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MENSAGEM DE BODAS DE OURO PARA MEUS PAIS: BASÍLIO E MARI


Hoje é uma data especial, afinal, passar cinquenta anos casados é uma demonstração de grande sabedoria e generosidade, pois nem todo mundo consegue absorver compreensivamente as lições da vida, nem todo mundo é capaz de fazer abdicações, de se comprometer com alguém, com filhos, com família. Essa é uma realização de poucos, e esses poucos são escolhidos de Deus. Vocês, painho e mainha, são pessoas escolhidas por Deus.
Para falar dessa data, sinto que preciso fazer um flash-back de nossa vida, ou seja, voltar no tempo. Esse tempo, que é minha infância, “se desenha em meu espírito com tão vivas cores, que parecem frescas de ontem”, todavia, mais de 40 anos pairam sobre ela.
Vejo-me menina com meus irmãos, brincando na lateral da nossa “casa rosa” ou no quintal, enquanto as roupas secavam no varal; posso ver mainha labutando na máquina de costura, ficando entre esta tarefa e os afazeres domésticos. Se fechar os olhos, posso escutar o hino do Senhor do Bonfim cantando exatamente ao meio dia, era hora de almoçar! Posso sentir o cheiro da comidinha caseira e saborosa...
Vejo painho, nosso herói policial, chegando e ajudando mainha a nos servir o almoço, cada um recebia seu prato pronto. Depois, alguns iam para a escola. Estudo sempre foi o maior objetivo deles para nós. Ai de quem vacilasse...
Eles também estudavam! Lembro-me que painho ia para o ginásio, mainha dava a maior força, na verdade, foi por incentivo dela! Logo depois que painho se formou, mainha retornou aos estudos e também se formou em professora. Agora imaginem a nossa situação: ir para o mesmo colégio que a nossa mãe! Tínhamos que ocultar nossas traquinagens muito bem, senão, umas boas palmadas esquentavam nossos “bumbuns”.
Hoje, posso dizer que as coisas eram bastante difíceis naquela época, coisa que provavelmente nem conseguíamos perceber de verdade, mas não faltavam cuidados e atenção, tanto materna quanto paterna. Ouço bem claro mainha nos proibindo de ir brincar a casa do vizinho, e nada de crianças de fora lá em casa, afinal, já éramos uma boa quantidade!!! Aí de quem desobedecesse, não é Adson? A cinta cantava... Mas olhem, era mainha quem regulava, painho ficava de boa, acalentando.
Mas a gente ria muito, vivia intensamente aqueles dias, curtia com muito gosto aquela vidinha mansa e despreocupada da infância, aqueles cavacos, banana real, bolinhos, cocadas, suspiros e o bom e velho k-suco, que hoje, dizem, mancha o pulmão, que nada! Nossos pulmões vão muito bem, obrigada! Daqueles bons tempos, tempos em que vivemos na casa dos nossos pais, resta uma grande saudade e muitas e valorosas lições de vida.
Nossos pais deixaram registrados em nossas memórias o exemplo de firmeza de caráter e de respeito uns pelos outros, a idéia de união familiar e de um laço muito forte de amor, mesmo que às vezes a gente se arranhe um pouquinho, afinal, somos humanos. Tenho certeza, porém, que o amor que nos une é mais forte que qualquer situação negativa que por ventura vivamos. Os valores que os nossos pais nos imputaram fizeram de nós pessoas do bem, corajosos, capazes de ir à luta pelos nossos ideais, com dignidade, sem pisar em ninguém, usando como armas a justiça, a verdade e o bom caráter.
Nossos pais, na particularidade de suas essências, nos deram relevantes exemplos: mainha, sempre corajosa e audaciosa, às vezes impulsiva e exagerada, mas infinitamente forte e batalhadora, que jamais se cansava, nem desistia de lutar para melhorar a nossa vida, para ver seus filhos saudáveis, formados, com uma profissão digna com que pudessem viver; painho, com esse jeito suave, às vezes desajeitado, confiava na força da mãe coragem, apoiava suas idéias e acalmava nossas inquietações. Nossa! Como eles são diferentes: ela é ação, ele mansidão; ela é de atitude, ele de confiança; ela impulsividade, ele sensatez; ela rebeldia, ele calmaria; e nesse jogo paradoxal de personalidades, eles foram vivendo e criando seus nove filhos.
Crescemos mais um pouco e adolescemos. Fomos adolescentes normais, que queriam viver e curtir as festas, namorar, ter roupas bonitas, andar na moda, como quaisquer outros. Entretanto, éramos muitos e a coisa ficava difícil.
Hoje, na posição deles, sinto-me triste pela tristeza que provavelmente eles sentiram por não poder nos dar aquilo que queríamos, sei o quanto é frustrante para um pai ou mãe ver seu filho desejar algo e não poder lhe satisfazer o desejo.
Queria lhes dizer, agora, que o que vocês nos deram foi muito melhor! Vocês ficaram ao nosso lado, todo o tempo, nos deram grandes exemplos, nos ajudaram a crescer, nunca nos abandonaram, nos amaram (e amam) incondicionalmente e trilharam os melhores caminhos para que nós pudéssemos seguir.
Hoje, somos adultos. E, sem hipocrisia, podemos afirmar que fomos muito felizes com vocês, até mesmo os castigos hoje parecem carinhos, porque sabemos o quanto é necessário ser firmes com crianças e jovens adolescentes. Imaginem estar com nove filhos, numa escadinha “aborrecente” de adolescentes?
Vocês foram bravos guerreiros e nós só temos que lhes agradecer e dizer do nosso imenso amor. Tomar como exemplo essa coragem de estar juntos por cinqüenta anos, com amor e algumas vezes desamor, com alegrias, mas também com preocupações, zangas, incertezas, porém, sem nunca desistir de continuar juntos e “abraçados” a essa causa digna e necessária que é a valorização da instituição família; sabemos que casamento não é só alegria, é também abdicação, medos, mágoas, desencontros e bastante sabedoria para saber retroceder e reconhecer que o que importa na vida é viver com intensidade tudo aquilo que nos propomos a fazer.
Vocês são o melhor e o mais límpido espelho em que podíamos nos mirar, por isso agradecemos a Deus por ter nos dado esse presente maravilhoso. Sei, sabemos (não é meus irmãos?), que vocês sentem nossa falta nos seus dias atuais, pois nem sempre podemos estar juntos, mas a vida é assim, os filhos não é exclusividade dos pais, eles crescem e criam asas, precisam ir para o mundo realizar sonhos. E é isso que estamos fazendo, nos realizando; mas creiam que o nosso cordão umbilical continua imperceptível e eternamente, nos prendendo a vocês. Que Deus abençoe suas vidas com saúde e serenidade para viver o tempo que vier e curtir a grande família que formaram: 09 filhos, 20 netos e 03 bisnetos (atualmente). Somos, seremos para sempre um só coração, uma grande família abençoada por Deus.                                                     12/06/2010




Nana de Pinho
Enviado por Nana de Pinho em 15/02/2011
Código do texto: T2792761
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Nana de Pinho
Entre Rios - Bahia - Brasil
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