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Ele, presente.

Mas esperava. Paciência. Mais do que isso, esperava que os quilômetros de estrada não estivessem em lugar nenhum no dia seguinte, que todas as cidades fossem uma só, que todas as ruas fossem a dela, que as pessoas estivessem um pouco mais próximas e o cara ali ao lado fosse ele. Esperava congratulações, desejos de felicidade. Mas esperava mais: beijos, abraços, declarações… Seu pacote amarelo com laço de fita vermelha era ele – e talvez algumas promessas de coisas pra sempre, por que não? Nenhum presente seria melhor, seria maior do que a presença da claridade daqueles olhos, da vida que existia naquelas risadas…
Ninguém sabe se por ter falado com um amigo de um vizinho de uma conhecida do irmão da moça, se por ter conversado com pessoas por redes virtuais, ou por ter decidido que faria isso e pronto, ele resolveu tomar um banho, tomar coragem e tomar um ônibus. Iria até ela de qualquer maneira. Faria uma surpresa. Não de aniversário – não gostava disso – mas no dia do aniversário, porque ouviu certa vez que as mocinhas, em geral, esperam grandes coisas nesses dias, ainda que disfarcem. Juntou umas músicas, escreveu umas palavras, ensaiou frases secretamente em frente ao espelho.
Despertador tocando, ela acordou. Estava igual. Tudo exatamente igual ao dia anterior. Mas ainda tinha uma porção de horas pra fazer de conta que não esperava por grandes emoções. Seguiu a vida.
Foi mais tarde, quando ela já estava no trabalho, perdida em seus afazeres de todos os dias e cansada de ouvir parabéns e desejos furados de coisas boas, que ele chegou. Sem maiores dificuldades encontrou o endereço. Entrou sem chamar muita atenção, o que era um bocado novo, em se tratando dele. Nem perguntas, nem vizinhos, nem cachorros, nada. Tudo estava parecendo tão fácil. Ele sorriu. Na prateleira, deixou as músicas, as margaridas, as palavras. Ela saberia que o presente era dele, ah! Certamente. Só de ouvir os primeiro acordes gravados, ela saberia. Ficou parado ali, observando e imaginando a reação dela quando chegasse. Deu uma espiada no relógio, não faltava muito.
Saiu. Para esperá-la em outro lugar. Seria bom vê-la de verdade e não só em seus sonhos.
Decepcionada que estava com o dia acabando sem nada de extraordinário, ela entrou em casa sem reparar na porta só encostada. O sorriso ao deparar-se com a surpresa ali ao lado da televisão, era meio de alegria, meio de susto.
Flores. CD. Envelope. Quem? Palavras bonitas. Um encontro. Quem? Não havia nenhuma assinatura.
Sua vontade de que fosse ele quase a fez acreditar nisso. Não, não… tentou ser realista e pensar direito. Ele não teria entrado em sua casa, deixado aquilo tudo. Ele não estaria esperando por ela como dizia o bilhete. Deveria estar lá, tanto asfalto longe dela, fazendo qualquer coisa que se faz num fim de dia.
Ele não entendia por que ela não aparecia. Esperar era tão ruim. Tentou imaginar qual o caminho que ela faria até ali, para poder segui-lo ao contrário até a casa dela.
Ela finalmente cansou de esperar por bobagens. É, ela estava cansada dessas meninices de grandes surpresas, grandes presentes, grandes acontecimentos. Era só mais um dia.
Pensou que nenhum presente seria como ele ali. Mas ele não estava presente.
A campainha a tirou da melancolia. No escuro que estava lá fora, o olho mágico não fui útil. Mas o sorriso que veio depois iluminou qualquer coisa que precisasse ver.
- Desculpe lhe não avisar que viria.
Presente. Ele presente.
Ela lembraria pra sempre, e nada de lembrançinhas
Fer Bainy
Enviado por Fer Bainy em 02/12/2006
Código do texto: T307343

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Sobre a autora
Fer Bainy
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 25 anos
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Fer Bainy