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Tempo

O tempo. Palavra limitada, especialmente pelo seu significado. Espaço temporal marcado, assim dita o tempo que nos rouba os anos, envelhecendo-nos de dia para dia, sem qualquer tipo de complacência.
Um ditame sem solução. Uma verdade inabalável. Os dias, horas e minutos dominam o nosso quotidiano, fazendo de nós os seus mais servis escravos. E nós esperamos, talvez por um esquecimento, um perdão, de mais algumas horas de vida. Pretensão naturalmente rejeitada. Tudo se esfuma, transformando sonhos e desejos em puro pó.
Nuvens negras ensombram o ceú. O caminho talvez o reencontre amanhã. Procuro, enquanto isso, um coração de ouro. A  imortalidade escrita sob um epitáfio de uma condição mortal. Uma inverdade.
No entanto, continuamos a buscar, reviramos arcas cronológicas. Somente sentimos o envelhecimento, o correr da areia na ampulheta. E quando viramos o relógio para nova contagem, sentimos a dor do passado, escrito em recordações latentes.
Tudo em mutação, num frenesim próprio, com uma vontade inabalável. Não revelem a  ninguém mas estou a escrever exilado num lugar escondido, pois fugi do manicómio, sendo, por isso, procurado pelas autoridades psiquiátricas (isso existe?). Muros levanto e derrubo na escrita, puros assomos de loucura. Ao som de jazz, Miles Davis, instrumentalizo a minha demência. Vivo da improvisação, do impulso de ser.
Prometo-vos uma tragédia on-line tão em voga nos dias de hoje. Uma invenção pós-moderna dos marketeers, que determinam vontades e obrigam os seus seguidores ao consumismo. Sangue não, apenas poderão vibrar com o meu.
Esses, que nome lhes hei-de atribuir... os tais que vendem banha da cobra, transformada em historinhas de polichinelo, tragédias horrendas em directo para todos se deliciarem sadicamente. E se não assistiu atempadamente poderá sempre acompanhar em revistinhas e imprensa de chacha, ávida de fotografias escandalosas.
Um verdadeiro circo, criado para gerar cifras milionárias. Iluminado por uma ironia, o criador construiu um chapiteau gigante. Venham assistir: malabaristas, trapezistas, homens fenómeno, palhaços, domadores e um sem número de artistas.
Olho o passado, não para trás – poderei tropeçar em algum obstáculo pelo caminho, enquanto caminho em frente – e imagino balancetes contabilísticos. Impossível, numerar, somar, dividir, subtrair ou sequer multiplicar a arrogância da juventude. Nasci com os defeitos todos. Irascível, impulsivo, teimoso, insaciável, incorruptível, determinado, tudo bem condimentado por uma revolta e uma forma de estar activa e marginal. Podem chamar-me de inadaptado, quero lá saber.
Rio desalmadamente. Tal qual a minha alma de mim. Entro num jogo em que rastejo ao fundo do meu eu. Brinco com questões, que se multiplicam exponencialmente. Um jogo do gato e do rato. Quem foge, quem é apanhado: o louco dentro de mim.
Enquanto rascunhava - não no papel branco imaculado - meia-dúzia de palavras o mundo seguia em frente.
Penso onde vivo, onde existo como eremita, distante de tudo, não de todos (também seria cruel demais), onde não há pescadores – embora gostasse de ser um. Uma terra rodeada de serras que tocam o ceú. Vivo maravilhado pela alva. Deslumbrante, o sol rompe espalhando luz, aquecendo as almas frias da noite. A natureza fascina-me pela sua simplicidade. Altivez. O espaço acalma as tempestades dentro de mim. Abstracto voga ao sabor de um vento sadio e tranquilo
A vida assume contornos ilógicos. Uma ironia em doses maquiavélicas. Ri-se repetidamente da nossa condição, das nossas imprudências.
E se nós nos rissemos dela, em enormes gargalhadas. Tal qual assistissemos a um devaneio propositado dos Monthy Python.
Kadú
Enviado por Kadú em 03/11/2006
Código do texto: T280864
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Sobre o autor
Kadú
Luanda - Luanda - Angola
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Kadú