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Não te deixarei morrer!

O vento continuou a correr e com ele ficaram cravadas cada dia mais as marcas da tua ausência!

Mas não, não te deixarei morrer!

Sinto ainda presente o cheiro que acompanhou aqueles últimos dias que estive contigo, sem que tu estivesses comigo... em que estivemos perto, sem que tu estivesses lá. O teu corpo desapareceu então coberto pela terra que te há-de tomar o sol para sempre... Mas tu não foste com ele, não! Tu não...

Mas não, não te deixarei morrer!

Porque tu és também eu agora. E sempre que eu existir estarás lá, junto da minha existência. E vives ainda... És eterna e sentes! Porque todo o sangue que derramaste está em mim e mantém acesa minha ferida, porque o sorriso contagiante que perdeste se espelha na minha tristeza, em cada lágrima que me percorre…

Mas não, não te deixarei morrer!

Isto é a saudade! Deixares de existir em ti, e habitares em mim. Não sentir a tua falta porque estas sempre presente. E é essa presença que faz doer….

E dói…
Dói muito caramba...
Dói muito saber que estavas triste...
Dói muito saber que podia ter feito mais...
Dói muito saber que deixaste tanto por fazer...
Dói muito saber que sou impotente...
Dói muito saber que não te posso trazer de volta...
Dói....
Dói saber que partiste...

Mas não, não te deixarei morrer!

A cada momento sinto-te em mim. Deixaste de ser tu para seres em cada um de todos nos. Cada gota de cada nuvem… cada raio de sol… hoje és tudo o que deixaste de ser e que nunca foste. Assim te recordarei sempre! E essa dor faz-te viver em mim, faz-te renascer a cada dia, faz-te sobreviver e mergulhar aqui, sabendo também eu que assim não me esquecerás!

Mas não, não te deixarei morrer!

As lágrimas que escondo não têm a dimensão do teu rio, a dor que sinto não tem a fugacidade da tua morte, a tua presença não tem o teu corpo efémero… perdido… mas és tu em mim, és tu quem me torna eu porque só tu me fazes viver assim… Vivo-te em mim, por nós! Disso tenho saudade, sabendo que vivo mas nunca vivendo.

Mas não, não te deixarei morrer!

Memórias sem conta habitam uma recordação distante. Vejo a tua imagem e sei que não és tu. Sei que tu não és! És um nada que está em tudo… és tudo sem ser nada… és hoje apenas os vestígios das memórias que deixaste, os restos frios da distância tortuosa que te acompanha. Serás também para mim alguma vez assim?
A distancia que quero manter do que sinto contradiz a proximidade que anseio de ti.

Mas não, não te deixarei morrer!

As memórias que ficam… quero acreditar que elas próprias existem e se recordarão também para sempre de ti, como eu as vou recordar sempre… de nós… de tudo! Quero viver com o passado sempre presente no meu futuro! E nele quero que vivas… num futuro onde estarás sempre e que nunca abandonarás!

Mas não, não te deixarei morrer!

Cada inspiração minha transporta o teu cheiro, cada olhar meu vai na tua direcção. E fujo de ti a cada dia… de ti como tu és, no que tu te tornaste… Fujo do que não és, do que deixaste de ser… Fujo do vazio que te acompanha, fujo de tudo que habitas… E encontro-te sempre em mim!

Mas não, não te deixarei morrer!

Porque o momento da tua morte já passou… e a morte é apenas isso, um momento! Não deixaste de viver por morrer! Hoje vives mais… Vives em tudo, em nada… Porque o nada que te absorveu transformou-te no tudo que és agora!

Mas não, não te deixarei morrer! A TI… que serás infinitamente morta…

[ à minha irmã, Raquel ... (3/10/1974 - 08/02/2004) ]
Sónia Granja
Enviado por Sónia Granja em 10/08/2006
Reeditado em 10/08/2006
Código do texto: T213574
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre a autora
Sónia Granja
Portugal
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Sónia Granja