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O prazer e a tristeza

A maior das tristezas humanas talvez é a esperança patética de conseguir o que o destino insiste em negar. No entanto esse sofrimento, paradoxalmente, as vezes se confunde com o prazer. É o desejo humano de se torturar continuamente, talvez seja um contraste com os prazeres da vida, ou realmente esse sofrimento traga um  certo regozijo.

Buscamos continuamente o impossível, insistimos nele apesar da consciência de que nunca dará certo. É o lado byroniano de cara um, muito bem representado no poema O Corvo, de Edgar Allan Poe. Mesmo sabendo que a resposta do pássaro das plumas negras seria sempre um “nunca mais”, o protagonista continua insistindo em fazer perguntas. Questiona repetidamente se verá sua amada de novo, se ele conseguirá superar a tristeza de não mais poder vê-la. E não o faz com a intenção de tentar obter uma resposta diferente do corvo, pois desde o inicio o corvo só tem uma resposta para tudo, é a tentativa de infligir sofrimento a si próprio

O prazer da contemplação amorosa irrealizável também se encaixa bem aqui. A humilhação, cair de joelhos, juras e pedidos insistentes, não contém algo de vergonhoso para o amante; ao contrário, ainda lhe valem louvores. Por mais que isso faça alguém sofrer, é uma atitude voluntária. Ao invés de tentar esquecer para muitos parece mais prazeroso a sensação de desprezo.

O tema do parágrafo acima é um pouco mais confuso. Alguns fazem de tudo sem se preocupar com as conseqüências enquanto outros agem tolamente e com atitudes patéticas de manter a dignidade, e é difícil mantê-la agindo desse modo. O que parece ocorrer é uma transferência de valores  pessoais, inclusive da dignidade perdida pelo amante, para o objeto de contemplação. Para louvar alguém essa pessoa deve ser idealizada, destituída de todos os seus defeitos e ainda obter mais qualidades fictícias dadas pelo contemplador.

Às vezes observando as minhas atitudes me sinto um pouco como se eu conversasse com o corvo, não sei se faço certas coisas na esperança de mudar alguma coisa ou se é um certo prazer bizarro que me apraz.

Estranho também é o prazer extraído da tristeza alheia. Essa felicidade pode vir de duas maneiras: uma noticia que é ruim para alguém é boa para outra pessoa, ou o sofrimento alheio causa prazer em uma situação quase sádica.

A primeira situação é a mais simples e a mais facilmente compreendida. A reprovação de alguém em um concurso, por exemplo, favorece o que passou, ou ainda uma pessoa desejada que fica solteira. Simples assim. Consiste somente na possibilidade de tirar vantagem de uma situação oportuna.

Já a alegria destilada do sofrimento de outrem, essa sim é difícil de ser compreendida. Não vou negar que me sinto muito bem com determinadas situações ou com o profundo desalento de alguém, só me resta saber se esta é uma situação patológica ou se é algo inerente ao ser humano. Defendo a opção de que é algo comum, até porque se eu achasse que fosse uma reação patológica eu estaria me julgando um insano, psicopata ou qualquer coisa do tipo.

Uma pessoa que te faz sofrer, quando ela mesma sofre é inegável o sentimento agradável que vem junto com a vingança silenciosa que o destino se encarregou de executar. Quando se está pesaroso e encontra alguém na mesma situação, o pesar do outro se torna um tipo de consolo que alivia o seu próprio sofrimento, é o fato de não se sentir sozinho que alivia, é não se sentir um esquecido pela humanidade na escuridão de seu sofrimento.
Lovato
Enviado por Lovato em 30/09/2006
Código do texto: T253248
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Sobre o autor
Lovato
Londrina - Paraná - Brasil, 32 anos
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