a criatura anseia desesperadamente por voltar ao nada, mas sem jamais poder consegui-lo; por isso vive numa eterna agonia.

Daqui nasce a danação e a pena do inferno: a criatura é forçada por Alguém mais forte do que ela a ser o que ela não aceita ser, isto é, dependente de Deus, e o seu tormento eterno é não conseguir desembaraçar-se nem de Deus nem de si mesma (cf. Kierkegaard, A doença mortal). Podemos encontrar uma situação dessas antes de tudo em Satanás, no qual o pecado logrou perfazer todo o seu curso e mostra claramente onde vai desembocar. Ele é o protótipo daqueles que, “embora conhecessem a Deus (e como conheciam!) não lhe prestaram glória e graça como a Deus”.

Mas não é necessário recorrer à imaginação, ou a quem sabe que especulação teológica, para saber quais são os sentimentos de Satanás a este respeito, já que ele mesmo as clama em altos brados, como eu dizia acima, aos ouvidos das almas que Deus ainda hoje lhe permite tentar, como tentou Jesus no deserto. “Nós não somos livres — grita ele —; nós não somos livres! Ainda que eu te mate, a alma sobrevive, não a podes fazer morrer, não podemos dizer não. Somos forçados a viver para sempre. É uma burla! não é verdade que Deus nos criou livres, não é verdade!” Diante de tais pensamentos sentem-se arrepios, porque parece estar escutando ao vivo alguns fragmentos da eterna disputa entre Satanás e Deus.

De fato, ele almejaria ser deixado livre de voltar ao nada. Mas que significa isso: talvez Satanás desejasse não existir, anular-se como antagonista de Deus, causando assim enorme prazer a Deus e a todos os amigos do bem? Não, certamente. É verdade que ele não desejaria ser aquele que é e desejaria ser diferente; não porém no sentido de que desejaria ser bom, ao invés de mau (se assim fosse, estaríamos perante a conversão de Satanás, que, pela infinita misericórdia de Deus, faria dele nova e imediatamente um anjo de luz), mas antes no sentido de que almejaria ser independente de Deus, sem ter ninguém acima de si, a quem ter de agradecer pelo que é. Almejaria existir, mas não “por favor do outro”.

Isto porém, não obstante todos os seus esforços, nunca mais será possível, porque o poder que está acima dele é mais forte do que ele e o força a existir. E eis que se chega, por esta via, ao puro desespero. Foi dito com acerto que “querer desesperadamente desembaraçar-se de si mesmo é a fórmula de toda a desesperança” e que, por isso, “o pecado é desesperança” (Kierkegaard, op. cit.). Optando pela via da autonomia absoluta de Deus, a criatura sente que ela comportará infelicidade e trevas, mas aceita pagar até este preço porque prefere, — como dizia São Bernardo — “ser infeliz na soberania, a ser feliz na submissão”(“misere praeese, quam feliciter subesse”, De grad. hum.) mostrando assim que a eternidade do inferno, da qual tantos se escandalizam, não depende de Deus, que sempre está pronto a perdoar, mas da criatura que não quer ser perdoada e acusaria Deus de não respeitar a sua liberdade se o fizesse.

Nós hoje temos a possibilidade de verificar de modo mais concreto e acessível à nossa experiência qual é o êxito do pecado observando o que está acontecendo na nossa cultura atual, depois que a rejeição de Deus foi levada, em certos ambientes, às suas últimas conseqüências. Um filósofo que já mencionei — para quem o pecado não passava de uma ignóbil “invenção judaica” e o bem e o mal, de simples “preconceitos de Deus”`— escreveu estas palavras (novamente, julgamos as palavras, não as intenções): “Nós o matamos; nós somos os assassinos de Deus!”

Mas esta mesma pessoa, entrevendo depois, ou experimentando em si mesmo as sinistras conseqüências de tal ato acrescentou: “O que foi que fizemos, desprendendo este mundo da amarra do seu sol? Onde é que ele se move agora? Onde nos movemos nós? Não seria o nosso, um eterno despenhar-se? Para trás, de lado, à frente, por todos os lados? Não estaríamos talvez vagando como através de um infinito nada?” (F. Nietzsche, La gaia scienza). “Matar a Deus é deveras — como foi dito — o mais horrendo suicídio”. O salário do pecado é realmente a morte, e o niilismo de uma parte do pensamento moderno é a sua demonstração.

No termo desta viagem pelo mundo da impiedade, voltam-me à mente as palavras de um salmo de que ouso apropriar-me repetindo-o com aflição. Porque também eu
“Digo a quem se orgulha: “Não vos orgulheis”. E aos ímpios: “Não levanteis a cabeça!” Não alceis a cabeça contra o céu, não faleis contra Deus com insolência... Pois na mão do Senhor há uma taça repleta de vinho temperado. Dela dá a beber; deverão sorvê-la até as fazes, dela beberão os ímpios da terra” (Sl 75,5-9).

4. “Tu és este homem!”

Que parte temos nós (agora entendo “nós” no sentido de nós que aqui estamos, nós os crentes) neste tremendo requisitório que ouvimos contra o pecado? Atendo-nos a tudo o que foi dito até agora, pareceria de fato que nos assiste, mais do que a outrem, o papel de acusadores. Mas ouçamos bem o seguinte. Eu disse acima que o Apóstolo, com suas palavras, havia arrancado a máscara do rosto do mundo e também do nosso, e chegou o momento de indagar como é que a palavra de Deus leva a cabo esta segunda e mais difícil operação.

A Bíblia narra o seguinte fato: O rei Davi cometera um adultério; para encobri-lo, fez morrer o marido legítimo, de sorte que, em tais circunstâncias, tomar a mulher por esposa poderia certamente parecer, por parte do rei, um ato de generosidade para com o soldado morto por ele em combate. Um verdadeiro encadeamento de pecados. Então apresentou-lhe o profeta Natã, enviado por Deus. e narrou-lhe uma parábola (sem que o rei soubesse que era uma parábola). Havia na cidade — disse — um homem riquíssimo que tinha rebanhos de ovelhas, e também havia um pobrezinho, dono de uma só ovelhinha que lhe era muito cara, que lhe propiciava o sustento e dormia com ele... Chegou à casa do rico um hóspede e ele, poupando as próprias ovelhas, apoderou-se da ovelhinha do pobre e mandou matá-la para prover a mesa do hóspede.

Ao ouvir tal história, desfechou a ira de Davi contra tal homem e disse: “Quem fez isto merece a morte!” Então Natã, interrompendo subitamente a parábola, disse a Davi: “Tu és este homem!” (cf. 2Sm 12,1ss). O mesmo faz conosco o apóstolo Paulo. Depois de nos ter induzido a uma justa indignação e horror à impiedade do mundo, passando do capítulo primeiro ao segundo da sua carta, como se voltasse de golpe contra nós, ele nos repete: “Tu és este homem! Portanto és inescusável — diz — quem quer que sejas, ó homem que julgas, porque enquanto julgas os outros condenas a ti mesmo; de fato, tu que julgas fazes as mesmas coisas. Contudo, nós sabemos que o juízo de Deus é conforme à verdade contra os que cometem tais coisas.

Talvez penses, ó homem que julgas os que cometem tais ações e entretanto fazes o mesmo, escapar à ira de Deus (Rm 2,1-3). A reaparição, neste ponto, do termo “inescusável” (anapologetos), usado acima para os pagãos, não deixa dúvida acerca das intenções de Paulo. Enquanto julgavas os outros — diz ele — condenavas a ti mesmo. O horror que concebestes contra o pecado, é hora de voltá-lo contra ti.

O “que julga” revela-se, no decorrer do capítulo segundo, como sendo o judeu; mas aqui ele tem a acepção de tipo. “Judeu” é o não-grego, o não-pagão (cf. Rm 2,9-10); é o homem piedoso e crente que, fiado em seus princípios e possuidor de uma moral elevada, julga o resto do mundo e, julgando-o, sente-se em segurança. Neste sentido, “judeu” é cada um de nós. Dizia bem Orígenes que, na Igreja, quem deve ser posto na mira dessas palavras do Apóstolo são os bispos, os presbíteros e os diáconos, isto é, os guias, os mestres (cf. Orígenes, Comm. in ep. Rom.).

O próprio Paulo sofreu este impacto quando de fariseu se tornou cristão e, por isso, pode agora falar com tanta segurança e apontar aos crentes o caminho para sair do farisaísmo. Ele desmascara a estranha e freqüente ilusão das pessoas piedosas e religiosas de se manterem a salvo da cólera de Deus, só por terem um conceito claro do bem e do mal, conhecerem a lei e, dada a ocasião, saberem aplicá-la aos outros, enquanto, no que se lhes toca, pensam que o privilégio de estar da parte de Deus ou, de qualquer modo, a “bondade” e a “paciência” de Deus, que bem conhecem, abrirão para eles uma exceção.

É como se, enquanto um pai está censurando um dos filhos por uma transgressão qualquer, um outro filho, igualmente culpado, imaginasse provocar a simpatia do pai e eximir-se da censura, simplesmente pondo-se também a ralhar o irmão em voz alta, enquanto o pai esperava algo bem diferente, isto é, que, ouvindo-o censurar o irmão e vendo a sua bondade e paciência para com ele, corresse a atirar-lhe aos pés confessando-se também réu da mesma culpa e prometendo emendar-se: Ou desprezas a riqueza da sua bondade, da sua tolerância e da sua paciência, sem reconhecer que a bondade de Deus te impele à conversão? Tu, porém, com tua dureza e teu coração impenitente, acumulas cólera sobre ti para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus (Rm 2,4-5).

“Não percebes que a bondade de Deus te está impelindo à conversão? Tu, com a tua dureza de coração, estás acumulando cólera sobre ti...!” Que terremoto, no dia em que te deres conta de que a palavra de Deus está falando assim precisamente para ti, e que aquele “tu” és tu mesmo! Sucede como quando um jurista está todo ocupado a analisar uma famosa sentença de condenação emitida no passado e que faz autoridade, quando, de improviso, observando melhor, percebe que tal sentença se aplica também a ele: de repente muda o seu estado de ânimo e o coração deixa de pulsar com segurança. Aqui, a palavra de Deus está empenhada num legítimo tour de force; ela deve inverter a situação daquele que a está tratando. Aqui, não há escapatória: forçoso é “desabar” e dizer como Davi: Pequei! (2Sm 12,13). Caso contrário, sobrevem-lhe um ulterior endurecimento de coração e a impenitência corrobora-se. Da escuta desta palavra de Paulo sai-se ou convertido ou empedernido.

Mas qual é a acusação específica que o Apóstolo lança contra os “piedosos”? A — diz ele — de cometer “as mesmas coisas”? No sentido de “materialmente” as mesmas? Também isso (cf. Rm 2,21-24); mas sobretudo as mesmas coisas quanto à substância, que é a impiedade e a idolatria. Há uma idolatria larvada, que está de contínuo em ação no mundo. Se a idolatria é “adorar a obra das próprias mãos” (cf. Is 2,8; Os 14,4), se idolatria é “colocar a criatura em lugar do Criador”, eu sou idólatra quando coloco a criatura — a minha criatura, a obra das minhas mãos — no lugar do Criador.

A minha criatura pode ser a casa ou a igreja que estou construindo, a família que educo, o filho que pus no mundo (quantas mães, mesmo cristãs, sem se dar conta, fazem do filho, especialmente se único, seu deus!); pode ser o trabalho que faço, a escola que dirijo, o livro que escrevo... Há além disso, o ídolo-mor que é o meu próprio “eu”. De fato, no fundo de toda a idolatria encontra-se a autolatria, o culto se si mesmo, o amor próprio, o pôr-se no centro e no primeiro lugar do universo, sacrificando-lhe todo o resto. A “substância” é sempre a impiedade, o não glorificar a Deus, mas sempre e só a si mesmo, o fazer servir até o bem, até o serviço que prestamos a Deus — mesmo a Deus! —, para o próprio êxito e a própria afirmação pessoal.

De fato, se é verdade que tão freqüentemente os que defendem os direitos do homem na realidade defendem os próprios direitos, não é menos verdade que, mui freqüentemente, até os que defendem os direitos de Deus e da Igreja fazem outro tanto, isto é, defendem, na verdade, a si mesmos e os próprios interesses, e é por isso que também hoje “o nome de Deus é blasfemado por nossa causa entre os pagãos” (Rm 2,24). O pecado que S. Paulo denuncia nos “judeus” ao longo de toda a carta é propriamente este: procurar uma justiça própria, uma glória própria e procurar obtê-la até da observância da lei de Deus.

Talvez a esta altura, entrando em mim mesmo, esteja eu pronto a reconhecer a verdade, ou seja, que até agora vivi “para mim mesmo”, que também eu estou implicado, embora de modo e em grau diferente, no mistério da impiedade. O Espírito Santo me “convenceu de pecado”. Começa para mim o milagre sempre novo da conversão. Que fazer nesta situação delicada? Abramos a Bíblia e entoemos também nós o “De profundis”: Das profundezas clamo a ti, Senhor (Sl 130). O “De profundis” não foi escrito para os mortos, mas para os vivos; o “profundo” do qual o salmista eleva seu grito não é, de per si, o do Purgatório, mas o do pecado: Se consideras as culpas, Senhor, quem poderá subsistir?

Está escrito que Cristo “foi em espírito anunciar a salvação também aos espíritos que aguardavam na prisão” (cf. 1Pd 3,19) e um padre antigo comentava este fato dizendo: “Quando ouvires dizer que Cristo, tendo descido ao Hades, libertou as almas que ali eram mantidas prisioneiras, não penses que estas coisas estejam muito distantes das que se realizam ainda hoje. Crê-me, o coração é um sepulcro” (Macário Egípcio, De libert. mantis). Nós estamos agora espiritualmente na situação dos “espíritos encarcerados” que aguardavam no Hades a vinda do Salvador e que, nos ícones, são vistos estender as mãos desesperadamente para agarrar a destra de Cristo que vem, com a sua cruz, arrancá-los do cárcere. Elevemos também nós o grito do profundo cárcere do nosso “eu”, em que somos mantidos prisioneiros.

O salmo com que estamos rezando está todo orvalhado de confiante esperança e expectativa: Eu espero no Senhor... A minha alma espera pelo Senhor mais do que a sentinela pela aurora... Ele remirá Israel de todas as suas culpas. Já sabemos que o socorro existe, que é um remédio para o nosso mal, porque “Deus nos ama” e por isso, embora sacudidos pela palavra de Deus, permaneçamos serenos e digamos com confiança a Deus: Tu não abandonarás a minha vida na tumba, nem deixarás que o teu santo veja a corrupção (Sl 16,10).

Me deixa em paz
Enviado por Me deixa em paz em 20/01/2006
Código do texto: T101465

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Me deixa em paz
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