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... sorria.

Sorria penosamente para as vertiginosas gotas de sangue que, em profusão, saltavam do teu antebraço; sorria para o acolhedor assoalho que recebia, maternalmente imóvel, seu corpo; sorria, também, pelos pensamentos que vinham, torrencialmente, através de memórias: lembrou-se de como a mãe sorria para ele e para seus dois irmãos mais jovens quando, por devaneio do acaso, seu pai fora alvo de latrocínio após descer do carro, na garagem da casa; lembrou-se de como o tio sorria sempre que trazia as novas da viagem de mamãe. "Químio é bem longe, meus queridos; mamãe logo logo volta pra casa", titio dizia ... sorriu quando titio não mais os visitou, também; lembrou-se de como sorria mamãe, quando papai chegava, sorrindo, diferente em casa. Andando e falando bem alto (sempre acordava o caçulinha) pelo cômodos até que chegava em sua mamãe e a levava pro quarto deles. Ficava tudo quieto a não ser pelos barulhinhos de móveis se arrastando e de gente pulando e caindo, mas, como mamãe pedira, ele sempre sorria; lembrou-se de como sorria a titia, sempre feliz. Ela e os amigos com desenhos pelos braços e pedacinhos de ferro pelos corpos sorriam. Sempre com aquele pozinho, na sala, e com as cartinhas deles. Sorriam. Sempre tinha gente diferente em casa dele, sorrindo. Lembrou-se, também, de como sorria abertamente o 'titio' para o gato e de como seu irmãozinho sorria com o pozinho. Pegar sem pedir era feio e foi por castigo que levaram gatinho embora. Sorria, sempre abraçando o irmãozinho que já não sorria. O do meio, mais levado, saiu pela porta e nunca mais apareceu. "Saiu sorrindo, como mamãe pedira, pelo menos", pensava... penava. E mesmo quando era chamado por um apelido que não era o nome dado por mamãe - que logo voltaria -, sorria.
Antes de receber o abraço que o assoalho lhe cederia, o jovem, carinhosamente apelidade por 'Downzinho' pediu, sorrindo, que largassem da titia dele e que, por favor, continuassem a brincadeira só com ele... ela não queria brincar... sorriu seu último sorriso... como mamãe pedira...
Komoundoros
Enviado por Komoundoros em 21/09/2006
Reeditado em 21/09/2006
Código do texto: T245761
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Sobre o autor
Komoundoros
Pindamonhangaba - São Paulo - Brasil, 28 anos
11 textos (251 leituras)
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