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FELICIDADES, PASSOU NO VESTIBULAR

Dia de alegria. Meu 4º filho foi aprovado no vestibular. Os parentes mais próximos presentes o abraçavam e tiravam fotos. Abrimos uma champanhe e brindamos uma nova vida que se descortina para ele. Os irmãos distantes telefonam e lhe cumprimentam. São feitas outras ligações para pessoas amigas a informar o sucesso do nosso rapaz. Ninguém sente uma ausência. Ninguém lembra da irmã caçula. Eu também devia não lembrar e mergulhar na alegria contagiante que toma conta de todos. Mas minha consciência não deixa. Puxa da memória os últimos momentos que estivemos juntos. O seu rosto sorridente com um brilho no olhar dizia com tanta convicção que tinha certeza que ele iria passar no vestibular, disso não tinha nenhuma dúvida. Fez-me um pedido para que eu dissesse para ela logo que saísse o resultado. Podia ter telefonado ou pedido para Eric telefonar para ela, já que ela não pode ligar para nossa casa. Mas não o fiz nem pedi. O meu jeito conciliador, não queria “melar” a festa de ninguém. Era importante que alguém tomasse essa iniciativa, seria a maior prova de amor que poderiam demonstrar para mim. Ninguém teve essa idéia, ninguém teve essa ação.
Com tudo isso o meu corpo ficou pesado. O meu espírito tinha dificuldade de o conduzir. Posava para as fotos e sorria nos momentos apropriados, mas creio que todos perceberam que minha alma sofria. Num pequeno momento em que meus olhos cruzaram com os olhos do festejado, percebi uma interrogação nos olhos dele que fez mais uma vez ele procurar os meus. Sei que ele percebeu o meu sofrimento, pois os seus olhos também se anuviaram. Não sei se ele intuiu qual seria a causa. Acredito que não. O seu coração inocente ainda não mergulhou nas armadilhas que nós próprios fazemos para vivermos aprisionados dentro delas. Talvez ele não saiba que às vezes um lar pode se tornar uma prisão e para quem tem um coração livre isso é pior que a morte. Mas essa imagem não é muito forte? Um lar ser comparado com uma prisão?!! Mas, se minha filha não pode ligar para mim, eu não posso ligar para ela devido o risco de uma catástrofe emocional, isso não é uma forte justificativa?
Felicidades, meu filho, passou no vestibular. Sua mãe com o rigor, com muito trabalho e dedicação foi a grande artífice de sua vitória. Eu me contento em ter o papel simplório de ser apenas uma base. Mas quero ter os créditos do amor que sempre deixei fluir para você, mesmo com meus silêncios, mesmo com minhas ausências. Mesmo com esse comportamento tão diferente que parece mais uma obsessão do campo afetivo. Como pode se querer amar toda a humanidade, considerar como parte de uma família mesmo, todo ser humano deste nosso universo apequenado? Só pode entrar em conflito com àqueles com os quais convive, que se ressentem das ausências, dos carinhos que outros recebem. Sei que você não tem esse problema, pelo contrário, acredito que receberia com muita alegria a possibilidade de morar com todos seus irmãos em uma só casa, sem nenhuma exceção, sem nenhum preconceito. Mas o mesmo não acontece com as mães. Cada uma quer ter exclusividade e daí transformar um lar que deveria ser um jardim florido de amor em campo de concentração, onde as entradas e saídas são rigorosamente controladas.
Quero também pedir desculpas a você por ter tingido a sua festa com o cinzento de minha tristeza. Não foi por querer. Deus é testemunha do quanto me esforcei para mostrar a alegria compatível com a que você estava sentindo. Mas o meu coração estava esmagado pela sensação de estar num campo de concentração, onde um telefonema para uma pessoa querida não pode ser feito, não pode ser recebido. Onde a sua irmã que sem saber nada disso que passa em nossas vidas espera inocentemente uma confirmação de sua vitória no vestibular. Onde a minha consciência clama por liberdade, liberdade tantas vezes defendida ao longo de minha vida.
Sei que cada ação que empreendemos gera uma reação, uma conseqüência. O também não tomar nenhuma atitude pode gerar conseqüências, e às vezes o preço é muito alto, o preço do amor próprio, do respeito, do próprio sentido da vida. Estou agora numa encruzilhada e sei que tenho que fazer alguma ação. Qualquer que seja o sentido tomado na ação feridas serão abertas, mas a passividade pode ter também para mim conseqüências funestas e que inevitavelmente se espalharão ao meu redor. Contaminarei quem estiver perto com a minha degradação espiritual e isso é muito pior de que qualquer ferida aberta numa ação mais incisiva em defesa desses mesmos princípios espirituais.
Espero que os ensinamentos de Jesus sejam a bússola que oriente a minha consciência em qualquer momento da minha vida e se o caminho estreito que devo seguir tiver que trazer para mim sofrimento físico e emocional, espinhos e armadilhas, peço a ajuda do meu anjo da guarda, dos grandes e pequenos mentores da humanidade para que eu permaneça no caminho do bem e do Reino de Deus que será erigido dentro de nossos corações.
Sióstio de Lapa
Enviado por Sióstio de Lapa em 26/12/2011
Código do texto: T3407719
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Sobre o autor
Sióstio de Lapa
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 61 anos
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