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A Liberdade

Dizem que somos livres. Será? Tenho minhas dúvidas. Um dos aspectos mais distintivo entre nós e os animais é a liberdade, por exemplo, de escolha, dentre outras. Por outro lado, quanto maior for a mesma, proporcionalmente será as escolhas, responsabilidades, angústias. A meu ver, há restrições, pois nem sem sempre podemos escolher, ir e vir fazer o que dá na telha. Assim, inexiste o sentido literal desta palavra, ao pé da letra, de forma absoluta. Vamos falar neste caso da liberdade meio-termo.
Prós
É fato que nós, seres humanos, temos a capacidade de julgar determinadas questões, escolher alternativas, cada um de nós possuímos uma balança, na qual pesamos as decisões que tomamos, se forem sóbrias e sábias, melhor para todos, do contrário, os pesos e medidas serão ajustados não por mim, tampouco por você, mas por um outro alguém no dia do julgamento.
Isso é tão certo, que há algo chamado consciência, uma capacidade inata e universal dada aos homens. Uma espécie de tribunal. A consciência estimula na tomada de decisões (sempre será as certas, neste caso), depois das ações praticadas, sejam boas ou ruins, passará pelo filtro da consciência, julgando-as. Este nosso tribunal jamais apontará para as deliberações erradas.
Todavia, o ser humano também tem a opção de ir contra a natureza da consciência, fazendo coisas que vão de desencontro com a função da mesma. Portanto, todos nós temos a noção do justo, correto, sensato, bem, mal, podemos escolher entre os caminhos apresentados.
Muitos cauterizam a consciência, perdem a noção das coisas, mas mesmo assim, ela está presente, ainda que esteja inata, imóvel, congelada. A mesma liberdade capaz de destituir do poder um ditador, é a mesma responsável por substituí-lo, originar guerras, criar armas destruidoras, extinguir vidas, manusear as massas. Não podemos negar sua existência. Antes, sim, fazer escolhas, se expressar, ter uma religião, divulgar ideias, contudo, sabemos não ter sido sempre desta forma, tampouco em todos os lugares.
Fica a reflexão, sem a capacidade de escolher, deixamos de ser seres humanos? Na famigerada obra Laranja Mecânica, o protagonista Alex, um jovem delinquente, ao ingressar na cadeia, passa por um ‘’tratamento’’ chamado técnica Ludovico, uma verdadeira lavagem cerebral, tudo em prol do bem da sociedade. Alex fica impossibilitado de cometer novos crimes, nos quais encontrava muito prazer, diversão, adrenalina. A violência, crueldade não eram doenças para serem tratadas. Neste caso, Alex amava sua vida de crimes. Até o Estado mudar esse ‘’prazer’’ peculiar.
Sem poder estuprar, roubar, espancar, drogar-se livremente, os médicos, pesquisadores transformam o rapaz numa espécie de cobaia da ciência. Um robô programado conforme convém, uma máquina fria incapaz de fazer as próprias escolhas, ainda que sejam as piores possíveis. Não cometeria coisas odiáveis, mas não era isso o desejável pelo garoto. A humanidade depende do livre-arbítrio, sem ele, somos como um organismo vivo (laranja), embora, mecânicas, programadas para um determinado fim, perdemos nossa identidade, ainda que não seja das melhores, como no exemplo citado. Chegamos então ao veredicto, a liberdade existe sim, não plenamente.
Contras
Nem tudo são flores. Não dá para ser livre plenamente, muito menos, o tempo todo. Há barreiras, restrições, controles, condicionamentos, universalismos, adestramento comportamental, drogas ‘’licitas’’ e ilícitas. Em Fahrenheit 451 as pessoas são proibidas de ler, terem livros. No Admirável Mundo Novo, são ‘’fabricadas’’ em massa, formam castas, programadas para tudo. Em 1984, vigiadas por tele telas, na pequena Oceania.
Hoje em dia, não é muito diferente. Sofremos constantemente tentativas de lavagem cerebral das mais variadas formas. Tem que ter isso e aquilo, ser isso e aquilo (BLÁ, BLÁ, BLÁ, BLÁ), somos proibidos de ser reais, sinceros, sérios. A sociedade nos bombardeia. Às vezes, até mesmo pensar, falar, agir, transformar, chorar, sorrir, querer.
Como se não bastasse, em breve seremos tantos no planeta Terra que não descarto a ideia de sermos identificados por meio dos números, nossos velhos companheiros. Talvez estarão em nossos pulsos, seremos ‘’fabricados’’, programados, classificados em classes (OPS! Quis dizer ‘’castas’’). Não bastará os números dos documentos, toda essa parafernália conhecida. Não teremos nomes, mas números. Quem sabe seja uma combinação das duas coisas.
Não preciso nem ressaltar sobre o constante monitoramento, este fala por si só. Estamos sendo vigiados (SORRIA!), nossos dados estão na rede, nas mãos do governo, instituições, está aí o crime cibernético que não me deixa mentir. Quem já ouviu falar no BBB? É tão séria a questão da vigilância, faz parte até da cultura de um povo, mesmo estes não percebendo a fera (CÂMERAS) espreitando o ambiente. E a espionagem, 007, James Bond, a vigilância vai além das fronteiras, governos. Não precisa se inimigo do Estado, o qual, por sua vez, detém-nos como um terrível monstro chamado leviatã. Estamos presos nesse labirinto sem saída. Entregues à própria sorte. Presas fáceis. Iscas apetitosas.
Liberdade para ir e vir. Se fosse assim não existiriam prisões. Não temeríamos sair de casa. Muitos não teriam sido presos, torturados, sequestrados, exilados, perseguidos, mortos. Alguém, por exemplo, enclausurado atrás das grades, geralmente, lá se encontra por ter exercido a liberdade de escolha, perdendo consequentemente a de ir e vir. Será as grades nossa maior prisão?
Liberdade para fazer o que dá ne telha. NÃO, MIL VEZES NÃO. É LÓGICO. Se assim fosse, seria uma completa anarquia, celeuma, balburdia, não é o desejável. Aqui chega ao ponto a partir do qual é possível compreender porque até para a liberdade deve haver restrições. Se todos vivem da forma como querem, estaremos vivendo em uma terra sem lei, um verdadeiro caos, desordem.
Lembram dos filósofos contratualistas? O estado de natureza? Então, seria uma guerra de todos contra todos, mataríamos por qualquer motivo, dentre outras coisas. Seriamos primitivos, bárbaros, rudes, ácidos, reativos, grotescos. O estado de natureza é antes de tudo um estado de crueldades, selvagerias, barbaridades, violências. O medo é o principal elemento. Liberdade plena, absoluta.
Mas sabemos que não é assim, ainda bem. Hoje, contamos com o Estado para garantir proteção, negociar conflitos, preservar a propriedade privada. As leis ajudam neste processo. Tudo isso graças ao acordo assinado entre a sociedade como um todo e é claro, o Estado, detentor da administração, legislação, execução. Obviamente, grande parte da liberdade até então desfrutada teve de ser entregue ao Estado, o qual tem a legitimidade para usá-la como convém. Desta forma, a morte violenta é reduzida, graças ao norteador da vida em sociedade.
Liberdade para escolher. Nem sempre. Imagine uma pessoa, por exemplo, que de repente fica gravemente enferma. Uma doença incurável, voraz. A morte é iminente. Ela escolheu isso para si? Existem coisas que fogem do nosso controle, não estão ao alcance das mãos, não podemos escolher, é inevitável, acontece. E as crianças, um outro exemplo. Por se tratar de indivíduos em formação física, emocional, psicológica, cognitiva, ainda não são capazes de fazerem as próprias escolhas, precisam da presença constante dos adultos, responsáveis legais, encarregados de tomarem as decisões no lugar dos filhos, visando o melhor para os mesmos. Isso sem citar o papel da consciência, ainda em estado embrionário nos pequeninos, desta forma, a noção do certo e errado vai ganhando corpo com o passar do tempo, assim como a captação de valores, princípios, os quais contribuirão para a formação do caráter e personalidade.
A liberdade é parcial, mas ainda assim podemos escolher muitas coisas. Como o bem e o mal. A jornada é feita pelo peregrino. Existem homens presos nas ruas, outros, livres nas prisões, tudo é questão das escolhas que fazemos.
 

jaque sousa
Enviado por jaque sousa em 12/08/2017
Código do texto: T6081750
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
jaque sousa
Davinópolis - Maranhão - Brasil, 20 anos
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jaque sousa