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DE PERTO NINGUÉM É NORMAL 

Falam do homem-sêr. Do homem ser louco. 

Todos os meus pares e conhecidos são normais. Todos são tão normais que chega a ser anormal a forma tão normal de serem.
 
Contudo todos convalescem do maldito mau da infâmia, pois comungam contra um "louco" afirmando ter se tornado louco sem ser louco no modelo sã.  Sim, isso mesmo, aqueles que o único defeito é o que mais "inveja" desperta no homem-sêr-louco. O de serem normais, normais demais!
          
Decerto incréu faze-no crêr e imaginar que estão a pregar-lhe uma peça? Fazê-lo pagar um mico? Mas será que taxam a loucura do sêr louco só por que, apenas, porém, o ser dito crazy quer se deixar existir. Apenas viver sendo assim?

Mas como louco de que jeito?

Digam-me como é ser louco? Ser louco é existir e ser verdadeiro à si próprio? Não sei, quando louco estiver a todos vos direi!

Contudo reconheço não sê-lo, tampouco o vejo nesse modus aberration de viver e ser " tão normal" ?
 
Será que ser normal é bom! Como será o lado bom de se ser normal?

Ocorre que sêr louco à vocês é não lhes fazer a vontade. É não ser o dito modêlo pessoal de hipócrisia. É não comungar do ser enérgumeno imbecil resignado; facista; inculto, odioso e  egóista; avarento e miseravel;  e, não se tornar o próprio verme  inerme em aparência e superficialidade. Ora, tenham paciência?

E assim, de sobra, impera a punição mascarada do afastamentoe e da indiferença. O gêlo. Punem com a mentira encardida, o rancor, a infâmia e a merda da inveja, essa vaca?

Saibas, creias tu "homem normal"   "ó pessoa sã e sana do bem", basta apenas que alguém atire um só grão sobre vossas casas, abrigos e telhados que demolirão tuas vidraças da tua "virtude moral"; sucumbirão tuas da verdades que são precárias; soçobrarão os teus pilares de mentira e até as bases do teu nada sobrarão.
 
Nada restará pedra sobre pedra. 

Ó criatura que ora em riste os ardis indóceis vertem em vômito e vociferam das vossas bocas quão fuligens negra, e  que por sê-lo o homem alvo há muitos cruéis artilheiros em brasa e fogo cuspindo-lhe a face e atirando-lhe na honra e na moral buchas ofídicas de canhão.

Sendo assim, "Despertada a minha atenção, não me foi difícil descobrir que tinha [como "tenho"] inimigos. Na minha profissão, em primeiro lugar, e depois, na minha vida social. A uns, tinha prestado serviços. A outros, deveria tê-los prestado. Tudo isso, em suma, estava na ordem natural das coisas e eu o descobri sem grande mágoa. Em contrapartida, para mim, foi mais difícil e doloroso admitir que tinha inimigos entre pessoas que mal ou nem sequer conhecia. Sempre tinha pensado, com a ingenuidade de que já lhe dei algumas provas, que os que não me conheciam não poderiam deixar de gostar de mim, se tivessem chegado a conviver comigo. Pois bem, nada disso! Encontrei inimigos sobretudo entre os que só me conheciam muito por alto e sem que eu próprio os conhecesse. Suspeitavam, sem dúvida, que eu vivia intensamente e num livre abandono à felicidade; isso não se perdoa. A aparência de sucesso, quando se apresenta de certa maneira, é capaz de irritar um santo. A minha vida, por outro lado, transbordava xde compromissos e, por falta de tempo, recusava muitas opotunidades! esquecia em seguida, pela mesma razão, o que havia recusado. Mais tais oportunidades tinham-me sido oferecidas por pessoas cuja a vida não era intensa e que, por esta mesma razão, se lembravam das minhas recusas.

Não nos perdoam a nossa felicidade, nem o nosso sucesso, a menos que se consinta generosamente em reparti-los. Mas, para ser feliz, é preciso não se envolver demais com os outros. A partir daí, as portas se fecham. Feliz e julgado, ou absolvido e desgraçado. Quanto a mim, a injustiça era maior: eu era condenado por felicidades antigas [e felicidades novas e atuais como ainda estou sendo]. Tinha vivido muito tempo na ilusão de um acordo geral [irmandade geral: amigos, cunhados [as], parentes, etc], ao passo que, de todos os lados, dissolviam-se sobre mim, distraído e sorridente, os juízos, as flechas e as zombarias. A partir do dia em que me dei conta, veio-me a lucidez, recebi [e tenho recebido] todos os ferimentos ao mesmo tempo e perdi de uma só vez as minhas forças. Todo o universo pôs-se, então, a rir à minha volta.

Eis o que nenhum homem [exceto os que não vivem, quero dizer os sábios] consegue suportar. A única defesa está na maldade. As pessoas  apressam-se, então, a julgar, para elas próprias não serem julgadas. Todos queremos recorrer de qualquer coisa! Cada qual exige ser considerado inocente, a todo custo, mesmo que para isso seja preciso acusar [difamar, caluniar e injuriar] o gênero humano e o céu.' [Albert Camus - A Queda - Editora Record]. 

Tão superficiais são os meus amigos normais em sua vã filosofia que quando falamos dum "bom",  falam do homem ideal. O homem ideal na ótica dos homens normais não bebe nem fuma, evita os palavrões, conversa na presença dos homens exatamente como se houvesse senhoras na sala presentes, frequenta a igreja regularmente, e tem opiniões corretas sobre todos os assuntos. Tem um salutar horror ao êrro, e percebe que é nosso doloroso dever castigar o Pecado. Tem ainda maior horror ao pensamento errôneo e acha que é dever das autoridades salvaguardar os jovens contra os que duvidam das opiniões geralmente aceitas pelos cidadãos de meia-idade que tiverem êxito na vida. À parte seus deveres profissionais, nos quais é assíduo, dedica muito tempo às boas obras:  incentiva o patriotismo e a instrução militar; promove a indústria, a sobriedade e a virtude entre os assalariados e seus filhos providenciando para que qualquer falta neste particular seja devidamente punida; talvez seja um dos vogais duma universidade, impedindo que o desmesurado respeito pelo saber permita contratar professores com idéias subversivas. Acima de tudo, naturalmente, deve ser imaculada a sua "moral", no sentido estreito da palavra.

Pode-se duvidar que um "bom", no sentido que descrevemos, pratique mais o bem do que o "mau". Por mau refiro-me a um homem que seja contrário da descrição. "Mau" é aquele que fuma e bebe ocasionalmente e até solta um nome feio quando alguém lhe pisa no pé. Sua palestra nem sempre poderia ser composta em tipo, e às vezes passa os belos domingos no campo, em vez de na igreja. Algumas das suas opiniões são subversivas; por exemplo, é capaz de achar que se a gente deseja paz deve preparar-se para a paz e não para a guerra. Em relação ao erro assume uma atitude científica, como procederia com o automóvel, se êste enguiçasse. Afirma que sermões e a prisão nem curam o vício nem remendam um pneu furado. No que tange a pensar mal, é ainda mais perverso.  Garante que o "pensamento errôneo" é simples pensamento, e que o "pensamento certo" é mera repetição de palavras, papagueamento; isto o faz simpatizar com tôda sorte de indesejáveis.

Todo este estado de coisas é mais ou menos o que meus conhecidos e amigos normais são em alma, corpo, atitude e discurso na atual sociedade  contemporânea. Assim sendo, como não sou exemplar modelo de virtude e correição posso-lhes servir pelo menos para a infâmia de ser louco. E assim sou taxato, carimbado, admoestado e etiquetado.    

A lição que se tira de tão lamentável equívoco é que poderíamos, como podemos começar a construirmos uma nova moral, não baseada na inveja e na restrição, mas no desejo de uma vida pródiga e na percepção de que outros seres humanos são um auxílio e não um obstáculo, uma vez curada a loucura da tua inveja. E que as pessoas, os seres aprendam a procurar a própria felicidade em lugar de difamar e provocar a desgraça alheia. O planêta se transformaria num mundo melhor sem a presença desses loucos doentes insanos, cheios de fantasmas, recalques, limitações, e o que é pior, infelizes de carteirinha, ao contrário da loucura  sadia, e totalmente imprescíndivel para a existência humana. 

E ainda dizem que sou louco? É que de perto ninguém é normal.

Podem me abraçar sem mêdo, eu não sou louco, já disse-lhes? Só não sou é normal. 


E viva a loucura?

SERRAOMANOEL - SLZ/MA - TRINIDAD - 27.10.2007. 
NOTA: FOTO ILUSTRAÇÃO ERASMO DE ROTERDAM [ELOGIO DA LOUCURA]
serraomanoel
Enviado por serraomanoel em 27/10/2007
Reeditado em 19/08/2008
Código do texto: T712890

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Sobre o autor
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São Luís - Maranhão - Brasil, 57 anos
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