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As Bodas de Caná
Reflexões sobre o Evangelho Segundo São João (8a semana)

 
Três dias depois, celebravam-se bodas em Caná da Galiléia, e achava-se ali a mãe de Jesus. Também foram convidados Jesus e os seus discípulos. Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: Eles já não têm vinho. Respondeu-lhe Jesus: Mulher, isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou. Disse, então, sua mãe aos serventes: Fazei o que ele vos disser. Ora, achavam-se ali seis talhas de pedra para as purificações dos judeus, que continham cada qual duas ou três medidas. Jesus ordena-lhes: Enchei as talhas de água. Eles encheram-nas até em cima. Tirai agora , disse-lhes Jesus, e levai ao chefe dos serventes. E levaram. Logo que o chefe dos serventes provou da água tornada vinho, não sabendo de onde era (se bem que o soubessem os serventes, pois tinham tirado a água), chamou o noivo e disse-lhe: É costume servir primeiro o vinho bom e, depois, quando os convidados já estão quase embriagados, servir o menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora.” (Jo 2,1-10)
 

Pelo calendário litúrgico da Igreja Ortodoxa de 2011, no 1o domingo da quaresma (6 de março), proclamamos o Evangelho narrado por São João referente às bodas de Caná da Galiléia, razão pela qual, nesta semana, traremos à tona, alguns importantes aspectos desta passagem evangélica, tão rica, teologicamente falando, além de estar em nossa seqüência de reflexões sobre o que nos foi apresentado por este evangelista. Nada é por acaso!

Tradicionalmente, visualizamos na passagem das Bodas de Caná quase que somente a ocorrência do primeiro sinal (milagre) de Cristo Jesus, em Sua vida pública, demonstrando sua natureza divina, além de sua visível natureza humana. Porém, tentaremos refletir um pouco sobre alguns outros aspectos que esta belíssima passagem nos possibilita.

Lembremo-nos de que essa passagem foi apresentada somente no Evangelho de São João. Curioso, não acham? Um momento que deu início à vida pública de Jesus, onde Ele realizou seu primeiro milagre, ter sido narrado apenas pelo evangelista João! Tudo indica que, se tal passagem ocorreu como narrada, não foi apenas a transformação da água em vinho o único sinal deixado por Deus para a humanidade, e de forma perene, mas uma seqüência de ensinamentos e de importantes marcos na construção do mundo cristão. Vejamos alguns deles.

O primeiro aspecto diz respeito à festa em si – bodas, enlace matrimonial, casamento. O primeiro sinal público, o primeiro milagre relatado nas Sagradas Escrituras ocorreu em uma festa de matrimônio. Não foi por acaso que isso ocorreu! Jesus iniciou sua relação pública com a humanidade, após seu batismo e a escolha dos primeiros discípulos, participando de uma casamento. É onde tudo começa!

Considerando que toda geração verdadeiramente cristã deve ser feita através do matrimônio, nada mais emblemático do que a iniciação da atividade apostólica de Cristo ter sido iniciada por um matrimônio, destacando-se a presença nele de Sua Mãe e de Seus Apóstolos.

Pode-se dizer que foi nas bodas de Caná que, primeiramente, se estabelece o matrimônio entre Cristo e sua Igreja!

Nos comentários de São Tomás de Aquino sobre o Evangelho de São João, ele destaca a fala de São Paulo ao apontar que, “em sentido místico, as núpcias significam a união de Cristo com a Igreja”.

Igualmente, não foi sem importância a referência que fez o evangelista à realização das bodas no terceiro dia: “Três dias depois, celebravam-se bodas em Caná da Galiléia.”

Quanto a isso, dois aspectos devem ser abordados. O primeiro diz respeito a ser esta a terceira aliança (união, matrimônio) feita entre Deus e a humanidade – a primeira foi na criação original; a segunda com Abraão, prometendo-lhe uma grande descendência, tendo dela originado-se o povo eleito e com ele o pacto com o Senhor Javé no Monte Sinai, e terceira, nas Bodas de Cana, a terceira aliança, iniciando suas núpcias perenes com a Igreja. Não nos esqueçamos que Igreja não tem o significado ligado a uma instituição. A verdadeira Igreja, como depreendemos da origem de tal palavra (Ecclesia) significa assembléia, comunidade, é o povo de Deus, na verdade, somos nós!

Lembrando, mais uma vez, São Tomás de Aquino, ele aponta para o primeiro dia como o da lei natural; o segundo, o da Lei de Moisés e o terceiro, o dia da graça. 

O outro aspecto referente ao terceiro dia é sua vinculação com a verdadeira e definitiva aliança entre Deus e a humanidade com a morte e a ressurreição de Cristo, ao terceiro dia. Dessa forma, ao narrar as bodas de Caná, São João apontou-nos a ressurreição de Cristo, ao terceiro dia, quando Ele, verdadeiramente, desposou sua Igreja.

Se tudo tem um sentido, poderíamos perguntar, também, por que em Caná, na Galiléia? Devemos nos lembrar que Galiléia, na época do reinado dividido do povo escolhido, após a morte de Salomão, pertencera ao Reino de Israel, ao norte, separado do Reino de Judá, ao sul, onde se encontrava Jerusalém, com o seu Templo, onde eram feitas as oferendas ao Senhor Javé, o culto oficial judaico. Toda a parte norte tivera um contato muito próximo com os pagãos, vista, por muitos do sul, como relacionamento promiscuo e bastante criticado.

Enfim, não desejamos tecer levantamentos históricos detalhados, mas cabe o destaque para que o início da vida pública de Jesus, com seu primeiro milagre relatado nos Evangelhos, ter ocorrido em terras mal vistas pelos judeus. Estaria Jesus mostrando à humanidade, desde o início de sua pregação, que viera para todos e não apenas ao “povo escolhido”? Creio que sim.

Outro ponto que merece um comentário na passagem em tela diz respeito à afirmação do convite feito a Jesus para que Ele estivesse presente na festa: “Também foram convidados Jesus e os seus discípulos.” Eis uma importante questão ligada ao livre arbítrio concedido a cada um de nós por Cristo Jesus.

Mesmo que redimidos pela morte expiatória de Cristo da Cruz e sua gloriosa ressurreição, somente seremos, de fato, merecedores de Seu convívio celestial, se assim o quisermos. Somente poderemos usufruir de Sua salvação e de sua graça, se as aceitarmos. Apenas poderemos deixar que o Espírito Santo de Deus atue em nossa vida, se permitirmos. É por isso que ficou explícito a presença de Jesus Cristo e de seus discípulos decorrente de um convite. Ele jamais nos invade, nos obriga a aceita-Lo ou a seus ensinamentos. Jesus somente estava na festa de casamento porque havia sido convidado pelos noivos, assim como Ele somente estará em nossa vida, se o convidarmos. Lembremo-nos das palavras do Apocalipse, também escrito por João: “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo.” (Ap 3,20)

Outro ponto merecedor de destaque nas bodas de Caná, é a falta de vinho na festa. Seria apenas a ausência de uma bebida, para o deleite ou o embebedamento dos convidados? Certamente que não. O vinho que faltou no casamento tem um significado muito importante, pois, se o casamento é o símbolo da aliança de Deus com sua Igreja, como vimos acima, e o vinho é o símbolo da alegria messiânica, podendo ser vinculado, teologicamente, ao Espírito Santo, a falta do vinho foi o resultado da visão que Maria teve da antiga aliança, união entre Deus e o povo de Israel, com sua carência do Espírito Santo. A antiga aliança esgotara-se, estava superada. Assim sendo, é este vinho que faltara ao povo de Israel, o vinho bom e novo do Santo Espírito, que apenas o Messias – Cristo Jesus – poderia trazer.

Um dos pontos de maior destaque dessa passagem é a identificação da falta do vinho por Maria e a forma que ela levou o problema a Jesus: “Eles já não têm vinho”. Não vemos qualquer relatado de pedido dos noivos ou de quem quer que seja, sobre necessidade do “produto”, apenas a identificação pela Virgem Maria da necessidade existente e a colocação do problema ao seu amado filho.

Maria, mãe de Jesus, mãe de todos, aquela que identifica nossas necessidades, antes mesmo de serem solicitadas, com o amor materno, intercede pelos noivos, intercede por nós, junto ao seu filho Jesus. Ela não pede qualquer ação, ela não especifica qualquer atitude a ser tomada por seu Filho, apenas entrega a Ele o problema. E mais, apesar da fala aparentemente indefinida de Jesus: “Mulher, isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou”, ela solicita aos servos que façam tudo o que o seu Filho lhes disser. A atitude de Maria foi um exemplo de intercessão, de entrega e de fé.

Maria levou o problema para Jesus, até porque ela não tinha poder para resolve-lo. Assim como nós, pela impossibilidade de resolvermos nossa santificação pelas nossas próprias forças, entreguemo-nos à Cristo Jesus, para que Ele, através de seu Santo Espírito, fortaleça-nos, possibilitando-nos de chegar ao Seu encontro do dia devido. Aprendamos com Maria a levar nossos problemas e dificuldades diretamente a Jesus, a entregarmo-nos inteiramente a Ele, porque só Ele tem poder para nos ajudar.

Quantas vezes pedimos a Deus algo que desejamos, especificamos exatamente o que queremos e como questionamos se não somos atendidos? Que exemplo que Maria nos dá nessa passagem! O primeiro milagre (sinal) de Jesus foi realizado por intercessão de Maria! Intercessão essa que permanece até os nossos dias e que se manterá pelos séculos.

Quando o vinho de nossa vida – a fé, a esperança, o amor – estiver faltando, estejamos certos de que Maria, mãe de Jesus e mãe nossa, estará sempre atenta e pronta para interceder por nós.

Um outro comentário que não pode deixar de ser feito está ligado à observação de Jesus de que “sua hora ainda não havia chegado”. Ele traz-nos, não apenas a necessidade da entrega ser sem questionamentos e desejos de respostas imediatas, mas também, a conscientização de que é o Seu tempo que vale, não o nosso. Se, de fato, entregamos nossos problemas a Jesus, esperemos a Sua solução e a Seu tempo, pois o conhecimento pleno das coisas não está ao nosso alcance.

Mais uma vez arvoro-me a destacar: aprendamos com Maria! Saibamos entregar nossas questões a Cristo Jesus. Creiamos na intercessão da Virgem Maria, e aguardemos a resposta de Deus, ao Seu tempo. Isto é fé!

Quanto a forma de se dirigir a Sua mãe por “mulher”, em nada simboliza desrespeito, desacato ou grosseria. Marca, apenas, a distância de Jesus em relação à cena familiar. O apelativo “mulher” trata-se da Mulher do Gênesis, da cruz e do Apocalipse. Ela simboliza a Filha de Sião, imagem da Igreja, que é desposada, ao terceiro dia, na ressurreição, quando Jesus, o noivo, revela sua glória. Na nova aliança, a Virgem Maria é a Mulher, a Nova Eva, a imagem da Igreja, a Mãe do Senhor a quem Jesus entregará para João, seu discípulo amado, aos pés da cruz, simbolizando sua entrega a cada um de nós.

Atentemo-nos, também, para a presença da Virgem Maria, mãe de Jesus, no início (bodas de Caná) e no final de Sua missão (morte e ressurreição). Ela é chamada de “mulher” tanto em Caná, como na cruz (Jo 2,4 e 19,26).

Quanto às talhas de pedra com água, apontadas na passagem das bodas, elas eram utilizadas nos ritos de purificação da religião judaica. Com a morte e ressurreição de Jesus e ao ser firmada a nova aliança, tais talhas perdem sua utilidade, superando os antigos rituais de purificação. Assim, não mais da água que nelas se encontram a humanidade necessita, mas sim, do vinho novo do Espírito Santo. A transformação da água em vinho, é, verdadeiramente, a passagem da velha para a nova aliança.

Um detalhe que chama a atenção é a quantidade de água a ser transformada em vinho - “duas a três medidas” -, o correspondente a quase quarenta litros em cada talha. É muita coisa! Porém, é imensa, também, a abundância dos dons do Espírito, belíssima alusão feita pelo evangelista João!

É o “bom vinho”, o melhor deles, o vinho do Espírito Santo, que foi guardado por Deus para o final da festa, para a nova aliança! Esta abundância do Espírito, sem medida, evidencia-se, também, no versículo 7, ao ser detalhado que as talhas foram preenchidas “até à borda”.
Dessa forma, a água da antiga aliança, da Lei de Moises, de um Deus Justo e educador, dá lugar ao vinho do Espírito Santo, da nova aliança, de um Deus de amor e salvação.

Alguns outros pontos poderiam ser trazidos e detalhados, porém, creio que já me estendi demais e temos, nestas linhas e nestes itens de reflexão, os principais aspectos deixados por São João, para serem pensados, perenizados e aplicados em nossa vida.

Creio que a passagem das bodas de Caná da Galiléia fornece-nos importantes e belíssimas  lições. O Senhor, nosso Deus, vai onde é convidado e aguarda nossa entrega, de nossos problemas e dificuldades, desde que, saibamos compreender as Suas respostas e no tempo que Ele estabelecer, pois o Seu tempo é o tempo certo. Esta certeza representa a nossa verdadeira fé. Além disso, estejamos certos de que Maria, Santa Mãe de Deus, estará sempre pronta a interceder por nós, na manutenção permanente da união estabelecida por Cristo Jesus, entre Ele e sua Igreja, que somos nós.

Transformemos nossa água e vinho!
 
Fiquem com Deus! 

Padre João Milton Menezes
Enviado por Padre João Milton Menezes em 05/03/2011
Código do texto: T2830079
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