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Texto

UM CONTO DE NATAL, DE CHARLES DICKENS

     1 - O Enredo

     Um Conto de Natal (A Christmas Carol) é um dos textos mais divulgados da Literatura Universal, tendo uma grande quantidade de adaptações para o teatro, o cinema e quadrinhos. Foi projetado para ser publicado em capítulos de jornal, o chamado folhetim, tendo sido escrita entre outubro e novembro de 1843, ilustrada por John Leech, e sua forma final foi publicada aos 19 de novembro do mesmo ano. Narra a história do sovina Ebenezer Scrooge, um velho rabugento e solitário, implacável com as pessoas, preocupado apenas com seus lucros e que detesta o Natal e a felicidade estampada nos rostos das pessas por esta data. Scrooge é empresário e trabalha em um escritório com Bob Cratchit, um pobre rapaz pai de quatro filhos, sendo que, Tim Cratchit, o caçula, sofre paralisia nas pernas. Apesar destes revezes, Bob é um homem feliz e gosta do Natal.
     Na véspera do Natal, ao voltar para casa, Scrooge se depara com o fantasma de seu sócio Jacob Marley, também um homem mal como Scrooge. Marley lhe diz estar penando, por ter sido mal em vida, e o mesmo ocorrerá com Scrooge. Mas há uma esperança de alterar esse destino, e para isto, Scrooge receberá a visita de três espíritos: O Espírito do Natal Passado, O Espírito do Natal Presente e o Espírito do Natal Futuro. Cada um dos Espíritos fará uma revelação a Scrooge e que poderá mudar sua vida.

     
     2 - A Obra

     A obra dickensiniana se insere na fase final da chamada Revolução Industrial, que teve a Inglaterra como pioneira, já que soube acumular capital, tinha recursos naturais em profusão, possuía um mercado interno e externo imenso e havia efetuado uma reforma agrária. Tudo isto proveniente de duas revoluções: a Puritana, em 1640, e a Gloriosa, em 1685. Em ambas procedeu-se a uma industrialização em grande escala, substituindo as técnicas antiquadas da agropecuária por técnicas mais modernas, tendo o cercamento como ícone. Neste processo, colonos (yeomen) foram desalojados das terras feudais, onde viviam agregados, e alojados em um lugar específico, enquanto a produção rural se voltou para a criação de carneiros com o objetivo de explorar a lã e, conseqüentemente, vender o produto para as fábricas incipientes. Tal fato causou uma atrofia no mercado rural e criou um proletariado urbano que serviu de mão-de-obra exatamente para tais fábricas.
     Outrossim, vinha recrudescendo na Inglaterra o Protestantismo, que se tornou confissão nacional já que tal doutrina pugnava pela parcimônia e empreendedorismo, opondo-se ao catolicismo que, também, representava uma aproximação com a França, então inimiga da Inglaterra. Esta vitória protestante teve vários momentos, como a criação da religião estatal inglesa, o Anglicanismo, por Henrique VIII e a deposição da rainha escocesa Mary Stuart, católica e supostamente favorável aos franceses. Com a queda de Mary Stuart, o protestantismo se implantou na Escócia através de uma visão calvinista conhecida por Presbiteriana, liderada por John Knox, francamente favorável à Inglaterra. O calvinismo defendia abertamente a parcimônia, e influenciou tanto a Revolução Puritana que derrubou e levou à decapitação do rei católico Carlos I, já que Cromwell e os demais líderes revolucionários pertenciam à ala mais calvinista do Anglicanismo, conhecidos como puritanos, quanto a Revolução Gloriosa que tinha como objetivo a derrubada do rei católico Jaime II em defesa exatamente da religião protestante. É notável que ambos os reis depostos eram descendentes de Mary Stuart.
     Ao mesmo tempo, mercados externos foram conquistados tanto pela diplomacia quanto pela força militar, tendo a Inglaterra estendido seu poder para as colônias do Reino Unido (Escócia, Irlanda, País de Gales), asiáticas e africanas, compensando a perda das colônias americanas que proclamaram a independência em 1776, ou seja, a perda ocasionada pela Independência Americana. Com isto, aliado ao tráfico internacional de escravos e à relação com metrópoles como Portugal, que remetia ouro em grandes quantidades para o Banco da Inglaterra, consolidou o poder econômico da burguesia que alcançara o poder em 1648.
     Assim, ao tempo de Charles Dickens a Inglaterra era a maior potência econômica de todo o mundo, ampliando e aperfeiçoando o capitalismo. Ocorre que isto provocou o surgimento de bolsões miseráveis em Londres, já que o capital não era distribuído de forma equânime, e uma poluição sem precedentes que cobria Londres de fumaça, lixo, mau cheiro e “morte” do Rio Tamisa que cortava a cidade. Logo, o clima cinzento das novelas de Dickens não é gratuito.
     No caso específico de Um Conto de Natal, vemos o embate entre as idéias capitalistas da época e a alternativa para um solidarismo que pusesse fim ou amenizasse as desigualdades sociais. O nome Scrooge, do personagem principal, significa, em português, Avaro. A avareza, na mentalidade inglesa, não era considerada um pecado em si, já que a concepção protestante que foi um dos substratos do capitalismo encorajava a parcimônia com a finalidade de poupar e, assim, acumular capital. A vertente calvinista, inclusive, pregava que o homem que enriquecia era um eleito de Deus. Deste modo, ao condenar o comportamento de Scrooge em contraposição com o pobre, mas feliz, Bob Cratchit, o autor faz uma crítica a esta ética.
     Também chama a atenção o fato de Dickens colocar Marley como alma penada, castigada por ser um empresário duro. Ora, se a mentalidade protestante, principalmente calvinista, considerava o rico um eleito de Deus, uma crítica ao capitalismo poderia, sim, considerá-lo um pecador digno do tormento eterno que também estava esperando por Scrooge. Portanto, Charles Dickens apela para o coração, e não para a razão inglesa e protestante de sua época, que também fundamentavam a era vitoriana. Neste período, como dito, a Inglaterra consolidara sua posição de indústria do mundo, e usufruia do conforto de toda esta acumulação de capital e colonialismo, alterando-o a seu bel prazer, mas à custa de sofrimento da parte da maioria da população inglesa, britânica e mundial.

     
     3 - O Autor

     Charles Dickens nasceu em 07 de Fevereiro de 1812, em um família de classe média. Seu pai, alcólatra, foi preso por dívidas e arruaça, motivo pelo qual a infância do pequeno Dickens se tornou praticamente miserável. Trabalhou como repórter, cobrindo diversos assuntos, em especial as atividades parlamentares inglesas. Começou a publicar alguns textos utilizando o pseudônimo de Boz, e em 1836 começou a publicar a novela As Aventuras do Sr. Pickwick, sobre um caixeiro viajante que percorre a Inglaterra vitoriana marcada pela Revolução Industrial e o nacionalismo militarista, sempre acompanhado por seu empregado Sam Weller. No mesmo ano se casa com Catherine Hogarth, com quem tem dez filhos e de quem se separaria anos mais tarde supostamente por seu relacionamento com a atriz Ellen Ternan.
     Dois anos depois publica Oliver Twist, novela de crítica social sobre um órfão que sofre com os rigores da época vitoriana, outro sucesso. Seguem-se novas narrativas de crítica social, como Grandes Esperanças (Great Expectatives), de 1860, e muitos sombrios como A Casa Abandonada (Bleak House), de 1853, outros autobiográficos como David Coperfield, de 1849. Todas suas obras inserem seu nome entre os maiores escritores da Grã-Bretanha e do Ocidente em geral. Ao mesmo tempo, estão intimamente identificadas com a era vitoriana e seus percalços sociais, sendo críticas ácidas às instituições britânicas.
     Charles Dickens morreu em 09 de junho de 1870, ao lado de Ellen Ternan.


     4 - O Legado

     As novelas de Charles Dickens se imortalizaram, sobrevivendo ao tempo, estando adaptadas para teatro, cinema, televisão, e influenciado vários autores em todo o mundo, servindo como referência. A obra em análise, Um Conto de Natal, não foge à regra, tendo sido um dos contos natalinos mais citados em todo o mundo. Várias são as adaptações, com grandes atores interpretanto Scrooge, a exemplo de Alec Guines, Albert Finney, John Barrymore, Lionel Barrymore, Bill Murray, Walter Mathau, George C. Scott, Marcel Marceau, Michael Caine, Patrick Stewart e, mais recentemente, Jim Carrey. Também há a versão feminina, interpretada por Vanessa Williams no musical Um Diva no Conto de Natal. Também versões em animação com Patolino, Fred Flintstone, Mr. Magoo e até mesmo a boneca Barbie. A mais conhecida talvez seja a de Walt Disney. Por sinal, o personagem de Disney que interpreta Scrooge, é Tio Patinhas, cujo nome original é Scrooge McDuck ou Uncle Scrooge, embora Patinhas tenha um comportamento mais solidário, seja mais ligado à seus amigos e sua família, do que o personagem de Dickens. Também é importante notar que Patinhas provém da Escócia, baluarte do calvinismo defensor da parcimônia, do empreendedorismo e da ética ligada ao capitalismo inglês.
Andre Cretchu
Enviado por Andre Cretchu em 18/12/2008
Código do texto: T1343001
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