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Silêncio

Veja a imensidão do espaço sideral escamoteada habilmente pela nossa ilusão do eterno azul, às vezes cinza, que só é assim, pois temos o astro rei para nos iluminar. Espaço, vácuo, silêncio. Não o nosso silêncio, aquela pressão gostosa nos tímpanos que ressoa mesmo quando nada balança. Mas o silêncio total, nada se propaga. Aquilo, o nada, o silêncio é o começo de tudo, o resto? Apenas átomos.

Contudo um número expressivo deles. Caoticamente batendo para lá e para cá, trocando energia, se transformando, hora em ondas hora em partículas. Dissimulando-se e arrumando-se. Através de décadas de carvão à diamante. De chuva à pedras desgastadas. A existência é assim, aquela gota constante que vai pingando e não liga se a cada vez a pedra desgasta mais um pouco. Cada gota percorre seu único caminho e não têm a mínima consciência do que as outras gotas fizeram. Cada trabalho individual de cada gota é sozinho por si e isolado. Cabe ao ser humano, quebrar essa eternidade do silêncio caótico e dar o nome de goteira.

Quebrar o silêncio só o afirma cada vez mais. Quem nunca viu em um filme, por exemplo, aquele escalador que sozinho está a se aventurar na escarpa de alguma pedreira quando em um acidente cai, daquela imensidão, e onde o barulho de seu grito é sumariamente engolido pelo silêncio indiferente do ambiente? O silêncio a tudo governa, por isso talvez a música seja uma demanda sempre notada em todas as sociedades existentes. Queremos fugir do silêncio?

Átomos e silêncio, a isso somos reduzidos – e por um capricho, em nosso nível de organização temos nossa existência, nossa visão, que não vê mais que simulacros. Mais que a aparência emanada da configuração da realidade. Somos crentes de tudo e sabedores de nada. Mas quem pode nos dizer que isso é errado? Essa é a nossa realidade, é assim que ela vêm até nós. Nem, por isso, também, devemos esquecer desse fato. Viver sobre o pensamento e pensar sobre a vida.

Acontece, comumente, que tememos esse silêncio. Esse contato conosco mesmo que nos reduz a somente nós. Só nós e o silêncio. Só nós e a tagarelice diária na tentativa frustrada e frustrante de fugirmos de nós mesmo. Fazer barulho para quebrar o silêncio, sem sabermos nós silenciosos, eternamente, no eterno agora do único momento em que ele pode se manifestar, agora. O silêncio que dura, que perdura, que insiste, em ser quebrado, não percebem que ele sempre se recompõe, substituo então a famosa máxima, “o tempo destrói tudo” para “o silêncio a tudo silencia”. Cabe a cada um viver como pode. E ouvir melhor possível o silêncio, aturar o quanto puder e conseguir.

leandroDiniz
Enviado por leandroDiniz em 27/10/2006
Código do texto: T275473
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Sobre o autor
leandroDiniz
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 34 anos
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leandroDiniz