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O peso da incompreensão



Quando nos vemos prestes a perceber-nos perdidos, aqueles breves momentos em que se pensa estar a um passo de toda compreensão de quão rala é a existência humana, tendemos a procurar o primeiro poste para apoiarmos e nele nos agarramos com total certeza de que se não o tivéssemos feito estaríamos realmente perdidos.

Quando percebemos que todas as idéias são lindas até serem maculadas com palavras, fossem elas escritas ou faladas, reduzimo-nos a nossa total incapacidade de mostrar-nos como somos. Aparentemente, acostumamos a reduzir compreensão a fim da comunicação, ficando feridos para todo o sempre com essa praga.

Temos que comunicar mesmo depredando toda a nossa construção mínima na idéia. Seja por isso que uma grande obra tenha que ser entendida no todo, da primeira tela a última da primeira letra ao ultimo ponto, do primeiro movimento até seu cessar. Alguns compreendem que não há como se comunicar e sim como expor tudo o que se quer, antes de ser rebatido.

Às vezes sabemos que algo irá acontecer, assim como sabemos o que escolher em certas decisões, mas mudamos nossa razão a fim de testar-nos irremediavelmente caindo nas mãos de nossas próprias armadilhas. “Vou ser assim agora, mesmo não querendo ser assim” e assim, continuamos rumo à incompreensão global.

Paro de falar, prezo o silencio, esse que é uma parte do falar. O que seria da fala sem o silêncio. Essas pequenas pausas, flexões, entraves e demais silenciosidades que garantem o bom lugar da fala. Atualmente muitas pessoas não dão o devido valor ao silêncio ao falar, parecem querer acabar com ele, esmagá-lo em meio a tal tipo de fala ininterrupta.

Quantos já não se viram no meio da conversa mais importante de suas vidas e não tinham como falar? Qualquer palavra reduzia as idéias a um nível tal que seria impossível conversar, tal tipo de profundidade existem os significados em nossas mentes, incapazes de seres transmitidos, ainda mais por uma simples frase.

Quanto podemos ler ao sairmos dos papéis e focarmos nas essências. Olhando para cada flicar de olho, cada contração da bochecha, aquele estalar de dedos, um massacre ao chiclete dentro da boca, uma respiração mais pesada, aquele ajeitar eterno dos cabelos, o suor, as lágrimas ocultadas, a dor entorpecente, a alegria contida.

Como sentimos quando ouvimos um acorde que quer dizer muito mais do que um livro inteiro? Que tipo de mágica temos nos ouvidos que determina um sentimento tão vastamente explicável e o representa muito melhor em uma vibração do ar do que podemos dizer. Saímos das palavras cantadas, deixamo-nas de lado por um instante e pensemos o quanto elas são incapazes de dizer, proferir aquele mais intimo instante que o som, pesado ou suave, consegue conter dezenas de adjetivos em meros segundos seguidos transformados em horas internas.

Duvido alguém dizer o quão é determinante aquele andar decidido ou o caminhar desiludido em que ombros passam a total mensagem do desanimo em todo o seu esplendor. Quiçá aquele agudo que nos incomoda e nos faz sofrer, assim como toda uma seqüência de meras palavras.

Descobrimos quanto é frágil nossas existências e o quanto buscamos para ocultar essa fragilidade inerente a nossa condição. Essa perfeitamente expressa ao saborearmos nossa inutilidade ao querer dizer tudo ao mesmo tempo e não conseguir, nossa nulidade ao tentarmos transpor o corpo do outro e agarrá-lo pela alma. Tentamos, nunca conseguimos.

Fusão e separação todos hermeticamente condenados ao fracasso pela posse. Quando a união vira individuação de todos coesos, mas separados e por isso mesmo como um todo e a separação tornando cada pedaço do todo muito mais importante do que ele realmente é.

Evitaria escrever agora, pois já não sei mais como expressar o que sinto. Queria convidar a todos a reunir todos os pedaços da minha alma e tentar, com certa dificuldade, compreendê-la. Ou melhor, que cada um compreendesse a sua própria alma a fim de saber que ao compreender-se a si mesmo estaria compreendendo a todos os outros a sua volta e com isso tirando um peso das costas de todos. O peso da incompreensão.

leandroDiniz
Enviado por leandroDiniz em 23/09/2005
Reeditado em 23/09/2005
Código do texto: T53180
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Sobre o autor
leandroDiniz
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 34 anos
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leandroDiniz