Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

DO EGOÍSMO AO AMOR

DO EGOÍSMO AO AMOR


INTRODUÇÃO


Vamos considerar nesta aula os pecados capitais, suas raízes e suas conseqüências. Que este estudo nos seja útil para fazermos um sério e profundo exame de consciência, especialmente se pedimos a luz do Espírito Santo, a fim de ver do alto as manchas nas nossas almas, um pouco como o Senhor mesmo as vê. Peçamos ao Espírito Santo os dons de conhecimento e conselho, que podem aqui preencher grandemente o que a prudência cristã nos ensina; com ela vai ser desenvolvida em nós uma consciência cada vez mais reta, certa e iluminada.



1. DEFINIÇÃO DOS PECADOS CAPITAIS (Cat 1865 e 1866)

Os pecados capitais são aqueles para os quais nos inclinamos a princípio e que nos levam a uma separação de Deus e a pecados ainda mais graves. O homem não alcança a completa perversidade de repente; ele é levado a ela progressivamente, através de um mergulho gradual no mal. Cada pecado cometido, vei gerando um vício naquele que o comete, na medida em que o repete. Disso resulta também um obscurecimento na consciência, que corrompe a avaliação concreta do bem e do mal (GS 16). Assim o pecado tende a reproduzir-se e a reforçar-se, embora não consiga destruir o senso moral até à raiz. .

Os pecados capitais são justamente aqueles dos quais se originam muitos outros pecados, na medida em que vai gerando vícios cada vez mais arraigados. São eles: o orgulho, a avareza, a inveja, a ira, a impureza, a gula, a preguiça ou acédia


2. AS RAÍZES DOS PECADOS CAPITAIS

Segundo ensino de S. Tomás de Aquino, todos os pecados capitais brotam de um amor-próprio desordenado, ou do egoísmo, que nos impede de amar a Deus acima de tudo e de todos e nos inclina a nos afastarmos d'Ele. Santo Agostinho diz: "Dois amores construíram duas cidades: o amor a si mesmo, dizendo que queria contentar a Deus, construiu a cidade da Babilônia, isto é, aquela do mundo e da imoralidade; o amor a Deus, ainda que para contentar a si mesmo, construiu a cidade de Deus".

É do desordenado amor a si mesmo, a raiz de todo pecado, que brotam as três concupiscências de que fala S. João quando diz: "Porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida não vem do Pai, mas do mundo". Estas são, de fato, as três maiores manifestações do espírito do mundo no que concerne os bens do corpo, bens exteriores e bens espirituais:

2.1 A concupiscência da carne é o desejo desordenado do que é, ou parece ser útil à preservação dos indivíduos e das espécies; a partir deste amor sensual brotam a gula e a impureza. Voluptuosidade pode, assim, tornar-se um ídolo e cegar-nos cada vez mais completamente.

2.2 A concupiscência dos olhos é o desejo desordenado de tudo que pode agradar a vista: luxo, riqueza, dinheiro que torna possível adquirir bens terrenos. Daí brota a avareza. O homem avaro termina por fazer do seu tesouro escondido o seu deus, adorando-o e sacrificando tudo a ele: seu tempo, força, família e algumas vezes sua eternidade.

2.3 A soberba da vida é o amor desordenado da nossa própria excelência, de tudo o que possa enfatizá-la, não importa quão difícil ou duro isso possa vir a ser. Aquele que se agarra mais e mais ao orgulho acaba por tornar-se seu próprio deus, como Lúcifer fez. Deste vício todo pecado e perdição pode originar-se; dai a importância da humildade, uma virtude fundamental, fonte de todas as virtudes, justamente como o orgulho é a fonte de todo pecado.

O verdadeiro amor próprio é o ato pelo qual amamos a nós mesmos por causa de Deus, a fim de glorificar a Deus no tempo e na eternidade. Enquanto que o pecador no estado de pecado mortal ama a si mesmo acima de tudo o mais e na prática prefere a si mesmo a Deus, aqule que cultiva o verdadeiro amor próprio é capaz de sacrificar a si mesmo por amor a Deus e aos que Deus ama. Por exemplo, ele deve amar seu corpo de forma que ele possa servir à alma ao invés de ser um obstáculo a uma alma mais santa; deve amar seu intelecto e vontade a fim de que possam viver cada vez mais mergulhados na luz e no amor de Deus.

3. OS PECADOS CAPITAIS SÃO

3.1 Orgulho

Tomar Eclo 10,14-21. A Escritura em diversas ocasiões diz que "o orgulho é o início de todo pecado", porque ele acaba com a humilde submissão e obediência da criatura a Deus. O primeiro pecado do primeiro homem foi um pecado de orgulho, o desejo do conhecimento do bem e do mal, em que ele queria ser seu próprio mestre e não ter que obedecer. Na opinião de S. Tomás, orgulho é mais que um pecado capital; ele é fonte dos pecados capitais e particularmente da vanglória, que é um dos seus primeiros efeitos.

S. Tomás definiu o orgulho como um extraordinário amor à nossa própria excelência. O homem orgulhoso deseja, de fato, parecer superior ao que ele realmente é: essa é a falsidade em sua vida.

Orgulho é, como diz S. Agostinho, um amor perverso pela grandeza; ele nos leva a imitar a Deus de uma maneira errada, não produzindo a igualdade com nossos companheiros e desejando impor nossa dominação sobre eles, em vez de viver em humilde submissão à lei divina.

O orgulho é uma venda nos olhos do espírito, que nos impede de ver a verdade, especialmente aquela relativa à majestade de Deus e à excelência daqueles que nos ultrapassam. Isto nos tira o desejo de ser instruídos por eles, ou nos prontifica a não aceitar suas direções sem argumentar. O orgulho perverte a nossa vida como alguém que torce uma mola; isso nos impede de pedir a luz de Deus, que consequentemente esconde sua verdade ao orgulhoso. O orgulho nos afasta, portanto, do conhecimento efetivo da vontade de Deus, da contemplação, do que a humildade, pelo contrário, nos dispõe. Por isto Cristo diz: "Eu Te agradeço, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque Tu escondeste estas coisas dos sábios e prudentes e as revelastes aos pequeninos." O orgulho espiritual é o mais poderoso agente para nos tirar da contemplação das coisas divinas. Com esse entendimento, S. Paulo escreve: "A sabedoria incha, mas a caridade edifica".

 

3.2 Avareza

Tomar Lc 12,13-21;16,19-31 ; Eclo 10,9-10 e Eclo 14,3-19. A avareza consiste no desejo desordenado dos bens materiais. Por ser ocasião de outros pecados, S. Paulo chega a dizer que é " o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males" (I Tim 6,10).


Seus efeitos são:

a) A dureza de coração para com os mais necessitados, perdendo a sensibilidade para com as desgraças do próximo;

b) A atenção desordenada e o apego aos bens externos, que impedem a tranqüilidade e o sossego necessários para o cuidado da alma;

c) A violência, a fraude, o embuste e a traição, a fim de conseguir o que ansiosamente deseja.

A avareza é um dos pecados mais vergonhosos e degradantes, visto que já não subordina o homem a coisas superiores, ou que estão ao seu nível de racionalidade (a ciência, a arte, etc.), mas o escraviza àquilo que está abaixo dele - os bens materiais.


A avareza pode assumir diversas formas:

a) TACANHEZ, que o leva a fugir das despesas razoáveis, ou a regatear tudo;

b) COBIÇA, que procura acumular mais e mais riquezas, por motivos egoístas e sem confiança na Providência Divina. A cobiça opõe-se à expressa recomendação de jesus recolhida em mt. 6, 25-34.

O homem avaro chega a fazer dos bens terrestres o seu fim supremo. Não há dúvida de que todo homem precisa se servir dos bens criados, porém como meio para chegar ao Bem Absoluto, em vez de se deixar deter por eles.


3.3 Luxúria

Os textos da Sagrada Escritura sobre a Luxúria são muito numerosos:

Ex. 20,14; Mt. 5,8; I Cor. 6,9-10; Mt. 5,28; I Tes. 4,3; Rm. 12,1-2; I Cor. 5,1; 6,20; Ap. 21,8.

Pecam contra a pureza aqueles que, consigo mesmo ou com outrem, cometem ações impuras; consentem pensamentos desonestos ou desejos impuros; mantém conversas obscenas, voluntariamente se expõem ou expõem outros ao perigo de cometer esses pecados, etc.


São pecados de luxúria:

- fornicação: conjunção carnal entre pessoas não casadas;

- adultério: sendo casado pelo menos um deles

- violação: mediante violência

- incesto: com pessoas de família ou consangüíneos

- sacrilégio: com pessoa consagrada a Deus

- masturbação: ato solitário que atinge o clímax

- onanismo: união sexual voluntariamente interrompida para vir a acabar em polução

- sodomia: conjunção carnal entre pessoas do mesmo sexo

- bestialidade: ato de luxúria praticado com animais.


Como remédio para o vício da luxúria, não se pode deixar de mencionar a prática da mortificação, que proporciona o autodomínio indispensável para que, no momento da tentação, se possa dizer NÃO aos impulsos desregrados.


3.4 Ira

A ira é um movimento das nossas paixões, que deve ser dirigido pela razão e regido pela vontade, para não conduzir ao mal. O ser humano repele instintivamente tudo que lhe é contrário. É legítimo reagir diante de obstáculos ao bem. Por exemplo a ira santa quando leva a defender os valores divinos (Mt. 11,15-19; Mt. 23,13; Nm, 25,1-17; Sl 105[106], 28,13).

A ira torna-se pecaminosa se ela implica desordem no exercício do poder natural de reação diante do mal: Ex.: desejar vingança, cometer injustiças, brigas, golpes físicos, insultos, imprecações (rogar pragas).

Como remédio para a ira, recomenda-se o exercício da prudência, de modo que ninguém proceda de acordo com o ímpeto imediato das paixões.


3.5 Gula ou Intemperança

O Senhor deu a todos os homens os instintos de comer e de beber acrescidos de prazer. O pecado existe quando alguém faz de tal prazer a finalidade de seus atos ou quando alguém valoriza os prazeres da comida e da bebida mais do que os bens espirituais. A intemperança pode acontecer no: comer, beber, o abuso do fumo e uso das drogas.


Intemperança no comer:


Comer demais: só querer alimentos requintados, com desdém dos alimentos comuns e sadios. Quem cede a tal paixão faz de seu ventre o seu Deus (Fil. 3, 19).


Intemperança no beber (embriaguez): Embriaguez completa: quando se dá uma privação total do uso da razão, constitui pecado grave. Embriaguez incompleta: quando a privação da razão é parcial


Porque a beberagem é moralmente má?

Porque é um ato exagerado, pela degradação que inflige ao ser humano, pela perda do domínio de si mesmo e pelos sérios danos que acarreta para a família da pessoa ébria.

O abuso do fumo: enfraquece a energia do fumante e pode afetar-lhe a saúde física; pode também gerar o egoísmo, a procura do prazer.

O uso das drogas: desfigura profundamente os valores físicos e morais dos seus clientes. O uso de drogas fortes é uma mutilação, no ponto de vista psíquico. É um atentado contra a própria vida. além de se tornar um difusor da droga, causando assim uma injustiça aos outros.


3.6 Inveja

A inveja "é o desgosto ou tristeza perante o bem do próximo" (S. T. , II-II, q. 36, a. 1), considerado como mal próprio, porque se pensa que diminui a nossa própria grandeza, felicidade, bem-estar ou prestígio. A Caridade, ao invés, alegra-se com o bem dos outros e une as almas, enquanto que a inveja entristece e com freqüência corrompe a amizade.

A inveja brota, em geral, da soberba (cf. S. T. , II-II, q. 36, a. 4, ad 1), e surge, especialmente, entre aqueles que desejam desordenadamente uma honraria, ansiosos de consideração e elogios.

É pecado capital por ser origem de muitos outros: o ódio, a murmuração, o gozar com o mal dos outros, o ressentimento, a tristeza frente ao sucesso dos outros, etc..

A inveja é sintoma de que se necessita exercitar o desprendimento dos bens materiais e também crescer em humildade. Além do exercício destas duas virtudes, é conveniente, para lutar contra a inveja, realizar obras de caridade para com as pessoas invejadas.


3.7 Acédia ou Preguiça Espiritual

A acédia é um dos principais pecados contra o amor a Deus, é um vício diretamente oposto ao amor de Deus e a alegria santa que resulta d'Ele. Provém da falta de gosto pelos valores espirituais, o desânimo no empenho pela santificação devido ao esforço que este requer e a lerdeza e o torpor na vida espiritual. É não encontrar prazer em Deus e considerar as coisas que a Ele se referem como algo triste e sem sabor. É um desgosto pelas coisas espirituais, que leva a executá-las mal, ou omiti-las sob vãos pretextos.

Esta tristeza deprimente, esse desgosto são bem diferentes da aridez espiritual ou dos sentidos que, em provações divinas, é acompanhada de contrição verdadeira por nossos pecados, de temor de ofender a Deus, de um novo desejo de perfeição, de uma necessidade de solidão, de recolhimento, e da oração de simples contemplação.

Segundo ensino de S. J. da Cruz, na aridez espiritual, a secura não vem da frouxidão e tibieza, pois apesar desta secura, tem solicitude interior pelas coisas de Deus, aliás tem solicitude com cuidado e pena de que não serve a Deus, tem desejos de servir a Deus. A parte sensitiva fica muito decaída, frouxa e fraca para operar, pelo pouco gosto que acha; o espírito, contudo está pronto e forte.

Na acédia, a secura vem da frouxidão, da negligência, não tem solicitude interior pelas coisas de Deus, remissa na vontade e no ânimo, tudo se vai em desgosto e estrago do natural. Ex.: na secura uma pessoa sofre porque tem distrações e luta para diminuí-las, no estado de preguiça espiritual a pessoa as acolhe, deixa-se levar por pensamentos usuais.


Conseqüências da Preguiça Espiritual

- Desistência das tarefas religiosas necessárias para a nossa salvação e santificação.

- As más tendências tendem a aumentar pouco a pouco, manifestando-se por numerosos pecados veniais que nos dispõem a cometer graves faltas.

- Busca de consolações materiais, prazeres inferiores com a finalidade de fugir da tristeza e desgosto, pela privação da alegria espiritual através da sua própria negligência e preguiça.

- Tristeza maligna que oprime a alma, dela nascem a malícia, o rancor sobre o seu próximo, desencorajamento, torpor espiritual mesmo pelo esquecimento de preceitos e, finalmente, procura de coisas proibidas, que levam à curiosidade, loquacidade, inquietude, instabilidade e agitação infrutífera. Desta forma a pessoa chega a uma cegueira espiritual e a um progressivo enfraquecimento da vontade.


4. AS CONSEQÜÊNCIAS DOS SETE PECADOS CAPITAIS

Vimos no início que os pecados capitais são chamados assim porque são como a cabeça, o princípio de muitos outros. Somos, antes de mais nada, inclinados a eles e, a partir deles, a outros pecados que geralmente são mais sérios.

Assim, a vanglória ou vaidade leva à desobediência, à gabolice, à hipocrisia, à alegrar-se com a rivalidade, à discórdia, à curiosidade ou amor por novidades e à teimosia. É um vício que pode nos levar às mais lamentáveis quedas e até à apostasia. A preguiça espiritual ou acédia, isto é, o desgosto pelas coisas espirituais e pelo empenho na santificação devido ao esforço que esta requer, é um vício diretamente oposto ao amor a Deus e à alegria santa que resulta dele. A acédia leva à malícia, rancor ou amargura para com o nosso irmão, covardia diante do dever a ser comprido, desencorajamento, torpor espiritual, esquecimento dos preceitos espirituais, a busca de coisas proibidas. Pela cessão à vanglória, orgulho e acédia, muitos perderam a sua vocação.

Da mesma forma, a inveja ou desprazer diante do bem de alguém, como se fosse um mal para nós, leva ao ódio, à calúnia, à alegria pela desgraça alheia e à tristeza frente ao seu sucesso. Gula e sensualidade também produzem outros vícios: cegueira espiritual, dureza de coração, apego a vida presente, e até mesmo perda da esperança na vida eterna e amor a si mesmo até o ponto do ódio a Deus e impenitência final.

O orgulho espiritual induz-nos, por exemplo, a fugir daqueles que nos corrigem, mesmo quando eles têm a autoridade de fazê-lo e estão agindo com justiça; pode mesmo nos induzir a conservar um certo rancor contra estas autoridades. Quanto à gula espiritual, ela pode nos levar a desejar consolações sensíveis nos atos de piedade, ao ponto de buscarmos a nós mesmos mais do que a Deus. Do orgulho espiritual origina-se o falso misticismo.

Além disso, certos defeitos se parecem com algumas virtudes: por exemplo, o orgulho é algumas vezes similar a magnanimidade. É importante ter discrição ou prudência cristã para discernir claramente a virtude e o defeito que em certos aspectos se assemelha a ela. De outra forma notas falsas podem surgir do teclado das virtudes: por exemplo a pusilanimidade pode ser confundida com a humildade, a severidade com a justiça, a fraqueza com a misericórdia.
Me deixa em paz
Enviado por Me deixa em paz em 25/01/2006
Código do texto: T103439

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Me deixa em paz
Fortaleza - Ceará - Brasil
35 textos (23095 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 09/12/16 11:55)