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Declaração de amor perfeita.

Preciso de uma obra-prima romanesca, com palavras antes nunca usadas.
Tenho que descrever alguns já conhecidos sentimentos de uma maneira díspar, fugindo das mesmices dos poemas e textos já escritos.
Quero escrever, reafirmar, berrar o meu gigantesco amor por ela mais uma vez. Só que agora tem que ser de uma maneira esplêndida, porém sucinta para não me tornar repetitivo e desinteressante como qualquer mortal vulnerável a paixões extremamente avassaladoras só que momentâneas.
Talvez utilizando um vocabulário novo, expressões mais fortes e mais significativas que sejam completamente singulares eu consiga um mediano a bom resultado.
Falar ou ler sobre um amor que não seja o próprio é enjoativo, redundante, um pleonasmo melado de açúcar, mel, cores rubras - pois são as que mais me recordam o amor - borboletas e minúsculas três gotas de pimenta. Por isso necessito de algo inovador e chamativo com a finalidade das pessoas que não sentem essa minha moléstia por ela ache no mínimo: comovente.
Escrever sobre encanto e magia já aconteceu pelo menos um trilhão de vezes, assim como o brilho estelar ou o anoitecer em tardes de outono estão presentes em 91% das declarações - dado conseguido através de 11 anos de leitura poética e extremamente platônica.
Pensei em usar o francês ou o italiano que parecem ter um poder mais romântico e requintado tornando uma declaração singela em uma epopéia e com isso não me tachariam de antiquado.
Deuses gregos, a paixão dos heróis pelas ninfas, o surgimento do cupido, tudo isso também já foi usado em sonetos, sextinas e rondós de algum sábio famoso e bem mais capacitado que também ficou preso nas redes finas, mas não por isso menos resistentes do amor.
Até pensei, mas já os tranqüilizo revelando que desisti, ao invés de mais um texto ou poesia usar flores, jóias, chocolates ou aquele monte de breguice apaixonada – ignorante do bom senso e até da privacidade alheia - como uma serenata à moda antiga utilizando uma viola, acordeom e a coragem para encarar o pai da digníssima dama.
Preciso de uma obra-prima cujo estilo seja uma mistura byroniana e shakespeariana para que impressione gregos, troianos, ateus, hindus, xiitas, indígenas, vampiros ...
Usar o mar de inspiração, quem sabe compará-la a uma fada, isso tudo já foi usado até por mim em anos anteriores aonde a paixão queimava me dando as primeiras noções do que seria o amor, companheirismo, discussões perdidas e até mesmo noites aonde uma falta de elogio ao vestido novo deixaria tudo carrancudo.
Aviões com faixas “CASA COMIGO?” pintadas em rosa choque, rosas champagnes ou vermelhas jogadas por um helicóptero, um pedido de casamento por um indiscreto “Love Car”, muito utilizado em 1998, com locutores de voz à Cid Moreira estão completamente fora de cogitação.
Insinuações angelicais, promessas sob a luz da Lua, passeios nas gôndolas de Veneza, sonhos de uma Lua de Mel em Paris... O que há de inovador nessas idéias?
Uma descrição extensa sobre o prazer dos seus beijos, o afago de seus abraços, como seu cheiro é invejável até por Grenouille, a maciez da sua tez como a lã da vicunha, e mais oitocentos e dezessetes atributos que enxergo nela não serviriam como inspiração para minha obra-prima pois os créditos por eles já são de Deus.
Não cometer erros, fazê-la feliz, adivinhar todas suas vontades talvez isso seja uma obra-prima, mas aposto que muitos já tentaram também e eu com essas marcantes imperfeições humanas seria capaz de ser perfeito de modo a quase não ser humano? Por isso acho melhor tentar escrever mesmo.
Talvez um dia eu consiga.
Thiago Cica
Enviado por Thiago Cica em 26/05/2010
Código do texto: T2280497

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Sobre o autor
Thiago Cica
Guaíra - Paraná - Brasil, 30 anos
27 textos (1747 leituras)
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Thiago Cica



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