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A você que sofre!

     Por que choramos uma grande perda? De quem temos pena: de quem se vai ou de quem fica? São perguntas renitentes cujas respostas desconhecemos, se vivemos esses instantes de dor insuportável.
     Um dia, eu chorei! Amava-a intensamente, fora de mim, suportando todos os seus defeitos. Nela havia menos qualidades. Ela não me amava mais; certamente nunca me amou. E ainda assim chorei! Sentia pena de mim, de minha solidão: eu vivi para, com, sobre, sob ela! E agora seria só.  A desalmada me destruiu, explodiu meus sentimentos, denegriu minha macheza, meu intelecto de homem, reduziu-me a poeira e fez-me pó: varreu-me de sua vida, lixo que me tornara. Eu chorei!
     Fiz análise... não, não fiz nada! Apenas fui pérola, fechado em minha concha calcária, introspectivo, hermético, ridículo. Não reconhecia ninguém: pai, mãe, filho, avó, irmão. Egoísta, ensimesmado, patético em minhas convicções. Vulcão extinto! E chorei...
     Queria eliminá-la de minha vida: suicidar-me, matá-la. Era covarde para quaisquer soluções drásticas, padrasto de minhas hipervalorizadas sensações. Adorava ver-me verme! Quis ser verme! Era verme! Parasita desprezível instalado no submundo de minhas entranhas putrefatas.
     Acompanhava seus passos dia a dia esperando a migalha que me saciasse a fome de desejo e a ausência de mim: “Ladra de alma, miserável criatura pérfida!”. Queria flagrá-la aos beijos e apertos, com a intenção imorredoura de convencer-me de sua total independência.
     Morri de amor?
     Um outro dia, muitos dias depois, eu acordei. Não dormia, apenas estava morto, sem vida nenhuma, e chorei! Dessa vez, não por piedade ou insanidade, mas porque entendi os meus porquês: nunca dividi com ela o meu amor, eu o entreguei; jamais fui eu mesmo, qui-la toda, de qualquer forma, com ou sem sobras; não admirava sua forma de amar, eu a amava como eu queria ser amado.
     Abri a torneira do chuveiro, água sulfurosa, e chorei mais. Chorei à desidratação, duas horas de rotas lágrimas. Não me enxuguei, quis olhar-me no espelho e, pela primeira vez, em séculos de sofrimento, não tive pena de mim. As lágrimas misturaram-se à água redentora e entendi que não fazia sentido aquela tristeza ultra-romântica: não há por que chorar por alguém que não nos ama. Choremos por um “eu te amo” ou um “Você é especial para mim” ou “Amanhã eu volto”; nunca chore por um “Não te amo mais!”: descubra e entenda que se um amor se vai, jamais ele foi amor!.
Nel de Moraes
Enviado por Nel de Moraes em 22/07/2005
Código do texto: T36744

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Sobre o autor
Nel de Moraes
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
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2 e-livros (297 leituras)
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Nel de Moraes