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Brilho Nos Olhos...

***Esse texto é grande, eu sei que nem todos terão paciência de ler, mais quem seguir até o fim vai sair tocado daqui, tenho certeza!!!!Portanto leiam quando puderem...***


Me lembro muito bem daquela quarta feira. Era um dia ensolarado, encontrei com minha mãe na porta do colégio. Saímos dali e fomos até o shopping onde iríamos almoçar. Carro estacionado, e partimos em direção a praça de alimentação, mais pedi a minha mãe que fosse na frente, pois eu teria que passar na papelaria antes.
Saindo da loja, me deparei com o rosto mais lindo que já vi em toda a minha vida, até hoje. Era uma criança linda que tinha olhos perfeitos, lindos olhos azuis e incríveis. O menino parecia ser bem loirinho, pois tinha pele clarinha, ele usava um boné azul que ressalta ainda mais seus belos olhos , mais parte de seu rosto se escondia atrás de uma mascara cirúrgica, também azul. Antes que perdesse aquela criancinha linda de vista, ele sorriu pra mim! Um meio sorriso...porque a mascara escondia parte dele! Mais seu rostinho se franziu!! Aquele sorriso me deixou feliz, me encantei com “o menino dos olhos azuis”.
Chegando no restaurante minha mãe já me esperava, no meu coração uma felicidade imensa, que eu jamais havia sentido. Contei a ela sobre o menino por quem me encantei minutos atrás, e em meio a conversa olhei para a mesa ao lado. Ele estava sentado junto com sua mãe, a mascara na mesa já não escondia mais o sorriso, sorriso este que nascia novamente pra mim! Aquilo foi demais pro meu coração feliz! O coração estava feliz e ao mesmo tempo apertado. Fui pra casa com a imagem do garotinho na mente, o que eu não entendia era a existência da mascara cirúrgica. Sempre tive vontade de ser voluntária no Centro Boldrini (Centro de Oncologia Infantil que obtem 70% de cura, nos casos diagnosticados no inicio). No dia seguinte lá estava eu, chegando lá fiz meu cadastro e logo depois segui rumo a brinquedoteca. Acreditem se quiser, mas a primeira criança que vi, foi o menino dos olhos azuis. Ele veio em minha direção, e fez com que eu me abaixasse. Ele não me conhecia, mais me reconhecia e me abraçou.
Chorei, chorei sim! De alegria por lhe encontrado, mais de tristeza por saber que aquele menino sofria de câncer. Foi um abraço carinhoso e aquele abraço me mostrou que eu estava no lugar certo.
E foi assim durante 6 meses, meses maravilhosos que passei junto das crianças que lá se tratavam.
Juninho tinha um caso raro de leucemia, o tratamento era experimental ninguém tinha certeza de nada, apenas ele, tinha a certeza de que queria brincar e sorrir. Admirava a força daquele menininho de apenas 3 anos.
Todos os dias ele me esperava em frente a recepção, com aquele riso gostoso. Aquele toquinho de gente era a pessoa mais alegre que eu já conheci. As sessões de quimioterapia, só começavam depois que eu chegava ao hospital, Juninho queria estar comigo. Durante as sessões Carla sua mãe ficava de um lado da cama e eu do outro.
Um dia ao chegar na frente da porta do hospital, vi que Juninho não estava na recepção, entrei em disparate em direção ao quarto 233, e lá estava ele chorando dizendo que não queria tomar os remédios, os médicos estavam pensando em seda-lo...pois ele não parava, quando cheguei ele sorriu... eu e Carla conversamos com ele, e ele tomou os remedinhos direitinho! Quando ele pegou no sono Carla veio me contar que ele estava com a imunidade muito baixa, e o remédio que os médicos haviam dado a ele, era pra baixar a febre para que ele não tivesse convulções. Fiquei muito preocupada, até que a enfermeira nos chama dizendo que Juninho havia acordado. Ele estava mais coradinho e um pouco mais calmo, só que eu tinha que ir embora, e disse a ele que logo de manhã eu estaria de volta. Ele segurou em meu braço e pediu pra que eu não fosse embora. Mais eu realmente precisava ir...ele insistiu pra me levar até a porta, a enfermeira permitiu depois de muita manha dele. Ele foi andando devagarzinho, com uma pantufinha que havia lhe dado, e eu fui levando ele juntamente com a bolsinha de soro.
Ele fez com que eu me abaixasse, do mesmo jeito que fez quando eu o conheci...

E ele me disse.

Juninho: Fica aqui comigo?
Eu: Não posso, minha precisa de mim um pouquinho em casa.
Juninho: Mais e se eu for embora?
Eu: Se você for pra sua casa, sua mãe vai me avisar e eu vou lá te ver!
Juninho: Eu tenho medo!
Eu: Não precisa ter medo sua mamãe está aqui, e amanhã cedinho eu venho pra brincarmos!

Ele me abraçou forte, e assim ficou por um tempo.
Quando me soltou sorriu, ele tinha um brilho nos olhos que encantavam, e me disse assim...

EU AMO VOCÊ

E eu disse TAMBÉM TE AMO....

E voltou devagarzinho pelo corredor do hospital. Aquela noite não consegui dormir fiquei pensando em Juninho o tempo todo.
Pela manhã fui até o hospital e encontrei Carla chorando no sofá da brinquedoteca, perguntei o que havia acontecido. E ela me disse que Juninho havia falecido, devido a uma parada respiratória, pela reação dos antibióticos com os medicamentos da quimioterapia. Foi duro agüentar, chorei muito...e até hoje lembro dele com saudade e alegria e nunca mais vou esquecer o brilho daquele olhos azuis!


No fim desse depoimento digo a vocês...

“Quem vos escreve é uma adolescente, que talvez não tenha problemas tão graves quanto os seus, mas pare e pense...Que essa criança sirva de exemplo, para que você possa resolver seus problemas sem reclamar da vida, que cada barreira sirva como lição.E que você tenha sempre o brilho nos olhos e o sorriso nos lábios! Pois ele sorriu quando foi se despedir de quem amava, mesmo sabendo que nunca mais a veria”
Thais Campidelli de Freitas
Enviado por Thais Campidelli de Freitas em 11/03/2006
Código do texto: T121713
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Sobre a autora
Thais Campidelli de Freitas
Campinas - São Paulo - Brasil, 28 anos
32 textos (2950 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 09/12/16 11:51)
Thais Campidelli de Freitas