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DIVAGAÇÕES SOBRE AS AGUAS-

             
         

     “Quando olhei o rio que transpusera seus limites, entendi que para a natureza, o único limite existente é aquele que imaginamos dentro do contexto de um pensamento limitado”.
     As águas se espraiavam em todas as direções e eu era, naquele momento, mero observador da força e dos limites  que a natureza me impunha.
     Eu que me julgava importante, naquele instante, nenhuma importância tinha, somente a força dos elementos é que ditavam as normas que todos deveriam seguir ou obedecer. Mesmo a contragosto.
     O futuro, como incógnita,  era fruto do meu pensamento concreto que podia apenas se lembrar de um passado bem perto ou mesmo distante.
     Esse futuro seria conseqüência de um presente que se fazia passado a cada instante ou no momento que um novo pensamento afluía à minha mente.
     Enquanto meus pensamentos iam e vinham como se fossem as ondas sucessivas de um mar revolto, eu ficava circunscrito pelos limites que me impunha a natureza e ficava à margem a observar as águas que se afunilavam num lugar estreito para seguir seu caminho rumo ao mar.
     O tempo é um carrasco que nos mantém cativo a um presente que sempre será passado em nossas lembranças.
     O futuro incerto apenas será real se além de nossa vontade houver a concessão dos deuses que possam permitir a realização dos nossos desejos e aspirações.
     Aquele caminho sempre estivera tão seco, agora  era algo de fenomenal e obrigava os homens a se curvarem e esperarem que as águas diminuíssem para permitir sua ultrapassagem.
     Eu poderia até imaginar que as águas representavam meu emocional represado ou mesmo que fluía livremente por entre estreitos canais da via de uma única mão que se chama vida consciente.
     Sentia-me como um peixe fora dágua. Eu não me aventurava nem mergulhava nas revoltas águas do pensamento, sob pena de ficar sujeito a uma morte que eu não desejo.
     Em quase todas as épocas aquele rio era quase seco. Apenas um fio de líquido ainda conseguia seguir seu caminho, para ser consumido bem mais à frente por pessoas ou animais sedentos. Agora, no entanto, corria veloz, desrespeitando todos os limites que lhe haviam sido impostos, não por homens mas, sim por si próprio, quando ousara cavar por entre rochas.A vida que se mantivera presa agora se descortinava bravia.
     Eu ficava olhando o sangue da terra e não podia, em momento algum, sentir-me revoltado ou mesmo deveria questionar os desígnios dos deuses  que sabiam o que estava reservado.
     Muitas vezes eu por ali transitara sem nenhum empecilho, agora me obrigava a curvar-me ao meu próprio sentimento de fragilidade, aos sabores da lei.
     E seguindo, dentro desta lógica, teria que esperar que as águas se acalmassem ou baixassem para, então, seguir em frente, rumo a um lugar qualquer que nem mesmo eu sabia qual era.
     O futuro seria condicionado por um pensamento que poderia também, ser representado por águas revoltas ou por um espírito que  nunca se prende ou está satisfeito com nada.
     Assim fiquei em constantes meditações, olhando apenas as águas bravias que invadiam os campos até onde se podia avistar.
     E depois de tanto tempo, tempo este que eu imaginava existir e que seria um divisor entre um passado ou mesmo um futuro, era apenas uma conjectura de um existir incerto que costumamos criar para nos manter vivos com desejos de ir além de onde nós chegamos.




.03/06/05-VEM



Vanderleis Maia
Enviado por Vanderleis Maia em 20/01/2006
Reeditado em 07/03/2009
Código do texto: T101681
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Sobre o autor
Vanderleis Maia
Imperatriz - Maranhão - Brasil
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