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GRAFFITI - ESPELHO - CAP. IV


                                      ESPELHO – capítulo IV

                                                  Murilo e Deise correram algum tempo, até chegarem numa espécie de sítio onde havia uma casa estranha, toda ladeada por árvores enormes e escuras. Ao chegarem perto da porta, Murilo parou.
- Chegamos, ele falou ofegante.
- Quem mora aqui?
   De novo, ele não respondeu. Ele quase não respondia às perguntas mais relevantes que ela fazia. Ele abriu a porta e entrou, com ela pela mão, sempre.
   A casa estava às escuras. Murilo andava com facilidade pela escuridão, mas Deise tinha certa dificuldade, mesmo sendo guiada por ele.
- Ei, será que não tem luz aqui? – ela perguntou.
  Ele parou.
- Ah, desculpe! Eu me esqueci que você não é feita de grafite. Fique aqui.
  Murilo largou a mão dela e desapareceu por um momento. Deise ficou apavorada.
- Murilo! Onde você está?
   Ele não respondeu. Deise estava já começando a pensar em sair dali correndo para qualquer lugar, quando o aposento se iluminou de repente, mas a luz não vinha de nenhuma lâmpada, vinha de um grande espelho no meio do grande salão onde estavam. Murilo estava do lado dele, sorrindo. Ela correu para ele.
- Quase morri de medo! – ela falou, abraçando-se ao rapaz.
- Eu estou aqui. Não confia em mim?
- Só se você me avisar o que vai fazer quando desaparecer assim. O que é isso?
- O que parece?
- Um espelho... mas não tem reflexo.
- É, não tem... Olhe pra você.
   Deise olhou para si mesma e percebeu que seu corpo estava todo feito de contornos de lápis, como se ela fosse também um desenho. Só agora dava-se conta do fato. Ela estava dentro dos quadrinhos e era como ele.
- Nós somos desenhos!
- Você entrou nos quadrinhos quando pegou a minha mão, ele disse.
  Ela não soube o que dizer. Murilo sorriu.
- Chocada?
- Não... Só confusa. Tudo em volta é feito de... grafite, como nós.
  Murilo balançou a cabeça confirmando.
- Está tudo escuro porque nós estamos dentro do quadro negro que eu pedi ao Seu avô que fizesse. Não há história aqui. Esse espelho é a passagem para o seu mundo. Agora, olhe isso.
   Ele foi para trás do espelho e Deise o viu como um homem de carne e osso, totalmente humano e ela o achou ainda mais bonito.
- E aí? - ele perguntou abrindo os braços.
- Como...? - ela passou também para o outro lado, dando a volta pelo espelho e voltou a vê-lo como desenho. Do outro lado, o mesmo espelho sem reflexo.
- Como você fez isso?
- É daquela forma que eu vejo o seu avô e você, lá do outro lado. O atelier está aí atrás. É por aí que eu te vejo. Foi por aí que você entrou.
- Mas não há nada aí.
- Nada humano. Só formas humanas podem aparecer neste espelho. Quando seu avô desenha, eu o vejo.
- E ele sabe disso?
- Não acredito. Ele acha que meus movimentos são obra da criação dele, como todo desenhista e escritor acham.
- E não é isso?
- Não, nós temos vida... Você acaba de provar isso. Está aqui comigo.
- Eu posso estar... sonhando...
- É... pode...
   Murilo aproximou o rosto do dela e a beijou longa e docemente. Deise sentiu o beijo e seu coração disparou.
- Agora você tem que ir, ele falou, como se pressentisse algum perigo.
- Por quê? – ela perguntou, ainda com o rosto bem perto do dele.
- Está amanhecendo no seu mundo e eu não quero que seu avô perceba que você está aqui.
- Posso voltar pra cá outra vez?
- Claro! – ele falou sorrindo.
- E... os vilões?
- Eu não sei. Seu avô planeja tudo.
- Ele não vai querer que nada de mal te aconteça.
- Se você estiver por perto quando ele der continuidade, talvez eles não apareçam.
- Ele parou de desenhar. Você pediu, não foi?
- Mas há um prazo... Seria até você me encontrar. Provavelmente, amanhã, ele continue a estória.
- Mas ele não vai deixar que você... morra.
   Murilo ficou olhando para ela e pegou suas mãos.
- Você lê os quadrinhos que seu avô faz?
   Deise balançou a cabeça confirmando e não pareceu muito animada com o que pensou. Murilo transformou seus pensamentos em palavras.
- Desde que seu pai morreu, ele sempre mata os personagens principais. Seu avô não acredita em finais felizes, Deise.
- Mas você... é diferente! – ela falou aflita.
- Ele não sabe disso.
- Eu posso contar tudo pra ele!
- Não! Não, não pode! Seu avô é um artista fantástico que acredita no seu trabalho, mas não é louco como faz todo mundo pensar que é. Ele não vai acreditar que você esteve aqui comigo. Isso não chegaria ao alcance do senso crítico dele. Ele pensaria que você ficou maluca. Não conte nada a ele. Ele vai te proibir de entrar no atelier e aí... a gente nunca mais se vê.
- Mas...
- Vá embora. Deixe tudo como está. Obrigado por ter vindo.
   Deise ficou olhando para ele sem nenhuma vontade de ir embora.
- É só atravessar o espelho, ele falou, sorrindo e afastou-se um pouco dela. – Vá!
  Ela obedeceu e atravessou o espelho. Foi o tempo de fechar e abrir os olhos e estava novamente de pé ao lado da prancheta.
  No papel, Murilo, desenhado do mesmo modo que ela o havia visto pela última vez e... ela estava do seu lado!

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                                   GRAFFITI - CAP. IV
Velucy
Enviado por Velucy em 08/09/2017
Código do texto: T6107865
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Sobre a autora
Velucy
São Paulo - São Paulo - Brasil
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