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Controle de Natalidade

Um menino que mora em um depósito de lixo de uma grande cidade brasileira cansado de ser espancado pelos pais por não querer pedir esmola nas ruas e não tendo mais para onde recorrer, chamou Deus para uma conversa.

Menino - M
Deus - D

M - Deus, você tá aí?

D - Estou menino, o que você deseja?

M - Queria saber porquê eu moro no lixão e me alimento de restos todos os dias.

D - Sua pergunta é pertinente menino, e um tanto quanto surpreendente, pois os teus semelhantes jamais questionam Deus, apenas aceitam pacatamente aquilo que "lhes foi reservado".

M - Então essa minha vida desumana é sua vontade?

D - Minha? Jamais, só se eu fosse um Deus sádico para lhe desejar algo tão medonho e triste. Acontece que segundo a crença do seus semelhantes, você tem que sofrer na terra para um dia vir descansar ao meu lado, e ao lado dos bons. Trata-se da evolução do espírito, segundo a teoria criada pelos homens e atribuídas ao Deus do qual eles não tem prova da existência.

M - Tenho que sofrer? Isso não faz muito sentido. Porquê justo eu tenho que sofrer enquanto outros tem tudo?

D - Isso é uma pergunta aos que criaram essa teoria ilógica. Eles justificam tudo com o tal do livre arbítrio. Como se isso fosse uma punição pelos seus ancestrais terem se afastado de Deus.

M - Ah, entendi, você está se vingando de nós?

D - Isso, segundo as crendices de bilhões da sua raça, sim. Mas é óbvio que isso é apenas uma desculpa que eles encontraram para justificar todo o mau que há no mundo.

M - Mas como é que eu vim parar aqui?

D - Segundo as doutrinas criadas pelos homens, eu sou o criador da vida, por tanto você está aí porque eu te criei. No entanto a verdade é que você está aí porque é filho de pais pobres sem instrução que vivem em um sociedade onde esse tipo de pessoa não tem a menor possibilidade de se desenvolver e conseguir uma vida mais humana. Daí resta apenas o lixo, os restos, a marginalidade do que chamamos de sociedade.

M - Mas porquê meus pais me conceberam se não tinham e não tem condições de me dar uma vida decente?

D - Porquê no seu país a sociedade precisa de pessoas pobres, para que elas montem ONGS e posem de boazinhas. Para que essas pessoas pobres tenham subempregos e sejam humilhadas pelos que estão em molhores condições. Para que sejam usadas pelo tráfico de drogas, pelos turistas sexuais, pelos traficantes de órgãos, pelos exploradores do trabalho infantil. No seu país não existe controle de natalidade, e pessoas como seus pais, tem filhos sem controle algum, sem que o governo intervenha, impedindo que mais crianças como você nasçam e tenham existências desumanas como a sua.

M -  Se houvesse essse controle, eu não teria nascido?

D - Não, você não teria nascido e consequêntemente não estaria catando restos no lixão da sua cidade.

M - Existem muitos como eu no meu país?

D - O número é tão grande que se torna praticamente impossível uma solução. Existem estudos que apontam 30 milhões só no Brasil.

M - 30 milhões de meninos que vivem no lixão como eu?

D - Não apenas meninos, mas gente de todas as idades. O que preocupa é que essa gente pode ser somada aos outros bilhões de miseráveis do mundo, que procriam e fazem mais meninos como você, sem futuro, por causa da inoperância dos governos em impedir que isso aconteça. É como ver uma doença se expandir sem buscar uma cura, mas apenas utilizando remédios que apenas amenizam a situação de alguns poucos.

M - Esse remédio ao qual você se refere, são as ONGS?

D - Sim. As ONGS e todas as associações que ajudam pessoas como você pelo mundo inteiro. Moralmente é muito bonito, mas não resolve nada. É uma gota no oceano. E o que é pior. Tem gente que faz uso disso para se vangloriar e se promover.

M - Mas você quer fechar essas associções?

D - Absolutamente não. Elas são uma coisa muito boa. Uma amostra de que os homens seriam em tese capazes de resolver seus problemas, ao invés de por a culpa em Deus, ou atribuir a ele a solução dos mesmos.

M - Existem pessoas que pensam de maneira diferente?

D - Sim, mas essas pessoas são vistas como más, como insignificantes, como assassinos de crianças, como débilmentais, porque é moda e é moralmente bonito e politicamente correto querer ajudar os que precisam, mas tomar uma decisão drástica ofende a opinião pública.

M - Eu queria que houvessem mais pessoas com uma mentalidade prática das coisas, assim eu não teria nascido e não estaria vivendo no lixão, dos restos da sociedade. Só porque alguém acha que tenho que passar por esse ensinamento espiritual. Mas só eu sei o que eu sofro e digo que nem mesmo Deus me protege do frio e da chuva, od abuso sexual, da violência dos meus pais, das drogas, e da repulsa dessa mesma sociedade que finge se preocupar comigo criando suas assossiações. Se eu pudesse escolher, eu não queria ter nascido.

D - Sinto muito por não poder te ajudar. Sou uma criação da psique humana.

M - Obrigado por me ouvir. Adeus.

D - Adeus.

Ullisses Salles 23.08.06
Ullisses Salles
Enviado por Ullisses Salles em 23/08/2006
Código do texto: T223240
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Sobre o autor
Ullisses Salles
Suíça, 40 anos
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