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Uma questão sobre Epicuro

     A filosofia de Epicuro é uma tentativa de tirar o homem da alienação. E para isso ele elabora várias práticas e procedimentos, que lembram muito a literatura de auto-ajuda hodierna, que têm a pretensão de resolver todas as mazelas humanas. Uma dessas práticas é concedida por Epicuro como uma receita, que expressa sua ética, também chamado de tetrafármacon. Esse remédio era assim expresso: 1) são vãos os temores em relação aos deuses e ao além; 2) o pavor em relação à morte é absurdo, pois ela não é nada; 3) o prazer, quando o entendemos corretamente, está à disposição de todos e 4) finalmente, o mal dura pouco ou é facilmente suportável. (REALE e ANTISERI, 1990, p.249-250). Em outras palavras, o tetrafármacon ensinava que a preocupação humana acerca dos deuses era vã, pois eles eram indiferentes à vida humana. Os deuses não influenciam em nada a vida humana, ou seja, os homens estão “sozinhos” para resolver seus problemas. Somos livres e capazes de encontrar soluções para tudo aquilo que está relacionado à vida social e não precisamos recorrer aos deuses para isso, até mesmo porque eles não poderiam e nem quereriam fazer algo a respeito. O segundo ensinamento é relativo à morte. Por que temê-la? A morte é o não-ser. E o não-ser é algo destituído de importância já que esse é a ausência da existência. As mazelas humanas existem apenas no ser, enquanto que o não-ser é a ausência dessas mazelas. E para Epicuro o importante é fornecer uma fórmula farmacológica para que o homem liberte-se dessas mazelas, mas se elas só existem no ser, então para que se preocupar com a morte; já que elas não existirão mais? A terceira receita do tetrafármacon é relativa ao prazer. Para Epicuro o “verdadeiro prazer vem a ser a ‘ausência de dor no corpo’ (aponía) e a ‘falta de perturbação da alma’ (ataraxia)”. (REALE e ANTISERI, 1990, pp.246-247). O homem sábio deve saber escolher o prazer correto, ou seja, aquele que “não comportam em si dor e perturbação”. Para Epicuro o prazer é o maior bem da humanidade e está à disposição de todos. E por fim, o mal, ou seja, a dor é breve e facilmente suportável.
     Se analisarmos bem esse quadro, veremos que sua proposta de desalienação na verdade é uma alienação. Uma fórmula que capacita o homem a desconsiderar os deuses (ou deus) e a morte, ter na ausência de dor (prazer) seu maior bem e considerar a dor (desprazer) como algo efêmero, na verdade coloca o homem num estado de alienação. A partir do momento que o homem consegue suportar todas as mazelas referentes à vida sendo indiferente à própria mazela, não significa uma desalienação, nem muito menos um autoconhecimento, mas puramente uma alienação absoluta a tudo que é referente ao ser. Nas próprias palavras de Epicuro: “O sábio será feliz mesmo entre os tormentos”. (in REALE e ANTISERI, P.250). A aniquilação da tristeza não nos coloca numa posição superior, mas eliminamos um dos sentimentos que caracteriza-nos como seres humanos, seres que não são indiferentes, seres que reagem conforme suas experiências. De maneira que a eliminação da “dor”, ou seja, dos sentimentos “negativos”, representa a eliminação da metade de nossa própria essência. E ainda posso ver outro problema, como podemos ter certeza que esses sentimentos negativos ou positivos podem ser compreendidos objetivamente? Se entendemos que os sentimentos são subjetivos, teremos como prazer a autoaniquilação, caso analisarmos esse procedimento numa cultura que entenda o suicídio como bravura.
     Enfim, Epicuro acaba sugerindo uma autoalienação do mundo para que o homem não sofra as mazelas inerentes à vida. E penso que esse proceder é uma atitude covarde, ainda que seja sincera, mas uma filosofia que propõe um estado de felicidade pleno em qualquer situação, principalmente diante de situações complicadas, é ter como virtude maior a indiferença.
Rodiney da Silva
Enviado por Rodiney da Silva em 28/11/2006
Código do texto: T303587

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Sobre o autor
Rodiney da Silva
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 46 anos
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Rodiney da Silva

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