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AJUDE UMA CRIANÇA A CHORAR...

Passava por ali quase todos os dias e nunca me apercebera do mal que fazia.
Era um terno e sofrido olhar, sempre a me fitar.
Uma linda silhueta afogada na sujeira e no sofrimento.
Um estado ignorado que denunciava a rua e toda a sua podridão.
Dali nada se aproveitava. Aquela alma que facinava o mundo, mesmo tão imundo a se mostrar todos os dias ao trabalhador, ao vagabundo ou ao sonhador.
Esse mesmo mundo, que se transformou em casa, de papelão, para abrigar aquela pobre criatura.
Era uma alma de coração valente, acho mesmo que um tanto irreverente.
E eu, por ali passava com mais atenção. As vezes até algum trocada eu deixava.
Comida não, pois os fétidos e mórbidos invasores, sempre acompanhados da maldita pinga, surrupiavam sorrateiramente qualquer tipo de alimento ali deixado.
A alma nem sempre acordava e nem em prontidão estava. Dormia um sono lindo e tão difícil de acordar. Era mesmo pura e transmitia a sua identidade em seu olhar.
Passava eu por ali mais um dia e outro dia.
Embora em um desses, não me lembro qual, aquele cobertor só denuncia solidão, e algumas manchas de sangue também.
O que houve? Onde está?
Triste fiquei, assim como ficaram muitos outros seres frios e vazios que por ali também passavam diariamente. Todos nós sem nenhuma explicação.
Alguém comentou sobre a morte, outro alguém sobre sorte.
Eu me calei.
Em respeito, confesso que chorei.
Consegui um dia em minha triste e conturbada vida, me enamorar.
Hoje me sinto órfão daquele olhar.
O Guardião
Enviado por O Guardião em 20/09/2006
Reeditado em 17/10/2006
Código do texto: T245035
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Sobre o autor
O Guardião
São Paulo - São Paulo - Brasil, 51 anos
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