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ASSASSINATO LITERÁRIO!

Deveras...
Deveras?
Deveras!
Deveras mesmo...!
Nossa! Isto parece um assassinato literário!
Começar um texto com uma palavra solta...! É no mínimo maluquice.
Mas neste caso não é. Esse adjetivo “deveras”, representa neste meu textinho o peso de uma palavra.
E a palavra é: APANAN (APANÃ)!!!
Na nossa vida tudo é busca, pois um homem é o que é a sua vida.
O poeta Mário Quintana dizia: “A vida são deveres que nós trouxemos pra fazer em casa”.
Ás vezes as soluções desses problemas são rápidas e imediatas, e em outras ocasiões, leva-se séculos, eternidades, para se chegar a um bom termo. Mais tudo isto é compreensível, pois somos seres limitados, somos prisioneiros da “gaiola de ossos”. Pensamos ter livre-arbítrio, e temos. Só que o nosso livre-arbítrio é quase nulo. É como um violino dentro do seu estojo. Há uma margem mínima de movimentos para esse violino. Com o nosso livre–arbítrio imperceptível, vivemos a vida repetindo mecanicamente os diversos eventos da nossa existência passada, e tudo isto se deve, certamente, à multiplicidade do Eu, como bem nos ensina o Mestre Gnóstico, Samael. Diz ele, que ainda que pareça incrível, nós não fazemos nada, tudo acontece como quando chove ou como quando troveja. Esse Mestre, ainda nos ensina que necessitamos de um poder que seja superior à mente. Um poder que possa desintegrar qualquer Eu-Defeito “, e que este poder está latente no fundo de nossa psique”.
- Na Índia esse poder é conhecido como Kundalini, a Serpente Ígnea de Nossos Mágicos Poderes.
- Já entre os alquimistas da Idade Média, este poder recebia o nome de Stella Maris, a Virgem do mar.
- E entre os hebreus, tal poder recebia o nome de Adonia.
- Os cratenses o chamavam pelo nome de Cibele. Os cristãos de Maria ou Maya, isto é, Deus-Mãe. E, nós Umbandistas o denominamos de Orixás.
O “meu” deus-mãe é a Sra. Oxum, a minha mãe particular, íntima, a Kundalini, como diz os hisdus.
O meu textinho foi iniciado com uma palavra solta, ‘DEVERAS’, lembram-se? E aquela palavra traduz uma ‘realidade’, e esta realidade para mim se apresentou por meio de outra palavra solta, “APANAN”. E é nessa linha que vou apresentar algumas reflexões, também puxadas por outra palavra solta, “ONIRA”.
Essas três palavras na realidade se uniram para me puxar para dentro de um acontecimento que se deu lá pelos idos de 2002/2003, não me recordo com precisão à data. Entretanto, no sábado passado, dia 04 de novembro de 2006, depois do “rito de caridade” (Pais-Velhos!), o nosso mestre espiritual, condutor dos “trabalhos”, nos informou que haveria uma gira interna de avaliação e correção de postura para todos os filhos da “casa”.
 A gira começou com uma bela prédica, o nosso Mestre, nos mostrou os vários graus de consciência, isto é, os ângulos de interpretação do divino, salientando as várias diferenças de se “fazer umbanda”, e depois formou grupos de médiuns, seguindo o “orixá de cabeça” de cada um.
O meu grupo, “Oxalá/Oxum”, foi o primeiro a ser analisado. Após a desincorporação de cada grupo, o Mestre orientava os “filhos, ensinando-lhes técnicas de incorporação e desincorporação. Foi chamando grupo por grupo, até que chegou a vez do grupo de Iansã, a” deusa dos raios ““.
Nessas chamadas só poderiam incorporar os elementos dos grupos, mas, Por mais que tentei, não consegui segurar a “dona Iansã”, e ela passou. Girou, fez o que tinha que ser feito e subiu. Eu mais que depressa fui lá pro cantinho, perto dos atabaques, e fiquei assim..., Meio que escondido...!
O Pai pegou um irmão e foi mostrar-lhe que estava com o “pé-de-dança” errado, e que a “sua Iansã” era adversa daquele pé-de-dança, etc., pegou ainda uma menina e também a corrigiu. De repente disse: “esse menino...!” E passou a procurar no congá a pessoa a quem ele queria se referir. Quando os seus olhos me acharam, estacionaram sobre mim; juro que tive medo, e antes da bronca, me antecipei para me justificar; mas ele não me deu chances, já foi logo dizendo: “Raimundo, a sua Iansã é” Onira “, vocês não conhecem, mais ela existe, e quem a” puxou “pra você foi a sua Oxum. Elas são companheiras. Você não precisa se justificar porque não está errado. Isso foi obra da sua mãe -” Oxum Opará “–, ta tudo certo”, e continuando, disse-me: “você que é estudioso do assunto, pesquise e voltaremos a nos falar!” Eu mais que depressa, respondi, sim senhor.
Na terça-feira, dia sete de novembro, arrumei um tempinho e fui pesquisar a palavra “onira”. Qual não foi a minha surpresa quando busquei – IANSÃ ONIRA – e o que me foi mostrado!
"Yansã Onira" é a mãe de criação de "Logun-Edé Apanan".
"Logun-Edé Apanan!”!!
Quando o meu cérebro registrou a palavra Apanan...,
 Imediatamente uma campainha deu o alarme –
Apanan!
Êpa! Eu conheço este nome.
Apanan...
Apanããããã...
Meu Deus!
É o “menino chorão” que se apresentou lá no terreiro daquela vez...!
Ele me incorporou!
Ai o meu coração acelerou de vez!
Fiquei repetindo,
Apanan...!
Apanan...!
Apanan...!
Foi Apanan o nome com o qual aquela entidade Ibejis se apresentou no terreiro daquela vez...!
Ah!
Mas! Logun-Edé...?
Quem é Logun-Edé...?
Logun-Edé Apanan...?
Nossa! Não sei quem é não!
Sei que Logun-Edé é uma entidade que só “baixa” no candomblé!
"Logun-Edé Apanan"!
Quem é então...?
Será que é outro...?
Uma outra entidade...?
E foi com estas dúvidas que me aprofundei na pesquisa. E logo, logo, descobri que "Apanan" era uma qualidade do Orixá Logun-Edé.
A entidade criança!
O recém nascido!
O - EDÉ YBAYN – aquele que Leva carrinhos e bolas de gude, e que representa a infância; a pureza; a inocência, a fecundidade, pois ele é um recém nascido, e que seus fundamentos estão com sua mãe de criação Onira, sem ela Logun não caminha. Logun-Edé Apanan, o que "come" com Exu!
Ahhh! Nossa! Comecei a ficar assustado, no bom sentido, com o desenrolar da pesquisa.
Imaginava e me perguntava... Por que essas coisas maravilhosas estão acontecendo comigo?
Logo eu, que vaguei por um bom tempo pelos espaços da ignorância sem imaginar quem era e o que fazia!
Eu que vaguei perdido na diária variação de amores e dores, de perdas e ganhos, seguindo os ventos ou não..., Só indo...! Indo...! Indo...!
Porém, permaneci vivo afinal de contas e apesar de tudo.
Divaguei por algum tempo, fiz ilações e me recordei do momento que os Mestres astralizados da Umbanda me iniciaram na religião no ano de 2002.
Eu sei que quem jura não merece crédito, mais eu vou jurar!
Juro que os acontecimentos do “sábado” tinham um propósito.
Eu ainda não sabia qual era.
Mas já “desconfiava” da “deusa Onira!”.
Ela com certeza viera remexer no meu passado, um passado vergonhoso, por sinal.
Vejamos, então, se tenho razão ou não!
O que aconteceu naquele sábado no meu terreiro foi um fato simples, corriqueiro. Pelo menos era o que deveria ser. O fato do nosso “Pai de santo” determinar uma gira especial, é coisa normal. Faz parte do aprendizado dos neófitos.
A coisa começou a me surpreender mesmo foi quando a “Senhora Onira” trouxe para fora de mim através da palavra Apanan, um assunto que eu imaginava sepultado, e graças a Deus, que eu vim a descobrir o significado daquela gira, dias depois, senão, não sei! Talvez tivesse até saído correndo do congá se tivesse entendido de pronto a real intenção da mamãe Iansã.
É que a palavra Apanan surgiu como uma senha e me remeteu a uma das primeiras giras da minha vida, uma gira de “crianças”.
Naquela gira de Êres, como chamamos, eu simplesmente observava e achava tudo aquilo muito bonito. Não tinha participação direta; era neófito.
Quando o “pessoal começou a incorporar, ‘deveras’, era uma prática do não convencionalismo. Uma grande demonstração de leveza espiritual; isso eu entendia! Eles eram hábeis desmanchadores de complicações. Tudo até ali estava bem claro para mim”. Eu os observava e já começava a admirá-los, pois na nossa atribulada vida diária, é comum nos defrontarmos com inúmeras situações infelizes, que até chegam a nos comover, e muitas vezes, chegar às lágrimas.
Pensando assim, passei a me deliciar com o quadro que me era apresentado, aquela “porção” de adultos brincando de criança; sorriam, rolavam pelo chão, chupavam balas e pirulitos, tomavam guaraná, e fazia um tremendo barulho.
Ali, mergulhado no meu Eu, travado pela ignorância, tudo via, e a tudo assistia, e para mim tudo aquilo não passava de uma bela brincadeira, promovida por seres maravilhosos e que já estavam bem à frente de mim. Eu, com certeza absoluta, jamais me prestaria a tal papel, Imagina!
Mas, aquele pessoal era diferenciado, tinham atingido na escala da vida a condição de atores, e alegravam uma platéia (sic...). Eu via assim!
Como disse; desde o início das incorporações, fui para um canto e lá permaneci. Algum tempo depois, comecei a sentir uns tremores no corpo e fiquei um pouco zonzo. Achei tudo aquilo muito esquisito, pois estava com a saúde normal, não estava gripado nem nada, além do mais estava me deliciado com os acontecimentos que muito me alegravam, então, por que dos tremores? A explicação não tardou a chegar. Os tremores se intensificaram e com eles chegou um tipo de tristeza que me pôs a chorar. Eu não compreendia aquilo; não existia razão para tal; e ainda, eu sou um sujeito muito alegre, descontraído, e nada ali acontecia que justificasse esse meu estado! Eu não pensava no cotidiano da vida naquele instante; eu estava levinho, saboreando aquele momento de magia...!
Porém, comecei a perceber que uma determinada energia havia se apossado de mim e que estava me dominando por inteiro. Disso eu já tinha consciência.
A coisa se intensificou e eu deixei de responder pelos meus atos. Tinha consciência de mim, mas não me dominava, e foi assim que fui parar no meio do Congá, sentado sobre as pernas e mergulhado em prantos.
Por mais que tentei, não consegui me desvencilhar daquele quadro surpreendente. Então se aproximou de mim uma irmã na fé, e com um saco de balas nas mãos, ajoelhou-se ao meu lado e começou a conversar comigo como se eu não fosse eu. Pois ela se dirigia a mim com uma conversa completamente atravessada. Ela sabia o meu nome e naquele momento estava perguntando para mim qual era o meu nome!
- ”Como é seu nome?”.
- “Não chore não!”.
- “Tome uma bala!”.
A conversa não progredia, eu não conseguia entender o que estava acontecendo, não conseguia pronunciar o meu nome – Raimundo -, só chorava, o nariz escorria e eu limpava com a mão!
Como ela continuou insistindo no nome, de repente, uma força estranha brotou de dentro de mim, e com uma voz completamente diferente da minha, pronunciou um nome. Um nome enrolado; um nome estranho, para mim e para a minha colega...
Aaapaanãaa...!
Como a canbone não entendeu o nome pronunciado, o “ele” que estava em mim, com o dedo indicador escreveu no chão a palavra – APANÃ (N).
Ela continuou...
- “esse é seu nome, é”.
- “Nossa, que bonito...!”.
- “Quem é você”.
Foi ai que a coisa aconteceu.
O Ele-Eu, disse:
- “Eu sou o meu pai ao contrário”.
- “Eu não sou daqui”.
- Eu sou o meu pai ao contrário, repetiu.
- Eu sou Apanã...!
A menina se aproximou ainda mais e colocou a mão sobre o meu ombro direito, naquele momento tudo ficou diferente e a magia se desfez ou simplesmente se concluiu, pois eu voltei a ser “Raimundo”.
Aquele simples gesto dela desencadeou em mim uma inexplicável ereção.
Foi aquele gesto de carinho que conseguiu me libertar daquela energia estranha que me mantinha aprisionado. Quando me senti liberado, dei um pulo e completamente atordoado e arrasado pelos acontecimentos. Retornei descabriado ao meu canto, e a vontade que eu tinha naquele instante era de sair correndo, pois eu acreditava que todos presentes sabiam o que estava acontecendo, e que eu não prestava, era simplesmente um miserável, um profano, um tarado.
Eu juro!
Eu me sentia um “ESTUPRADOR DE DEUS”.
Gente, tudo aquilo foi muito horrível!
Aquilo que havia começado como uma linda brincadeira tinha se transformado no meu martírio, e a gira parecia infindável, que não ia acabar nunca! Eu sentia que ia desabar dentro do congá. Já não olhava para ninguém. Achava que todos tinham os olhos voltados para mim! Ufa! Que desespero!
Só não abandonei a “corrente” porque as entidades astralizadas com certeza tomaram as devidas providências.
Depois do episódio, as primeiras giras foram horríveis, não conseguia olhar para a menina, uma bela mulher por sinal, de seus trinta e poucos anos, e a partir daquela data, passei a evita-la! Um belo dia e para a minha felicidade, notei que ela não estava mais freqüentando o terreiro, e com jeito indaguei, cadê “fulana”?
- Ah...! Ela se afastou do terreiro porque ficou grávida.
- É uma gravidez de risco.
- Só conseguiu porque o “Pai de santo” fez um “ebó’ para a mamãe Oxum”.
Jura? Perguntei.
- É! Respondeu-me a pessoa.
Fiquei contente, mais não liguei os fatos ao Sr. APANAN, mesmo porque não detinha o conhecimento, não tinha nem como imaginar!
Na realidade fiquei mesmo foi aliviado com a sua ausência, pois assim, a vergonha de encará-la estava desfeita.
Voltando às pesquisas determinadas pelo “Pai”, descobri que "Oxum Opará" era a verdadeira mãe de "Logun-Edé Apanan" e que "Yansã Onira" era a sua mãe de criação.
A "Oxum Opará" se tornou então, companheira inseparável de "Yansã Onira", e que as duas “comem” juntas no bambuzal porque esta havia criado o seu filho.
Foi ai que comecei a juntar as peças do meu quebra-cabeça particular.
- Quando Apanan surgiu no nosso terreiro e foi interpelado pela mulher ele lhe disse: “Eu não sou daqui”. Será que ele estava se referindo a Umbanda? Pois, pelos meus estudos, Logun-Edé só “come” no candomblé.
E quando a menina o questionou a respeito do seu nome, ele lhe respondeu;
“Eu sou o meu pai ao contrário”.
Será que ele estava dizendo que naquele momento ele era Logun-Edé menino, o nascido do ovo descendente da fertilidade...?
O ovo símbolo da procriação...?
Ainda não sei!
Mas pensei e clamei pela ajuda de Deus!
Que Deus meu Pai, me ajude a equacionar mais esta questão!
Será que o Sr. Apanã fertilizou a jovem senhora naquele momento? Ou será que simplesmente a preparou para a mamãe Oxum...? Uma vez que o “Pai de santo” já estava desenvolvendo o processo de encantaria...?
De qualquer forma, fico muito honrado e agradecido por ter sido o veículo, o elo de ligação entre esses fatos e pessoas!
Acredito agora serem verdadeiros todos os fatos por mim narrados, pois, o Senhor Logun-Edé é uma divindade que habita e se magnetiza com a graça e a beleza das águas de sua mãe, Oxum, e ele veio ao nosso terreiro sob suas ordens!
A pesquisa me informou ainda que Logun-Edé é filho de Oxossi com Oxum e criado por Ogum e Inhansã; que é considerado o príncipe pescador, e quando Oxum se transforma em Yeye Pondá (esposa de Oxóssi Ibualama, guerreira e porta um leque), é a fase em que ele se apresenta como seu verdadeiro filho, nascido do ovo descendente da fertilidade e promove a procriação. E que tudo dele é dobrado. E que Ele só responde chorando.
Bem, para encerrar mais este caso espetacular, só tenho a dizer que não tenho uma idéia fechada sobre os acontecimentos, mas, estou inteiramente gratificado e muito honrado por pertencer ao Templo Sagrado dos Senhores Xangô e Iansã, e o mais importante de tudo mesmo, é que a minha irmã na fé, engravidou e se tornou mãe de uma lida e maravilhosa menininha.
Que a mamãe Oxum e Iansã adote-a como sua afilhada. E que, Apanan quando tiver um tempinho venha brincar com ela na floresta da vida e banha-la com a sua luz de encantado.

Dedico está estória a todos os meus irmãos caridosos da umbanda, porque tenho certeza que entendem prefeitamente os mistérios de Deus!
Quando o Cristo Jesus nos disse: "Pai Nosso que estais no Céus, santificado seja o vosso nome, venha a nós o Vosso reino, seja feita a Vossa Vontade, assim na Terra como nos Céus. Ele estava nos dizendo que esta é a PURA FÉ, é a maneira de harmonizarmos nossa vida material com a espiritual. É a forma de viver no mundo mas não pertencer a ele.
RAYSAN DE SOUZA
Enviado por RAYSAN DE SOUZA em 10/11/2006
Reeditado em 30/09/2012
Código do texto: T287856
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RAYSAN DE SOUZA
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