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GRAFFITI - MURILO - CAP. III


                                  MURILO – capítulo III

                          Rolou na cama até pouco antes das três da madrugada
 e só conseguia pensar no rapaz do desenho e em toda a estória que o avô havia lhe contado. Sentou-se na cama, impaciente e, não resistindo mais à curiosidade, vestiu o roupão e silenciosamente, voltou ao atelier.
   Entrou no aposento, tomando o cuidado de não fazer barulho, acendeu a luz e ficou olhando para a prancheta de longe, com medo de se aproximar. O coração batia forte, mas ela sabia que tinha ido até ali para descobrir o resto daquele mistério; não podia voltar para o quarto e desistir agora.
  Armando-se de coragem, Deise chegou-se lentamente para perto da prancheta, mas viu que alguma coisa havia mudado no desenho. O rapaz estava caído de bruços na areia da praia, parecendo inconsciente. Aflita, Deise exclamou:
- Meu Deus!
  Tocou o desenho com as pontas dos dedos, como se quisesse tocar o corpo do rapaz.
- Você está bem?
  Estava tão preocupada com ele que nem se deu conta do que fazia. Seus olhos encheram-se de água.
- Você está bem! repetiu.
   Em meio às lágrimas, ela o viu erguer a cabeça devagar, parecendo estar muito ferido e estendeu a mão para ela. Como  num sonho, Deise segurou-a e fechou os olhos. Quando abriu novamente estava sentada na areia com a cabeça dele recostada em seu colo. Deise não sabia o que fazer ou pensar. Ele abriu os olhos e olhou para ela.
- Por que demorou tanto? – disse, com a voz fraca, desmaiando em seguida.
  A moça não pensou em mais nada. Olhou em volta e não viu ninguém a quem pudesse pedir ajuda. Resolveu abraçá-lo e tentar aquecê-lo. Como não viu sangue em lugar nenhum do corpo dele, pensou que talvez não fosse nada tão grave.
   Nem sabe quanto tempo ficou ali, olhando para o rosto dele, esperando que acordasse. Era tão bonito aquele rosto, como ela nunca tinha visto antes.
  Quando ele começou a acordar novamente, Deise ajeitou seus cabeços que caíam sobre os olhos e esperou. Ele abriu os olhos, olhou para ela e sorriu levemente.
- Oi... disse, muito fraco ainda.
   Ela só conseguiu sorrir. Com esforço, ele tentou levantar-se e ela o ajudou. Já sentado na areia, ele tocou seu rosto e Deise sentiu seu toque como se fosse o toque da brisa no rosto.
- Obrigado...
- Eu não fiz nada, ela falou.
- Por estar aqui.
- Quem é você?
- Você sabe.
- O personagem principal de... Graffiti?
   Ele não respondeu, apenas sorriu, mais envolvido em observar seu rosto do que em ouvi-la.
- Você é um desenho! – ela disse, ainda sem acreditar no que acontecia.
- Você também é.
- Não, eu sou humana, de carne e osso.
- Qual a diferença? Somos todos criaturas. Você e eu. A única diferença está no criador. Seu avô desenha o meu destino na prancheta em que estamos agora. Ele é muito inteligente. Um artista, como o seu criador... Só que o seu avô ainda não sabe que a imaginação dele pode ser mais vida do que imagina.
- Você apareceu pra ele em sonho.
  Ele não disse nada.
- E o que eu quero descobrir é... o que eu tenho a ver com isso?
   Ele sorriu um sorriso bonito que fez Deise sorrir também.
- O Delano adora você, não é?
- É meu único avô. Meu pai morreu muito cedo e o Cris só não me criou porque a...
- Sua tia acha que ele é louco, como todos os outros.
   Deise ficou abismada.
- Como você pode saber disso?
- Eu conheço bem o seu avô. Quando você nasceu, seu pai tinha dezessete anos e sofria de câncer. Morreu pouco depois do seu nascimento.
- Meu Deus! Quem é você?
- Seu avô é um grande cara, falou ele, ignorando a pergunta dela.
- Me diz seu nome pelo menos.
   Ele ficou pensativo e perguntou:
- Nome?
- É, você deve ter um ou depende do meu avô também.
- Mais ou menos, mas...
   Ele olhou para a areia, como se estivesse procurando algo em sua cabeça e ao voltar a olhar para ela, respondeu:
- Murilo.
- Esse é o nome do meu pai!
- Eu sei, mas é o nome que mais circula na cabeça do seu avô e na sua, por isso, já que eu não tenho nome... por mim, tudo bem. Serve Murilo mesmo.
  Ela sorriu, balançando a cabeça. Ele colocou a mão em seu rosto e o acariciou.
- Você é linda... falou.
  Encabulada, ela baixou os olhos. Murilo levantou-se e começou a tirar a areia das roupas escuras e dos cabelos com as mãos.
- Vamos?
- Pra onde? - ela perguntou, levantando-se também com a ajuda dele que lhe estendeu a mão.
- Não posso ficar aqui mais tempo. Não é seguro.
- O que foi que houve com você antes de...
- De você me encontrar?
- É.
- Na verdade, seu avô tem uma paixão tremenda por aventura e me colocou numa situação um pouco difícil. Tem uns caras querendo me pegar.
- O que você é na estória dele?
- Eu sou corredor de fórmula 1, você não entendeu?
- Ah! Os carros... claro! E por que eles estão atrás de você?
- São de outra escuderia que está em decadência por minha causa. Seu avô até que foi bonzinho nessa parte. Eu sou um ótimo piloto, falou sem nenhuma modéstia.
   Deise riu do jeito que ele falou.
- Então eles querem... acabar com você?
- Mais ou menos.
- Mas meu avô disse que sonhou com você e que foi você quem inventou toda a estória.
- No sonho eu pedi que ele me desenhasse, mas não fui eu que inventei a estória. Há momentos em que eu quase consigo fazê-lo mudar certos lances e sei como fazê-lo parar, mas não é minha a criação. É dele. Dessa vez que quis que ele parasse a estória no meio pra dar tempo de você me descobrir. Só que por pouco eu não acabo na ponta do lápis dele.
- Heróis nunca morrem.
- Depende... ela falou com um tom de voz triste. – Vem, vamos achar um lugar pra esconder. Eu sei de um onde meus vilões não me encontram.
   Murilo puxou-a pela mão e eles começaram a subir as encostas de um morro que dava numa estrada.

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                                    GRAFFITI - CAP. III
Velucy
Enviado por Velucy em 07/09/2017
Código do texto: T6107372
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Sobre a autora
Velucy
São Paulo - São Paulo - Brasil
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