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Só Saudade

"O passado não é aquilo que passa, mas o que fica do que passou."

    Foi na ocasião que lecionava na Escola da Fazenda São José, no município de Ipuã, minha querida terra natal, no Estado de São Paulo, mais exatamente no ano de 1967, que tive o primeiro contato com a música "Três Boiadeiros", cantada pelo inesquecível Moacir de Oliveira e seu irmão Totonho. Era uma canção de rica musicalidade e ritmo e que cantava as desventuras de um boiadeiro pelas estradas da vida.

    Naquele tempo, nós vivíamos e ouvíamos intensamente a música dos Beatles e dos Rolling Stones, e não importávamos em nada com músicas sertanejas, mas, não sei porque, aquela música gravou fundo em minha memória e em meu coração.

    As desventuras de uma certa "Garça Branca" me traz doces lembranças longinqüas, lá pelos idos de 50, quando viajando para o Estado do Paraná com meus pais, ouvi pela primeira vez, no rádio do Ford 'Coupé', não sei, se em alguma estrada de terra ladeada de cafezais ou numa balsa na travessia de um dos muitos rios que havia no longo percurso.

    É nesse mesmo tempo, tempo de uma infância feliz, que eu acordava ao som do programa "Na Beira da Tuia", e ouvia envolto em sonhos e ternuras, músicas que contavam as mágoas e tristezas de um caboclo que falava de haver nascido "num ranchinho beira-chão, todo cheio de buraco adonde a lua faz clarão" e, que logo depois outros versos afirmavam a certeza do caboclo de não trocar seu "ranchinho amarradinho de cipó, por uma casa na cidade, nem que seja bangaló."

    Eu acordava, em meio a esse clima de magia, embalado com essas dolentes músicas, que eram, quase sempre acompanhadas pela doce voz de minha querida Mamãe, e ao sabor agradabilíssimo do café, que ela, com muito amor, preparava para todos nós.

    Lembro-me de Papai, impecável com sua vestimenta de boiadeiro, com suas grandes e longas botas, seu chapéu Prada e seu imenso carinho que me envolvia quando chegava em casa, depois de uma longa e dura jornada. Ele sempre me trazia alguma coisa e, me pegando ao colo, dava-me balas, doces, beijos e muito amor. Quando anoitecia e chegava a hora de dormir, eu era embalado por Mamãe a cantar "Vai boiadeiro que a noite já vem, traz o seu gado e vai pra junto do seu bem". E a gente dormia feliz.

    E havia os momentos felizes de ouvir músicas no "picape" movido à corda e que a todo momento ou quase sempre se trocava a agulha. Os discos, eram aqueles pesadíssimos 78 rotações, com músicas de Catulo da Paixão Cearense, Torres, Florêncio e Serrinha, Alvarenga e Ranchinho, Palmeira e Biá, Zico e Zeca, Tonico e Tinoco, Tião Carreiro e Carreirinho e uma infinidade de outros mais, que nos enchiam de alegria e encantavam o nosso viver.

    Com o passar do tempo, com a vinda da eletricidade, Papai comprou uma rádio-vitrola, que, por muitos e muitos anos, nos proporcionou momentos de infinitas alegrias.

    Foram muitas as vezes que vi Papai dedilhando uma viola e também não foram poucas as vezes que o acompanhei numa roda de catira, que naquele tempo acontecia amiúde em nosso pequeno e querido mundo de Sant'Ana dos Olhos d'Água.

    E também houve uma época que, menino, andava grudado no lombo de um cavalo, de nome Balaio ou coisa assim, tocando boiada, pela estrada quase sempre empoeirada que nos levava até a vizinha cidade de Guaira, com Papai e outros peões. Foi um tempo, fugaz e efêmero, do qual tenho ínfimas e queridas lembranças, mas que se vivificam fortalecidas quando ouço, extasiado, em qualquer festa ou local que esteja, uma canção que conta a estória ou história de um menino "que vinha correndo abrir a porteira" só pra "ouvir o som manhoso de um berrante preguiçoso nos confins do meu sertão."

    ... e então, o tempo passou, eu cresci, estudei e me formei Professor. Década de 60, anos de revoluções, de conquistas espaciais, anos dos Beatles e dos Rolling Stones, dos hippies, de Bob Dylan, Jane Joplin, Jimmy Hendrix, de Woodstock, época de contestações, da guerra fria,de dúvidas, de incertezas.

    Como era natural, meus pais ficaram arraigados nos bons tempos e dificilmente aceitavam os novos costumes que o mundo inteiro passava a adotar e, foram muitas as vezes que ocorreram desentendimentos entre nós.

    Música sertaneja, para nós, jovens, era coisa de caipira, assim como samba era música de malandro.

    O som que dominava era o do Rock 'n Roll, dos Beatles, dos Rollings, das orquestras de Ray Conniff e de Billy Vaughn, das músicas italianas de Endrigo, Donaggio, Fidenco e Bob Solo e dos conjuntos dos Incríveis, The Jordans e Renato e seus Blue Caps.

    Dáva-nos vergonha ouvir música sertaneja, que era coisa de pessoas iletradas, ignorantes, de palavreado errado, de viver simples e humilde.

    Como vivia enganado naquela época! Hoje, tudo faria para resgatar aquela infância dourada, de doces recordações, que agora enchem de saudade alma e coração, e rever meu pai sentado na sala de nossa casa, a ouvir os anos de glória de Tonico e Tinoco, ao som de "Saudade" e "Alembrando de Você"!

    Em 1975, mais ou menos, num fim de semana, em casa de um amigo, administrador da fazenda Milho Vermelho, no município vizinho de São Joaquim da Barra, conheci uma música que começou a mudar o meu modo de pensar em relação à música sertaneja. Ao ouvir "Mágoa de Boiadeiro", cantada por uma dupla que morava ali mesmo, nas cercanias da fazenda, comecei a lembrar dos tempos de menino, quando Papai era um boiadeiro imponente, que tinha muito orgulho e prazer naquilo que fazia. Comecei a pensar em Papai, que ora nem era mais boiadeiro, nem mais boi tinha e nem cavalo. Mas na garagem lá de casa, ainda havia, uma tralha (de)pendurada, um "capa", um laço de couro, pares de esporas e outros apetrechos mais, marcas de um passado de glórias, de lutas, de sofrimentos, mas também de muitas alegrias. Fiquei muito emocionado e, por muitas vezes solicitei que eles cantassem essa canção que dizia sobre a vida triste de um boiadeiro aposentado, relegado no tempo e no espaço. Pensava em Papai, naquele pai de minha infância, boiadeiro garboso, valente, sério, austero, mas honesto, trabalhador, bondoso e dono de um coração do tamanho do mundo!

    Tudo daria, se tudo tivesse, para resgatar o mundo maravilhoso que vivi e que tive o orgulho e a felicidade de ser filho de tão preciosos e queridos pais.

    E foi assim, querido sobrinho*, que fiz essa pequena coletânea musical para você, você que conheceu e que estimou seus avós paternos e, que também recebeu deles muito carinho e muito amor.

    Gostaria também que ao ouvir as músicas mencionadas, guardasse no coração a lembrança imorredoura de um tempo outrora feliz e, que, quem sabe, quiçá, devamos todos nós, "não só tirar o chapéu", mas também batalhar na promoção e no resgate destas preciosidades.
* Paulo Sérgio Tavares Barbosa
    Sales Oliveira, 17 de junho de 1995.



Benevides Garcia
Enviado por Benevides Garcia em 01/12/2007
Reeditado em 26/01/2010
Código do texto: T761087
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Benevides Garcia
Maringá - Paraná - Brasil
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