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 O que nasceu da carne é carne, e o que nasceu do Espírito é espírito.
Reflexões sobre o Evangelho Segundo São João (10a semana)

 
Havia um homem entre os fariseus, chamado Nicodemos, príncipe dos judeus. Este foi ter com Jesus, de noite, e disse-lhe: Rabi, sabemos que és um Mestre vindo de Deus. Ninguém pode fazer esses milagres que fazes, se Deus não estiver com ele. Jesus replicou-lhe: Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer de novo não poderá ver o Reino de Deus. Nicodemos perguntou-lhe: Como pode um homem renascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no seio de sua mãe e nascer pela segunda vez? Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer da água e do Espírito não poderá entrar no Reino de Deus. O que nasceu da carne é carne, e o que nasceu do Espírito é espírito. Não te maravilhes de que eu te tenha dito: Necessário vos é nascer de novo. O vento sopra onde quer; ouves-lhe o ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece com aquele que nasceu do Espírito.” (Jo 3,1-6)
 
Nicodemos era fariseu e, como tal, pertencia a um partido judaico que enfatizava a observância de rituais e cerimoniais. Pretendiam possuir uma piedade superior e, normalmente, apartavam-se dos demais. Mas ele não era um fariseu qualquer, ele era o chefe do Sinédrio, ou seja, do Tribunal Religioso dos Judeus, constituído por 70 professores da Lei e sumos sacerdotes. Nicodemos era extremamente respeitado, por ser um religioso conhecedor da Lei Mosaica e dos costumes Judaicos, em profundidade.

Nicodemos aparece três vezes no Evangelho narrado por São João. A primeira delas, na passagem em tela, ao visitar Jesus à noite, aparentemente, para evitar que outros da liderança Judaica o identificassem.

A segunda citação de Nicodemos é quando a liderança dos fariseus e os principais sacerdotes aguardavam pela prisão de Jesus, enquanto Ele freqüentava a Festa do Tabernáculo, em Jerusalém, nos dias que antecediam a páscoa judaica. Nesta passagem, Nicodemos é reprovado pelos pares, ao tentar lembrá-los que, por sua Lei, não se poderia condenar homem algum sem que antes ele fosse ouvido:

Replicou-lhes Nicodemos, um deles, o mesmo que de noite o fora procurar: Condena acaso a nossa lei algum homem, antes de o ouvir e conhecer o que ele faz? Responderam-lhe: Porventura és também tu galileu? Informa-te bem e verás que da Galiléia não saiu profeta.” (Jo 7,50-52)

Veja que o questionamento de Nicodemos foi arriscado diante de seus pares e, pela defesa, os demais membros do grupo de líderes dos fariseus e sacerdotes chegaram a, ironicamente, questioná-lo se ele não teria vindo da Galiléia, lembrando-o que de lá não viera profeta algum. Tal fato, sem querer prolongar-me com detalhes históricos, está ligado à fama da Galiléia de ser uma terra de pagãos, mantendo-se, ainda, a imagem construída de tal região, com a invasão pelos assírios e depois pelos babilônicos e a sua ocupação por diversos povos considerados com pagãos, pelo povo de Israel.

Na terceira vez em que Nicodemos é citado pelo evangelista João, ele está juntamente com José de Arimatéia, trazendo consigo “umas cem libras de uma mistura de mirra e aloés”, para ajudar a preparar o corpo de Jesus para ser colocado no sepulcro. Alguns identificam Nicodemos como um discípulo secreto de Jesus, outros como um daqueles que não possuíam fé suficiente para O apoiar, abertamente, durante a sua permanência, como homem, no mundo. De qualquer forma, na primeira citação ele procurou Jesus na escuridão da noite e na última, apareceu durante o dia, publicamente, para sepultar um homem condenado pelos seus companheiros fariseus e sacerdotes. Que mudança!

Voltemos à primeira citação, ou seja, ao encontro, à noite, com Jesus.

Nicodemos vai até Jesus, destacando seus ensinamentos e milagres e diz: “Rabi, sabemos que és um Mestre vindo de Deus. Ninguém pode fazer esses milagres que fazes, se Deus não estiver com ele.

É interessante que, apesar de reconhece Jesus como Mestre (Rabi) e, SABER que Jesus era um Mestre vindo de Deus e tinha Deus com Ele, Nicodemos ainda o procurava clandestinamente, não assumia sua crença, não mudava sua postura perante seu povo.

Neste ponto, podemos fazer uma breve parada e refletir sobre nossa vida, sobre nossa fé. Sabemos da existência de Deus, da vinda de Jesus Cristo salvador e da presença de Seu Santo Espírito consolador, mas mudamos, de fato, nossa vida? Confrontamos, de forma veemente e resoluta, e evitamos tudo o que nos tira do caminho de Jesus? Somos capazes, por “saber” da existência de um Deus vivo e amoroso, acolhendo-nos a qualquer momento, de romper com todas as coisas que nos prende a este mundo superficial e passageiro e que nos afasta dEle? Qual o verdadeiro valor que damos ao ter, ao poder, à fama, à aparencia e a todas as demais ilusões deste mundo, em comparação ao que “sabemos” sobre Cristo vivo e presente em nós?

Mas tudo isso pode mudar! Podemos mudar e, verdadeiramente, envolvermo-nos com Cristo Jesus, sendo que Ele mesmo disse a Nicodemos o que deveria ser feito para tal mudança ocorrer: “quem não nascer de novo não poderá ver o Reino de Deus.

Entretanto, o que significa nascer de novo? Certamente, se estivéssemos no lugar de Nicodemos, faríamos a mesma pergunta que ele fez: Como? O que é nascer de novo para alguém já nascido e crescido?

Jesus não estava falando do nascimento biológico, não estava se referindo ao nosso corpo físico que, após o nascimento, não poderia renascer novamente. Ele estava apontando para o nascimento “da água e do Espírito”, destacando, ainda que o fruto da carde é carne e o fruto do Espírito é espírito.

Nenhum homem poderá contemplar o Reino do Céu, contemplar a glória de Deus, estar incluído no banquete celestial, se não nascer de novo, se não deixar de ser um ser de natureza meramente humana e passar a ser uma pessoa com a mesma natureza de Jesus, até porque de Sua essência fomos feitos e ela só não conduz nossa vida porque não permitimos. Devemos nascer de novo, ou seja, deixar que essa essência divina, que já existe contida em nós, aflore-se, “nasça” e, verdadeiramente, conduza nossa vida. É um nascer de dentro para fora, de uma essência divina que aguarda sua libertação.

O mergulho do batismo, que antecede o emergir, representa a morte do velho homem, e o posterior nascer da água, possibilita-nos a fazer parte do povo de Deus. Mergulhamos ao encontro da morte da carne e emergimos trazendo o nascimento do espírito. A nossa entrega ao Santo Espírito faz com que se abra o coração e permita o nascimento do novo ser.

É por isso que “o que nasceu da carne é carne, e o que nasceu do Espírito é espírito”. O que está ligado à carne, às coisas do mundo, a ele pertencerá, a ele estará aprisionado. Porém, aquele que permitir o nascimento do Espírito, por Ele será conduzido.

Por isso que, não basta apenas saber da existência de Deus, da presença do Espírito vivificador, o que, certamente, Nicodemos sabia muito bem, assim como cada um de nós. Para entrar no Reino de Deus, e este não é um Reino do amanhã, mas de hoje, é preciso que passemos pelo Novo Nascimento.

O nascer de novo não é a penas um rito de passagem, não basta apenas o ato do batismo e da confirmação. Não basta, apenas, sermos batizados, pois precisamos viver o batismo. Entramos no plano da graça através do sacramento do Batismo, morrendo, sacramentalmente, para o pecado e recebendo um princípio de vida nova. Porém, o viver o batismo significa a permanente reafirmação, por toda a vida terrestre, mediante uma conduta pautada pelo princípio do amor de Deus.

Nascer da água não é, somente, o lavar-se, o limpar-se em um determinado momento da vida, mas, com a presença do Santo Espírito e sua aceitação permanente, estamos caminhando, passo a passo, na estrada do Senhor. O nascimento do Espírito consiste numa transformação espiritual radical que deve ser confirmada continuamente.

Ouvimos muitas pessoas aclamarem pela conversão. Convertam-se! Convertam-se para ver Jesus! De fato, a conversão é o nascer de novo, mas não representa apenas um ato de aceitação, representa uma mudança de vida.

Todo nascer está vinculado a um prévio morrer. Quando uma flor nasce, morre sua semente. Quando uma criança nasce, morre um feto. Quando um adolescente nasce, morre uma criança, e assim por diante. Não podemos ser adultos, mantendo atitudes de criança, quando nos convém, pois ela já se foi. A galinha não pode impedir de ser abatida, alegando que é apenas um pintinho dentro do ovo. Quando um fiel nasce da água e do Espírito, morre seu antigo ser, o que significa uma renúncia, a morte do velho homem e se ele, de fato, vive o batismo, ele não poderá manter vínculos a deuses ligados a esse velho homem que deverá estar morto.

Não se pode servir a dois senhores: “Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará a um e amará o outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza.” (Mt 6,24). Isso não quer dizer para jogarmos fora tudo o que temos, mas sim, para nos desapegarmos de tudo o que temos, pois de nada valem se perdermos a paz de Deus. A riqueza não representa apenas o dinheiro, mas a ganância, o orgulho, a vaidade e tudo aquilo que nos aprisiona às coisas mundanas, afastando-nos de Deus.

Toda opção, toda escolha, representa uma perda, assim como todo nascimento significa uma morte prévia. Optemos por Cristo e deixemos que a morte dos deuses do mundo seja um realidade em nossa vida.

Entretanto, não nos aflijamos! Cada um de nós tem seu tempo certo. Claro que o ideal é o já, mas... A fala de Jesus foi dura demais para Nicodemos, naquele primeiro momento. Não nos apresenta, o evangelista, sua resposta logo após as explicações de Cristo, pelo visto, ele saiu calado. Porém, São João, como já apontamos no início, traz a verdadeira conversão de Nicodemos ao ajudar José de Arimatéia ao sepultar Jesus, em plena luz do dia, sem medo de ser condenado ou perseguido. Ele assumiu sua opção e agiu. Não vimos sua fala, sua palavra de aceitação, mas evidenciamos sua atitude corajosa e destemida.

Não precisamos gritar que somos convertidos. Não precisamos alardear que aceitamos Jesus em nossa vida. Apenas coloquemos para fora, através de atos, a presença viva de Cristo em nós. É claro que os testemunhos também significam a demonstração do renascer no Espírito, mas apenas elas, de pouca valia tem para, de fato, sermos Cristo vivo na terra. Não foi sem significado que São João não nos trouxe palavras de Nicodemos, trouxe-nos sua ação, a ação de um homem verdadeiramente convertido, renascido.

Finaliza Jesus dizendo que: “O vento sopra onde quer; ouves-lhe o ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece com aquele que nasceu do Espírito.” Imaginaria Nicodemos, durante a conversa com Cristo Jesus, protegido pela escuridão da noite, que, dias depois, ele estaria expondo-se diante de todos os sacerdotes e fariseus, ajudando a sepultar Jesus?

Tenhamos disposição e entrega. Cristo não deve, apenas, ser nosso salvador, mas, acima de tudo, nosso Senhor. Seu Espírito, se dele nascermos, deverá ser o condutor de nossa vida e, igualmente ao vento, não seremos nós os verdadeiros conhecedores de onde viemos e para onde iremos. Não basta acreditarmos que temos força para nos convertermos. Tenhamos fé, e acreditemos que a verdadeira força não está em nós, mas vem do alto, vem da presença viva do Espírito de Deus. Depositemo-nos nas mãos de Deus e vivamos assim como o vento, pois, certamente, estaremos sendo conduzidos para compartilhar da glória do Senhor.

Não nos esqueçamos das palavras de São Paulo: “Todo aquele que está em Cristo é uma nova criatura. Passou o que era velho; eis que tudo se fez novo!

Fiquem com Deus!
Padre João Milton Menezes
Enviado por Padre João Milton Menezes em 19/03/2011
Código do texto: T2858192
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Padre João Milton Menezes
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 56 anos
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