INCLEMÊNCIA.
 
O céu estava azul, tão azul que parecia pintado  de propósito  por algum artista dos pincéis. Nenhuma nesga de nuvem para encobrir  o reinado absoluto do sol inclemente. Nos pastos, os animais morriam de sede e os pássaros não encontravam abrigo seguro. Na velha cacimba, águas barrentas e salobras. Na casa de taipa, crianças  com ventres peitos de pombo, olhos compridos, fome fazendo morada. E no ventre da mulher, mais um filho para dar continuidade a reprodução da miséria. O homem  fitava o céu na esperança de um milagre que salvasse  os pés de mandioca plantados na aridez de sua pequena gleba. As crianças, agarradas nas pernas da mãe, repetiam o doloroso refrão: mãe, tô com fome. O homem olhou para o pobre e faminto burrico...Decidiu  ir em busca de comida onde quer que fosse.Pediria na cidade, alguém  haveria de lhe dar alguma coisa. Na cidade, de porta em porta, conseguiu um punhado de farinha, algumas rapaduras, fubá de milho e feijão. Voltando para casa, passou em frente a igreja. Apeou do burrico, entrou e ajoelhou-se diante do Cristo Crucificado e de coração contrito pediu:  Jesus, por tua sagrada cruz,  manda um pouco de chuva para este sertão.